Críticas AdoroCinema
3,0
Legal
Whitney

A queda de um ícone

por Bruno Carmelo

O documentário de Kevin MacDonald sobre a cantora Whitney Houston não demora a tratá-la como uma estrela. O início anuncia em poucas linhas a ascensão meteórica da jovem cantora e cita seus maiores sucessos, partindo do pressuposto que todo espectador médio conhece relativamente bem a vida da cantora. Começando pelo ápice, o cineasta pode se dedicar a dois pontos principais: a desconstrução da imagem da fama e a queda pessoal devido à dependência de drogas.

A primeira parte é a mais eficiente. O roteiro utiliza uma estrutura linear, retornando à infância da artista para descobrir de que modo é fabricado um ícone cultural. Neste aspecto, o documentário efetua uma análise abrangente. Ele cita as circunstâncias favoráveis ao crescimento da cultura pop, a necessidade da América negra em encontrar um ícone, o treinamento severo da mãe, também cantora, as performances moldadas pelo estilo dos corais de música gospel. MacDonald insere trechos rápidos relativos ao desenvolvimento dos padrões de consumo nos Estados Unidos, à importância do patriotismo durante as guerras e à popularização das divas para compreender o nascimento de um fenômeno.

O filme possui o mérito de buscar contradições nos discursos oficiais. Após um familiar dizer que ela jamais sofreu bullying na escola, outro relata a rejeição cotidiana por parte de outras crianças negras, em função da pele clara. Quando alguém afirma que o pai caridoso fez o melhor para a sua filha, outros citam os escândalos de corrupção e o roubo da fortuna da filha pelo pai. Quando alguns citam a empresária Robyn Crawford como uma amiga bem-intencionada, outros dizem se tratar de uma interesseira, e amigos próximos não deixam dúvida quanto ao relacionamento amoroso entre as duas mulheres.

Nenhuma trajetória pessoal poderia ser resumida num único ponto de vista, e uma estrela marcada por polêmicas certamente possui uma história complexa, que MacDonald busca apreender. No caso de recusas dos entrevistados para responderem às perguntas, o cineasta faz questão de manter as tentativas frustradas no corte final, em garantia de que buscou vozes dissonantes. A montagem de tantos depoimentos e imagens de arquivo é sofisticada, usando entrevistas sonoras de Whitney em sobreposição às imagens de arquivo, gerando um efeito fantasmático e não reincidente.

É uma pena que, na segunda metade, o filme se concentre unicamente na vida pessoal da cantora. Sem dúvida, o casamento frustrado, a morte do pai, a tentativa de suicídio da filha, o constante uso de drogas dos irmãos e empresários contribuíram à ruína pessoal. Mesmo assim, ao invés de buscar apenas justificativas, o roteiro se embala numa atribuição contestável de responsabilidades pela decadência de Whitney, através de uma estrutura de causas e consequências. O enfrentamento da fama, no início, se transforma em exploração de traumas pessoais: as drogas são abordadas com insistência, enquanto o abuso sexual sofrido na infância é trazido com uma brutalidade surpreendente.

Whitney termina por se focar menos na história de um talento excepcional do que na narrativa de uma tragédia. Existe um olhar crítico em relação à mídia sensacionalista e às pessoas aproveitadoras ao seu redor, porém MacDonald não escapa à impressão de fornecer mais um julgamento do que uma tentativa de compreensão. Não por acaso, a segunda parte abandona o interessante contexto histórico para privilegiar manchetes de tabloides e entrevistas lacrimosas dos amigos e familiares. Este é um documentário em que o fim (da cantora) justifica os meios.

Filme visto no 71º Festival Internacional de Cannes, em maio de 2018.