Ray Gunn: Ficção científica extravagante do diretor de Os Incríveis critica a indústria e tem papel irresistível de Scarlett Johansson
por Diego Souza Carlos

Parte da 50ª Mostra de Cinema de SP, filme idealizado há mais de 30 anos chega ao catálogo da Netflix em dezembro de 2026.

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Vivemos em uma era em que alguns dos sonhos de grandes cineastas finalmente se concretizaram. Entre Megalópolis de Francis Ford Coppola e O Bosque Selvagem, da Laika Studios, que levaram décadas para serem produzidos, a 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo foi um dos poucos espaços no mundo a apresentar Ray Gunn nas telonas.

Na mente de Brad Bird por cerca de 30 anos, a animação demorou para decolar por sua própria ambição: um universo robusto e retrofuturista que deixou estúdios acuados por diferentes aspectos, incluindo execução e risco por suas complexidades.

Por sorte, o diretor de Os Incríveis e Ratatouille não desistiu da ideia e conseguiu, com a tecnologia atual e sua considerável aclamação, dar vida ao seu sonho ao lado da Netflix e da Skydance Animation. Essa maré sortuda não diz respeito apenas ao desejo de um realizador, mas também ao público, pois Ray Gunn é tranquilamente uma das peças mais interessantes da atualidade.

Ray Gunn é o irmão mais velho de Os Incríveis

Para qualquer fã de animação, uma das melhores linguagens cinematográficas na minha humilde opinião, saber que um novo filme de Brad Bird está prestes a estrear é motivo de alegria. Essa empolgação me tomou logo nos primeiros minutos da sessão, quando o mundo de Ray Gunn se abriu na tela. É compreensível que muitos estúdios tenham ficado receosos em levar a visão do cineasta para frente, já que o que é visto ali é impressionante.

Veículos, diferentes tipos de criaturas e alienígenas, tecnologias esteticamente expressivas e uma vida pulsante tomam conta do início do novo filme do diretor de Os Incríveis 2. O longa dos super-heróis da Pixar já nos mostrou como a visão retrô do artista é composta em cena, mas o título noir vai além ao adicionar elementos futuristas à equação. É uma experiência visual vibrante a partir de uma criação de mundo completamente extravagante.

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Apesar de todo o ar de magnitude que preenche a tela - quase um lembrete de que provavelmente teremos que ver o longa outras vezes para observar tudo -, entendemos rapidamente que essa sociedade é tão falha quanto qualquer outra sob o regime capitalista, pois a desigualdade é nítida. Enquanto vemos projeções gigantescas pairando sobre a cidade de Metropia, entendemos que as diferentes espécies foram absorvidas pela sociedade em um paralelo às minorias - a partir da segregação e, eventualmente, da subserviência.

Dos não-humanos, quem prospera normalmente está subjugado ou parte para atividades ilegais para sobreviver. Essa consciência dá o tom desta produção noir que não deixa de lado todo o texto ágil de Bird, com a liberdade de se apoiar em temas e expressões nada leves, mas completamente bem-humoradas, pois o público-alvo aqui não são as crianças.

Os fãs esperançosos por Os Incríveis 3 já podem matar a saudade do traçado do realizador com este universo que, por inúmeros motivos, parece um irmão mais velho da franquia de heróis. Inclusive, o que colabora para essa sensação é uma deliciosa trilha sonora de spy-jazz e jazz noir composta por Michael Giacchino, um dos grandes expoentes musicais da sétima arte, com créditos em títulos como Batman, Up - Altas Aventuras, Zootopia, Homem-Aranha: Um Novo Dia e, claro, os dois títulos da Pixar que elevaram o nome de Bird.

Uma jornada ética com críticas à indústria cultural

Depois de apresentar os cantos mais bem iluminados - literalmente - e os totalmente obscuros de Metropia, Ray Gunn se atém ao bem relacionável protagonista e seu fiel parceiro de investigações, o alien Eye-Ra Kadok. O companheirismo entre eles elucida um pouco mais sobre como as relações entre humanos e extraterrestres são vistas, com o detetive em constante defesa do seu amigo que é humilhado em diferentes trechos da trama.

