Uma análise bastante dura de todos os erros cometidos pelo filme de Steven Spielberg estrelado por Tom Hanks.
Existe um consenso em torno de que O Resgate do Soldado Ryan é um dos melhores filmes de guerra de todos os tempos, sendo frequentemente elogiado pelo tremendo realismo da obra de Steven Spielberg. De fato, chegou-se até a abrir uma linha telefônica de apoio para ajudar os veteranos da Segunda Guerra Mundial que ficaram abalados com o que viram nas telas.
No entanto, O Resgate do Soldado Ryan também foi alvo de duras críticas, como as feitas por William Goldman, roteirista vencedor de dois Oscars. Agora é a vez de conferir a rigorosa análise feita pelo historiador Mat McLachlan sobre todos os erros cometidos pelo filme estrelado por Tom Hanks na hora de retratar a Segunda Guerra Mundial.
Todos os erros da impressionante cena na praia de Omaha
Os principais elogios recebidos por 'O Resgate do Soldado Ryan' concentram-se em seu impressionante início, mostrando o desembarque das tropas aliadas na Normandia. No entanto, é uma sequência repleta de erros históricos, como explica McLachlan, a começar pelo menosprezo às forças britânicas, sugerindo que estavam demorando muito para tomar Caen, quando, na verdade, tratou-se de uma batalha sangrenta que durou seis semanas. Além disso, o historiador enfatiza o seguinte:
O filme perpetua o mito de que nenhum veículo blindado aliado desembarcou com sucesso na praia de Omaha. Isso não é verdade, e os tanques foram essenciais para retirar as tropas da praia.
Além disso, McLachlan considera que a representação das forças alemãs na ocasião é terrivelmente equivocada: "As defesas alemãs mostradas no filme são puro Hollywood. Os alemães de fato contavam com fortificações de concreto para proteger as praias, mas eram consideravelmente menores do que os bunkers de vários andares, do tamanho de prédios de apartamentos, que se veem no filme". E ele ainda acrescenta que se perpetua o mito do soldado alemão tolo no campo de batalha:
"Em uma cena inicial, um grupo de alemães sai correndo de um bunker após o lançamento de granadas, diretamente na mira dos norte-americanos. Mais tarde, a infantaria alemã avança atrás de seus tanques, dando aos norte-americanos a oportunidade de destruí-los antes de enfrentar a infantaria. O atirador de elite alemão (cuja função principal era alvejar oficiais) escolhe disparar contra um simples soldado raso em vez do capitão, claramente identificado, que está bem ao lado."
O historiador também aponta outra omissão incompreensível em relação à estratégia alemã: "Os alemães tinham obstáculos improvisados projetados para virar as embarcações de desembarque na maré alta. Consistiam em um grande tronco inclinado sustentado por uma estrutura, muitas vezes equipado com uma mina terrestre. A teoria era de que as embarcações de desembarque subiriam pela rampa e capotariam ou seriam destruídas pela mina". Não há sinal disso no filme de Spielberg.
Por outro lado, também há críticas à representação do lado norte-americano, pois McLachlan considera que há uma omissão imperdoável: "A razão principal pela qual as tropas norte-americanas conseguiram sair da praia de Omaha foi que os navios da Marinha se aproximaram da costa e destruíram as defesas alemãs".
Os erros vão ainda mais longe
McLachlan também vê um equívoco na escolha dos atores, já que eles não correspondem à idade que deveriam ter: "A média de idade dos soldados norte-americanos que desembarcaram no Dia D era de 22 anos, e o 2º Batalhão de Rangers, por ser uma unidade de elite, provavelmente contava com uma proporção ainda maior de jovens entre 19 e 20 anos". O único ator do elenco principal que se aproximava dessa faixa etária era Giovanni Ribisi, que tinha 22 anos quando gravou o filme.
No entanto, a principal queixa — e que já foi apontada por uma infinidade de espectadores ao longo dos anos — é que a própria premissa do filme não faz sentido. Embora seja verdade que existia uma política não oficial que impedia que irmãos ou parentes servissem na mesma unidade, além de prever que, se um irmão morresse em combate, qualquer outro irmão na ativa poderia voltar para casa, isso de modo algum justificaria a organização de uma missão de resgate suicida como a que vemos na produção:
No meio da maior invasão da história militar, onde o sucesso dos Aliados estava longe de estar garantido nos primeiros dias, nenhum general enviaria um pelotão de homens para adentrar território inimigo em busca de um único soldado, não importa quantos irmãos ele tivesse perdido.
A isso soma-se o fato de não fazer o menor sentido enviar homens de outra unidade, expondo-os a perigos muito maiores: "Tom Hanks e seus homens tiveram que caminhar mais de 40 quilômetros por território que ainda estava sob controle alemão, uma tarefa impossível nos dias seguintes ao Dia D".
Por fim, muito se falou sobre o realismo de certos detalhes do filme, como a lesão na unha exibida pelo personagem interpretado por Barry Pepper. McLachlan afirma que, no filme de Spielberg, "as armas e o seu manuseio costumam ser imprecisos", e, no caso do machucado no polegar do personagem de Pepper, há um detalhe especialmente revelador.
Embora fosse verdade que, naquela época, era comum o uso de fuzis M1 Garand e que recarregá-los incorretamente pudesse prender e machucar o polegar do atirador, há dois problemas aí. O primeiro é que o personagem de Pepper é descrito como um atirador de elite de primeira linha, e cometer um erro desses é algo restrito a novatos, o que não condiz com sua experiência. Além disso, no filme ele parece empunhar um fuzil Springfield em vez de um M1 Garand, o que invalida totalmente esse detalhe tão elogiado por alguns.
O Resgate do Soldado Ryan está disponível para streaming no Paramount+.