Lançado quase em anonimato total em 1999, Mortos de Fome teve uma estreia desastrosa nos EUA, arrecadando apenas US$ 2 milhões – bem abaixo dos US$ 12 milhões necessários para cobrir seu orçamento. Um fracasso retumbante que poderia tê-lo condenado ao esquecimento... se não tivesse gradualmente conquistado o status de clássico.
Dirigido por Antonia Bird, o filme teve uma produção caótica. Guy Pearce, um dos atores principais, relembrou uma filmagem turbulenta, marcada por uma sucessão de diretores. O primeiro foi demitido após duas semanas, e em uma espécie de rebelião coletiva a equipe impôs Bird, a terceira pessoa a assumir o comando do projeto.
“Foi uma filmagem muito difícil”, contou o ator ao AlloCiné em 2012. “As decisões foram políticas. Tivemos que nos amotinar e impor um terceiro diretor, Antonia. O primeiro havia sido demitido após 15 dias de filmagem. Tivemos muitos problemas, inclusive com a trilha sonora do filme, porque a Fox queria impor Michael Nyman.”
20th Century Fox
Hollywood nunca soube como categorizar o filme híbrido. É um faroeste? Um filme de terror? Uma sátira política? Uma história real? Na realidade, Mortos de Fome é tudo isso – o que, sem dúvida, precipitou sua rejeição inicial. Mas é também essa singularidade que lhe confere sua riqueza e força.
Um conto canibal em um cenário de guerra e conquista
A trama se passa durante a Guerra Mexicano-Americana de 1846-1848. O roteiro é parcialmente inspirado na trágica história real da comitiva Donner, um grupo de 87 pioneiros americanos que tentaram chegar à Califórnia durante a Corrida para o Oeste, na década de 1840. Presos por fortes nevascas na Serra Nevada durante o inverno de 1846-1847, 36 deles morreram de fome ou doenças. Alguns sobreviventes foram forçados a recorrer ao canibalismo para sobreviver. No final, apenas 47 pessoas conseguiram chegar ao seu destino.
Impulsionado por uma direção inventiva e, por vezes, alucinante, o filme é repleto de cenas visualmente impactantes e humor ácido afiado. O elenco impecável reúne Pearce, Robert Carlyle, Jeffrey Jones, David Arquette e Neal McDonough. Juntos, eles dão vida a uma fábula mórbida e cativante.
Mortes de Fome fala de poder, dominação e da maneira como as sociedades se alimentam, às vezes literalmente, de seus próprios membros para sobreviver ou prosperar. Uma alegoria política arrepiante, disfarçada de filme de gênero. É uma obra rara, perturbadora e inclassificável, mas com uma riqueza temática e estética impressionante.