Críticas AdoroCinema
2,0
Fraco
Johnny English 3.0

Uma gag não é o bastante

por João Vítor Figueira

O Reino Unido está em apuros após o país enfrentar uma série de falhas logísticas como consequência de um ataque cibernético. A crise também afetou também o banco de dados do governo que perdeu o controle sobre o sigilo envolvendo os agentes secretos do MI7 e a agência precisa convocar de volta um de seus espiões mais estabanados pois seus dados não estavam online. Esta é a premissa de Johnny English 3.0, terceiro filme de uma franquia que poderia ter pedido das contas há tempos.

Depois de Johnny English (2002) e O Retorno de Johnny English (2011), Rowan Atkinson retorna ao papel que parodia o charme seguro de si de James Bond através de um humor propositalmente absurdista. Seu personagem pensa ter as habilidades de um Sherlock Holmes, o faro do Inspetor Jacques Clouseau e a virilidade de um 007 e todas as piadas da franquia giram em torno desta ideia até o esgotamento.

Atkinson tem um talento nato para o humor físico. Sua postura, seu timing e mesmo a hilária gama de caretas que o ator domina são próprias de um artista que conhece as possibilidades de seu talento. O maior exemplo disso foi o Mr. Bean, personagem mais célebre do comediante. O que acontece em Johnny English 3.0 é que o roteiro é tão óbvio e a condução da trama é tão mal conduzida pelo diretor David Kerr que sequer fica claro para qual faixa etária o longa-metragem se destina.

Simbolizando o apego a um mundo vintage, Johnny retoma seus trabalhos como espião ao lado de seu assistente Angus Bough (Ben Miller), de quem ele nunca recorda o nome. English segue as ordens da Primeira Ministra interpretada por Emma Thompson, que está desesperada para resolver seus problemas antes de receber lideranças mundiais em uma reunião do G12 em Londres. O agente nega apetrechos tecnológicos modernos e recusa o uso de celular. Seu carro é um Aston Martin de décadas atrás, sem GPS. No caminho de sua investigação está a femme fatale Ophelia Bulletova (Olga Kurylenko). Enquanto isso, Jason Volta (Jake Lacy), um jovem magnata do Vale do Silício que canaliza a estranheza de Mark Zuckerberg com a falta de limites de Elon Musk, começa a se aproximar da Primeira Ministra e promete resolver os problemas digitais do Reino Unido se tiver acesso a todo o banco de dados do Estado.

O filme é todo composto por gags físicas que por vezes fazem rir por conta do tino de Atkinson, mas que sempre parecem requentadas de outros tempos. Quando se trata de compor algum comentário político, o roteiro basicamente se contenta em desdenhar da autoridade da Primeira Ministra, em um provável ataque à Theresa May. É claro que algumas cenas são engraçadas. Durante sua missão, Johnny confunde uma pílula para dormir com estimulante e dança exageradamente ao som da música-meme "Sandstorm". Na pista, os gestos exagerados do espião fazem com que ele evite ser morto por Ophelia. Os momentos em que Johnny tenta seduzir a espiã russa também divertem pelo canastrismo ululante. Outra boa cena é quando English usa óculos de realidade virtual, mas se perde por Londres deixando um rastro de caos sem perceber. Entretanto, há menos trechos que mostram Atkinson em piadas minimamente articuladas e mais em piadas que simplesmente envolvem cair ou ficar sem calças.

Apesar do roteiro previsível e pouco inspirado no qual "vilão" já está praticamente escrito na testa do antagonista mesmo antes do mistério ser revelado (com um grande discurso que explica cada estapa do plano, claro), há atuações leves e espirituosas no filme. Thompson parece se divertir interpretando uma política mentalmente instável enquanto Kurylenko, que foi Bondgirl em 007 - Quantum of Solace, se mostra à vontade para revisitar a paródia do arquétipo.

Por vezes excessivamente infantil e pouco criativo, Johnny English 3.0 ao menos serve para os fãs de Atkinson darem uma chance para risadas com os trejeitos do ator. Os mesmos de sempre. De novo.