Críticas AdoroCinema
2,5
Regular
A Terra Negra dos Kawa

O delírio dos outros

por Bruno Carmelo

Quem diria que o título seria tão literal? A Terra Negra dos Kawa não trata do território, da cultura de um grupo indígena em particular, e sim de terra no sentido estrito do termo: o solo, especialmente aquele de cor escura que seria propriedade exclusiva da comunidade indígena Kawa. Não existe uma cena sequer sem ligação com o solo: pessoas comem terra, deitam na terra, brincam com ela, fazem sexo nela. Os índios e os pesquisadores brancos dedicam seus dias a descobrir as virtudes eletromagnéticas, minerais, alucinógenas, afrodisíacas e sobrenaturais da tal terra negra dos Kawa. O personagem principal é este objeto filmado por Sérgio Andrade com o deslumbre de quem descobre uma flor rara ou uma pedra preciosa.

As cenas envolvendo os atores indígenas são as mais interessantes. Kaya Sara, Anderson Kary-Bayá e os pais Emerlinda Yepario e Severiano Kedassare estão desenvoltos diante das câmeras, por não terem a necessidade de carregarem grandes diálogos escritos, nem encarnarem conflitos narrativos. Suas cenas funcionam como esquetes isoladas, nas quais interagem com a natureza, cobrem o corpo inteira com a terra – inclusive o rosto, numa bela cena sem cortes – cozinham, cantam. Curiosamente, os aspectos mais fortes desta ficção provêm de seu aspecto documental, antropológico, ao filmar com empatia um grupo fictício de índios.

Os personagens brancos, no entanto, soam bastante deslocados no roteiro. Embora sejam encarnados por excelentes atores – Marat DescartesMariana LimaFelipe Rocha – os pesquisadores existem apenas para provar a terra e reafirmar, pela enésima vez, as características excepcionais do solo dos Kawa. Nenhum deles possui uma vida fora do laboratório, ou ainda construção complexa de sua personalidade. Eles tampouco investigam qualquer outra coisa que não seja a terra negra. A obsessão do projeto por este elemento único é tão fascinante quanto cansativa. Enquanto os personagens de Lima e Rocha evocam a burguesia liberal dotada de certo fetiche pelos produtos “exóticos” de comunidades pobres, o pesquisador de Descartes se aproxima do alerta para a usurpação cultural e econômica dos índios.

No entanto, os possíveis discursos críticos em relação a essas posturas são evitados pelo filme, a exemplo da frustrante cena em que pessoas de todas as partes chegam para roubar a tal terra e, depois de terem defendido sua propriedade, os Kawa simplesmente recebem os aproveitadores com um sorriso no rosto. O que afinal, o roteiro tem a dizer sobre esta comunidade, sobre a intervenção branca? O projeto hesita o tempo inteiro entre o realismo e a fantasia, entre o olhar antropológico e o olhar fetichista – em outras palavras, entre o ponto de vista do índio e aquele do homem branco.

Assim como nos trabalhos anteriores, Andrade demonstra boa vocação para misturar o real e o mitológico, fornecendo estruturas fragmentadas que remetem a uma espécie de transe, uma jornada sem fim definido. É interessante se deixar levar por estas imagens, especialmente aquelas de corpos inteiros estirados sobre o solo, em êxtase. A Terra Negra dos Kawa chega perto de conectar esta história com uma referência mais palpável ao real, sem fazê-lo de fato. As melhores fantasias e ficções científicas, gêneros que interessam muito ao diretor, ainda são aquelas que debatem, entre metáforas e poesias, a contemporaneidade. Um dos perigos do cinema de gênero é se fechar em si mesmo, fornecendo um mundo de difícil identificação para o espectador. O filme propõe um belo estado de transe, embora não permita ao espectador compartilhar o delírio de seus personagens.

Filme visto na 42ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, em outubro de 2018.