Parte da programação da 50ª Mostra de SP, filme vencedor do prêmio principal do Festival de Cinema de Animação de Annecy é um imperdível drama histórico.
No início deste ano, o mundo viu um bonito fenômeno se desenrolar na temporada de premiações. Enquanto os brasileiros estavam felizes por diversas indicações a O Agente Secreto, toda a população da Letônia torcia por um gatinho de cor grafite. Após o protagonista de Flow ganhar o mundo, o filme levou o primeiro Oscar do país para casa, superando títulos como Divertida Mente 2 e O Robô Selvagem.
Ainda que não esteja cravando que o percurso será replicado aqui, há semelhanças entre o projeto de Gints Zilbalodis e A Violinista, longa que integra a 50ª Mostra de Cinema Internacional de São Paulo e, após ser visto pelo AdoroCinema, ganhou uma torcida na corrida pela estatueta de ouro mais cobiçada de Hollywood.
Sobre o que se trata A Violinista, filme vencedor do "Oscar das animações"?
Primeiro filme de Singapura a vencer o principal prêmio do Annecy Festival, uma das principais premiações da indústria de animação, A Violinista é uma obra de arte. Iniciado como um curta-metragem há 11 anos, o projeto ganhou um escopo maior com direção de Ervin Han e Raul Garcia no desejo de apresentar uma história complexa a partir de um recorte específico da Segunda Guerra Mundial.
Inicialmente ambientada em Singapura, no final da década de 1930, a animação atravessa algumas décadas até os dias atuais ao mostrar a história de Kai e Fei, dois amigos de infância que, apesar das classes sociais distintas, cultivaram o sonho de serem grandes violinistas juntos. Quando o Japão invade a Malásia em 1941, Kai decide abandonar sua carreira musical para se juntar à resistência contra o exército japonês e desaparece.
Determinado a encontrá-lo, Fei faz apresentações com seu violino por todo o Sudeste Asiático, enquanto busca notícias de Kai. No entanto, quanto mais o tempo passa, Fei precisa decidir se deve encontrar o seu próprio caminho na música e como serão os próximos anos de sua vida sem Kai.
Não se engane pela simplicidade: A Violinista é um filme poderoso
À primeira vista, A Violonista parece entregar uma produção simplória e, de fato, o estilo animado não segue toda a elaboração de outras produções da linguagem. Uma vez que se opta pelo 2D, tanto pela influência de animes quanto para dar um ar atemporal à jornada história desses personagens, percebe-se que existe uma grande simplicidade no traçado do longa. Poucas expressões e a economia de certos contornos até podem ser estranhos no momento inicial, mas isso é também fruto dos acessos da linguagem em 2026 ao qual estamos tão acostumados.
Se a animação vai pelo caminho mais simples, a trilha sonora segue o contrário. Há uma imersão tocante a partir de toda a musicalidade do longa, que surge tanto na própria história quanto serve de embalo dessa jornada cada vez mais emocional. Como os personagens nos lembram em dois momentos, "o violino é o instrumento mais próximo da voz humana" e essa premissa é perceptiva, pois quando não existem palavras para expressar a dor, o amor e a saudade, as cordas vibram melodias que manifestam tais sentimentos.
50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo apresenta novo filme de Kleber Mendonça Filho após O Agente SecretoA Violinista, inclusive, faz mais pela música do que outros filmes que se propõem a investigar a arte através da ficção. O longa expande a paixão pelo som dos protagonistas pelo carinho que compartilham ao longo da vida, uma relação que é abalada pelos horrores da guerra - e, neste momento, a narrativa solar que se apresentava até o momento ganha traços de um thriller de espionagem e um drama melancólico.
Em uma era na qual, infelizmente, os conflitos armados ainda são uma realidade, projetos como este são fundamentais e expressam como a sobrevivência a tais disputas políticas e ideológicas afetam a vida de milhões de pessoas. Longe de ser uma produção infantil, a animação mostra como os bombardeios, mortes, a invasão dos militares japoneses e a fragilidade dessa sociedade foram temas reais de uma época com pouca esperança.
Enquanto ganha uma narração emocionada por parte de um dos personagens, vemos realidades caindo por terra. Ainda que acabe se tornando um drama épico histórico, o roteiro acaba não dando conta de preencher todas as lacunas dessas muitas décadas apresentadas na trama. Em determinado ponto, a montagem acaba por separar diferentes trechos como se fossem capítulos, algo que enfraquece a fluidez e a continuidade da história.
Em termos do poder emocional, os diretores conseguem utilizar com leveza e precisão a importância da musicalidade em tempos de sofrimento - algo que ambos os protagonistas descobrem com o tempo - e também apresentam um relato bem-vindo de uma parte da história que nem sempre está em evidência no audiovisual. Ao mostrar a que veio elevando o escopo da produção, A Violonista se torna tanto um belíssimo filme antiguerra como uma jornada emocionante sobre determinação, amor e resiliência.
Tudo sobre a 50ª Mostra de Cinema de SP : Quando começa, lista de filmes, onde assistir e quais são os destaques da edição de 2026Como dizem em mais de uma ocasião também, "os sonhos são o combustível da juventude" e ao fim das quase 2 horas de exibição é exatamente essa a chama que brota no coração do público. Não sei se o projeto conseguirá furar a bolha como fez Flow no passado e bater de frente com Toy Story 5 e O Bosque Selvagem, mas fica a torcida para que ele, além de ser reconhecido por diversas premiações pelo mundo, se torne acessível a todos aqueles que precisam de um pouco de esperança em tempos de crise.
Filme assistido na 50ª edição da Mostra Internacional de Cinema em São Paulo.