A segregação dos alienígenas não apenas faz alusão a grupos minoritários, como também colabora para outra temática da produção: a justiça. Ray é conhecido publicamente por ter sido expulso da polícia após ser condenado por corrupção, algo que, posteriormente, descobrimos ter uma certa reviravolta. Essa problemática do passado faz com que ele se apegue à ética e à justiça, pois pagou as consequências de algo que não fez.

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Esse embate o persegue até as últimas instâncias ao colocar o clássico cheque na mesa: se for preciso quebrar algumas regras para provar a verdade, o senso de ética e justiça cai por Terra? Essa discussão ganha mais camadas por comentários ácidos e cômicos sobre a indústria cultural a partir da introdução de Venus Nova, a cantora que evoca divas pop como Taylor Swift (em termos de popularidade) e Sabrina Carpenter (quando pensamos no modus operandi de usar a sensualidade à favor da própria arte).

Com um dos papéis mais atraentes, sexies e bem dirigidos de Scarlett Johansson, a personagem ganha a voz inconfundível da atriz de Tigre de Papel em uma atuação que flerta com ambiguidades. Enquanto assistimos a máquina que opera por trás da cantora - assessores, agentes, maquiadores, assistentes e toda uma cúpula da gravadora que coordena crises e passos da artista -, a animação recicla discursos interessantes sobre a fama e a produção cultural contemporânea.

A forma como artistas são "construídos" para se tornarem peças publicitárias ambulantes é bem explorada, dando ao filme um toque mais crítico à indústria que não apenas determina como cada obra deve ser conduzida, mas opera tudo o que envolve as engrenagens que soterram criatividade e arte para criar peças ajustadas ao lucro.

Não é perfeito, mas Ray Gunn é brilhante

Obviamente, Ray Gunn não foge de alguns problemas. Da obviedade dos cursos da trama ao problema de ritmo no miolo do filme, a animação se perde um pouco na própria ambição. Bird parece tomado por este sonho que permeou sua mente por mais de 30 anos e, em alguns momentos, deixa a trama inchada e os personagens sem saída - isso abre a porta aberta para conveniências e soluções apressadas.

Os problemas do longa, no entanto, ficam muito abaixo de todo o brilhantismo do cineasta em conseguir dar vida - com uma comédia deliciosa e cenas de ação bem coordenadas - a um universo retrofuturista que ainda poderia abraçar muitas histórias. Seus maiores méritos, além de ter uma animação com alto polimento e inventividade, estão em conduzir uma história extremamente cativante que se comunique com diferentes frentes do nosso mundo.

Enquanto nos eleva ao ar, literalmente, com Ray e Venus numa dança cheia de flertes, Brad Bird cria uma animação múltipla, que explora tanto o romance quanto tudo o que orbita um tradicional conto noir que não segura a mão com mortes, traições e, claro, investigações que nos levam a lugar sombrios. É mais uma obra-prima pela mente do cineasta que mais uma vez nos lembra o poder da animação e, aqui, discute problemas sociais nossos a partir de uma comunidade fictícia, sem didatismos.

Confesso que adoraria ver esse filme em 2D ou 2.5D, no um estilo híbrido de Aranhaverso, A Ilha Esquecida ou Gato de Botas 2, mas este é apenas o desejo de um jornalista que ainda exerga as possibilidade de uma arte cada vez mais em desuso no ocidente. Ainda assim, não tenho medo de reconhecer que a forma como Ray Gunn se apresenta é muito eficaz e charmosa. Muito charmosa.

Ray Gunn chega ao catálogo da Netflix em 18 de dezembro de 2026. Filme assistido na 50ª edição da Mostra Internacional de Cinema em São Paulo.

Diego Souza Carlos
-Redator | Crítico
Apaixonado por cultura pop, latinidades e karê, Diego ama as surpresas de Jordan Peele, Guillermo del Toro e Anna Muylaert. Entusiasta do MCU, se aventura em estudar e falar sobre cinema, TV e games.
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