"Ele concordou em participar com uma condição": Sergio Leone quase trocou uma das estrelas de um dos maiores filmes da história do cinema
Maria Clara decidiu estudar audiovisual para juntar o melhor de todos os mundos. Apaixonada pelo cinema independente e também pelos famosos filmes da sessão da tarde, não dispensa indicações e nem julga um filme pela sinopse.

Sergio Leone possui em sua filmografia clássicos consagrados, mas ninguém esperava que até mesmo esse diretor de sucesso teve problemas com o elenco de um dos seus melhores filmes.

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Antes de imaginar James Woods como Max em Era Uma Vez na América, Sergio Leone nutria uma ambição bem diferente para seu memorável filme da máfia. O cineasta sonhava em contar com um dos gigantes do cinema francês: Jean Gabin. Uma ideia ousada, quase irreal, que chegou a ganhar forma por um tempo – sob uma condição inesperada.

Em meados dos anos 1970, Leone já trabalhava ativamente em seu projeto mais pessoal. Em maio de 1974, ele confessou ao amigo Noël Simsolo – crítico, escritor e roteirista – as ideias iniciais que moldariam o filme. Na época, o personagem Max não seria americano, mas francês, como o próprio diretor revelou no livro Conversas com Sergio Leone:

Foi no início [do projeto]. Eu queria que Max fosse francês. Não apenas por razões de coprodução: eu queria evocar os franceses que viviam na América...

O sonho francês de Sergio Leone

O diretor chegou a considerar várias opções. Gérard Depardieu estava entre elas, atraindo Leone por sua intensidade e experiência de vida: “Gérard Depardieu é um ator formidável. Ele estava louco para interpretar Max... Fiquei tentado. Achei que ele foi brilhante em 1900 e também sabia que ele tinha tido envolvimento com o submundo...

Mas, para retratar Max já idoso, Sergio Leone pensou imediatamente em uma lenda viva: Jean Gabin. Admirador de longa data do ator, Leone conseguiu encontrá-lo entre 1974 e 1975. Houve uma conexão imediata – e o cineasta guardou com carinho a lembrança desse encontro, marcado por uma exigência bem peculiar do astro francês.

Acho que [Gabin] gostou de mim. E eu sempre o admirei. Ele concordou em participar com uma condição: não viajar de avião. Ele me disse: ‘Escuta, Leone, vamos para a América de barco. Só nós dois. Assim, teremos bastante tempo para discutir o papel e preparar tudo. Eu não gosto de voar. Gosto de barcos. Conheço-os. Mas o que eu prefiro mesmo é o jeito “difícil”: o trem. É a maneira mais tranquila de viajar.’”

Quando o destino priva Leone de seu herói

O projeto, no entanto, nunca se concretizou. Em 1976, pouco depois de estrelar Holy Year (L'Année sainte), filme de Jean Girault, Jean Gabin faleceu de leucemia. A morte do ator foi um golpe artístico e pessoal devastador para Sergio Leone – e com ela, desmoronou todo o conceito inicial do filme.

Sem seu ator ideal, o diretor reconsiderou completamente a abordagem. Percebeu que aquela escolha poderia limitar o apelo universal da história e, no fim, decidiu optar por um elenco inteiramente americano. Em retrospecto, Leone explicou:

Ele foi uma inspiração para Sergio Leone e o faroeste spaghetti: Um dos faroestes mais influentes de todos os tempos está disponível no streaming

Senti que corria o risco de reduzir o alcance da história ao dar-lhe esse toque. Com um herói francês, a aventura pareceria um caso único... Não funcionava mais escalar um ator francês. E, ao fazer isso, também abandonei outra ideia: usar atores diferentes para cada fase da vida dos personagens. Haveria crianças, adultos e idosos... Todos pareceriam iguais...

Assim termina uma das histórias paralelas mais fascinantes do cinema: a de um Era Uma Vez na América conduzido, no seu crepúsculo, por Jean Gabin – um sonho interrompido, que permaneceu gravado na imaginação de Sergio Leone.

Era Uma Vez na América está disponível para streaming no Disney+.

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