O lendário filme de Clint Eastwood que foi acusado de plágio por um dos maiores diretores da história. E ele estava certo: é uma cópia descarada
Marco Rigobelli
Marco é tradutor e redator. Tem uma história pessoal com O Bebê de Rosemary, acha que 10 Coisas que Eu Odeio em Você é um dos maiores filmes já feitos e pode passar horas contando fatos aleatórios sobre O Senhor dos Anéis.

"É um filme muito bom. Infelizmente, é o meu filme". Uma grande confusão que acabou com uma indenização milionária.

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O agora mítico Clint Eastwood era um jovem ator que só havia se destacado por sua participação na série de TV Correio do Inferno quando foi contratado para estrelar o faroeste Por um Punhado de Dólares (1964). Ele não foi, longe disso, a primeira opção de Sergio Leone, mas hoje em dia é difícil conceber qualquer outro ator dando vida a esse personagem que mudou para sempre a lendária carreira de Eastwood.

"É um filme muito bom. Infelizmente, é o meu filme"

Mas o que realmente me interessa contar hoje não diz respeito exatamente à trajetória de Eastwood, que se limitou a seguir as ordens de Leone para ajudar a dar forma a um dos spaghetti westerns mais aplaudidos de todos os tempos. Na verdade, ele até recebeu o elogio do aclamado cineasta Akira Kurosawa, embora suas boas palavras tenham vindo acompanhadas de uma acusación de plágio bastante séria.

Ninguém discute hoje em dia que Por um Punhado de Dólares é um remake disfarçado de Yojimbo (1961), um dos trabalhos mais celebrados de Kurosawa. As semelhanças são numerosas demais para serem negadas, mas foi precisamente isso o que Leone e os produtores de Por um Punhado de Dólares tentaram fazer após receberem uma carta do cineasta japonês na qual um trecho se destacava acima de tudo: "Vi o seu filme. É um filme muito bom. Infelizmente, é o meu filme".

O ideal teria sido tentar chegar a uma solução, mas não foi possível e houve um processo movido pela produtora do filme original, a famosa Toho, o qual Sergio Leone ignoró em primeira instância. Com o tempo, o caso foi avançando, com o diretor italiano alegando que tinha outras referências, entre as quais se destacava o romance 'Colheita Vermelha' de Dashiell Hammett, que também era uma influência clara no filme de Akira Kurosawa.

O caso acabou sendo resolvido por meio de um acordo extrajudicial, que sem dúvida custou mais caro do que teria custado se resolvido de início. A Toho ficou com os direitos do filme de Leone na Ásia, onde fez um grande sucesso, 15% da arrecadação no restante do mundo e uma compensação adicional de cerca de 100.000 dólares por todo o ocorrido.Com o passar do tempo, já em 1984, Sergio Leone abriu o jogo sobre o que havia acontecido com 'Por um Punhado de Dólares' em uma entrevista concedida à American Film Magazine. Na ocasião, o cineasta revelou o seguinte:

Venho logo depois da letra L no repertório de diretores, na verdade algumas entradas antes do meu amigo Mario Monicelli e logo depois de Alexander Korda, Stanley Kubrick e Akira Kurosawa, que assinou com seu nome a soberba Yojimbo, inspirada em um romance policial americano, enquanto eu me inspirei no filme dele para fazer Por um Punhado de Dólares.
Meu produtor não era muito esperto. Esqueceu de pagar Kurosawa pelos direitos, e com certeza Kurosawa teria se contentado com muito pouco, e por isso, depois, meu produtor teve que enriquecê-lo, pagando-lhe milhões de penalização. Mas é assim que o mundo funciona. De qualquer forma, esse é o meu lugar na história do cinema.

Isso sim, o acordo não incluía mencionar os roteiristas de Yojimbo, Akira Kurosawa e Ryūzō Kikushima, nos créditos de Por um Punhado de Dólares, de modo que, oficialmente, o remake continua sem ser reconhecido. Qualquer pessoa que tenha visto ambos os filmes pode comprovar as semelhanças; há inclusive alguns enquadramentos que são uma cópia bastante descarada por parte de Sergio Leone, o que não impede que seja um excelente faroeste.

A propósito, em 1996 foi lançado outro filme baseado em Yojimbo e, desta vez, esse fato foi devidamente reconhecido. Trata-se de O Último Matador, o faroeste que Bruce Willis estrelou sob a direção de Walter Hill e que, infelizmente, foi um enorme fracasso comercial.

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