Críticas AdoroCinema
3,0
Legal
Divaldo - O Mensageiro da Paz

Tudo passa

por Francisco Russo

Filmes religiosos, independente do credo abordado, muitas vezes confundem cinema com louvação, como se um fosse intrínseco ao outro - ou, pior ainda, como se o ato de louvar a Deus justificasse todo e qualquer deslize cinematográfico. Seus melhores exemplares são aqueles que conseguem transmitir sua fé sem menosprezar nem judiar da inteligência alheia, por vezes até questionando e abordando falhas de forma a reforçar a mensagem transmitida. Assim foram A Última Tentação de Cristo e Silêncio, ambos dirigidos por Martin Scorsese, e Irmão Sol, Irmã Lua, de Franco Zeffirelli, filmes que conseguiram conjugar crença e cinema com extrema competência.

Guardadas as devidas proporções, especialmente em relação à ambição do projeto, é o que também consegue Clovis Mello, diretor e roteirista deste Divaldo - O Mensageiro da Paz. Cinebiografia clássica do médium baiano Divaldo Franco, o filme impressiona mais pela execução do que propriamente pela estrutura: dividido em três momentos de vida de seu protagonista, cada qual interpretado por um ator diferente, a narrativa acompanha de forma bem didática seu processo de evolução pessoal dentro da doutrina espírita, aprendendo aos poucos a lidar com a capacidade em falar com os mortos. Seu grande diferencial em meio à enxurrada de filmes religiosos que têm estreado nos últimos anos é que, ao invés de tentar catequizar o espectador, o roteiro se apropria do cotidiano da espiritualidade para transmitir não só seus ideais, mas também os próprios conceitos em torno da crença. Ou seja, a narrativa torna o tom didático em algo absolutamente orgânico dentro de tal proposta, em muito auxiliado pelo tom espirituoso impregnado no longa-metragem.

Neste aspecto, é importante ressaltar: ser espirituoso é diferente de condescendente ou mesmo ingênuo. Pode-se notar, ao longo de todo o filme, escolhas pontuais do diretor que dão à narrativa um tom mais leve, como a brincadeira na edição ágil envolvendo a conversa entre o jovem Divaldo e um padre, no confessionário, ou mesmo quando o personagem-título se engana ao atender pessoas já falecidas na tentativa de sacar a pensão, com direito a um comentário saboroso sobre a Previdência Social. Quem também auxilia (muito) neste sentido é o jovem Ghilherme Lobo, ex-Hoje Eu Quero Voltar Sozinho, cujo carisma cativante impulsiona o filme em seu ato mais importante.

O elenco, por sinal, é outro trunfo do filme. Se Laila Garin se destaca com a mãe de Divaldo, transmitindo a aflição e o carinho necessários em sua fase ainda criança, Marcos Veras cumpre de forma correta seu papel ameaçador em um personagem essencial para melhor compreender a dinâmica da doutrina espírita. O próprio Bruno Garcia, que surge apenas na reta final do longa-metragem após uma bela transição de gerações dentro da narrativa, também se adequa bem ao desafio trazido pela qualidade da atuação de seu intérprete anterior. Até mesmo Álamo Facó aparece contido, na breve (e inevitável) citação a Chico Xavier.

Por mais que haja vários méritos na condução da narrativa, Divaldo também possui seus excessos. Especialmente em sua fase criança há um didatismo por vezes exagerado, ao ponto de mostrar cenas que acabam de ser descritas como um desnecessário meio de confirmação. Na ânsia em ressaltar os feitos de Divaldo em sua fase adulta, há também uma certa busca pela sacralização que converge no desfecho com o verdadeiro Divaldo Franco. A própria dinâmica entre o personagem-título e seu espírito amigo, interpretado por Regiane Alves, também poderia ser um tanto quanto encurtada, sem prejuízo ao filme como um todo. Da mesma forma, a obsessão inicial do diretor em rodar cenas nas quais a câmera percorre em círculos os personagens se torna não só repetitiva, como também cansativa.

Ainda assim, Divaldo é um filme que merece elogios pela forma como é construído, mais valorizando a compreensão do espectador acerca da doutrina espírita do que propriamente qualquer ambição em louvar ou mesmo impôr uma filosofia. Vale também destacar o apuro técnico em todo o longa-metragem, do figurino de época à maquiagem de Laila Garin quando mais velha, passando ainda pela oportuna sequência com uma maria-fumaça de verdade. Bom filme, calcado muito na qualidade do elenco escolhido e também nas boas escolhas feitas por seu diretor e roteirista, no sentido de explorar situações bem-humoradas para amenizar o didatismo e as inevitáveis frases de efeito da narrativa.