Há 21 anos, Steven Spielberg nos surpreendeu com uma sessão dupla de ficção científica e drama que, até hoje, permanece absolutamente incrível
Marco Rigobelli
Marco é tradutor e redator. Tem uma história pessoal com O Bebê de Rosemary, acha que 10 Coisas que Eu Odeio em Você é um dos maiores filmes já feitos e pode passar horas contando fatos aleatórios sobre O Senhor dos Anéis.

A produtividade do diretor o levou a entregar dois filmes que dialogam entre si, como Guerra dos Mundos e Munique.

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Seja de maneira consciente ou inconsciente, os cineastas acabam fazendo filmes para despejar inquietações ou traumas que carregam há bastante tempo e precisam comunicar. Até o diretor mais paradigmático do entretenimento de massa e escapista, como Steven Spielberg, acaba usando seus superpoderes para desvendar aquilo que o mexe por dentro, exatamente como acontece agora com Dia D.

Seja recriando sua infância, denunciando o Holocausto ou até mesmo explorando como uma família tradicional e comum enfrenta o extraordinário, tudo em Spielberg acaba sendo uma expressão pessoal convertida em um espetáculo — às vezes mais surpreendente, às vezes mais profundo. Há fases que são especialmente marcadas por eventos que o impactam, sendo quase todo o seu desenvolvimento no século XXI um exemplo disso.

Steven Spielberg lançou Guerra dos Mundos e Munique no mesmo ano

Há um ponto de virada bastante claro em seu cinema a partir de um trauma nacional tão impactante quanto o do 11 de Setembro, e começam a surgir em sua obra filmes mais céticos em relação ao seu otimismo habitual e até diretamente políticos. Seu período que vai de 2001 a 2005, um dos mais inspirados de sua carreira (o mais inspirado, talvez), ganha uma certa textura agridoce quando tenta ser leve, e bastante obscuridade quando tenta ser divertido.

Não há melhor amostra do impacto que a queda das Torres Gêmeas e o posterior desdobramento armamentista de seu país tiveram sobre Spielberg do que o ano de 2005, quando ele emplacou uma de suas habituais sessões duplas, entregando o que parece ser um blockbuster de verão e um drama de prestígio. E, como acontece às vezes, Guerra dos Mundos e Munique acabam dialogando entre si de uma forma que parece tirar um peso das costas.

O impacto da guerra

No caso de sua adaptação do clássico de H.G. Wells, isso se nota de maneira muito clara. Os alienígenas que visitam a Terra, que em filmes anteriores do diretor sobre o tema se apresentavam pacíficos e diplomáticos, passam a ser uma ameaça e fonte de destruição. Uma destruição tão completamente visceral que parece recriar à sua maneira o impacto dos aviões no World Trade Center, do mesmo modo que ele fazia trens colidirem quando criança para processar o impacto de vê-los em uma tela de cinema.

O tempo fez bem à forma como Spielberg e David Koepp interpretam o material, indo além do mero brilho de um Tom Cruise que acabou absorvendo a promoção do filme. Guerra dos Mundos apresenta de maneira extraordinária o medo e la confusão que sucedem ao trauma inesperado, além de observar com ceticismo a resposta militar e governamental para apoiar seus cidadãos. Quando muito, aproveita a circunstância para absorvê-los em um aparato bélico brutal que opera frequentemente contra seus interesses e mais em função dos interesses de poucos.

Esse vigor político se desenvolve ainda mais com um filme destinado também a dar o que falar, como Munique, onde Spielberg acompanha as consequências diretas de outro ato terrorista, mas desta vez adaptando-o diretamente e sem lhe dar camadas de fantasia. Sua abordagem mais crua no cinema até hoje investiga a busca por uma retaliação vingativa e desproporcional contra uma afronta direta, criando unidades do Mossad para perseguir os líderes do ato pela Europa, enquanto em Israel continua-se a massacrar civis em sua fronteira.

O ciclo vicioso da desumanização

O filme ainda tem suas claras limitações ao não explorar o conflito palestino-israelense em toda a sua complexidade e como ele leva a episódios como o dos Jogos Olímpicos de Munique, mas seu olhar sobre as consequências é contundente e cheio de intenção. Spielberg e Tony Kushner observam com raiva a transformação de homens comuns em máquinas de matar por interesses ocultos e imperialistas de um Estado malicioso, algo que, em plena guerra contra o terrorismo no Oriente Médio, mandava uma mensagem clara. Seu retrato da vingança como um método de desumanização e de se tornar o monstro que se prometeu destruir o torna um filme de ação que vai muito contra a corrente, mas que continua bem vivo para o momento presente.

Dois filmes muito diferentes em sua escala e em suas histórias. Mas profundamente viscerais, além de provas de como Spielberg era capaz de fazer de tudo.

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