Críticas AdoroCinema
4,0
Muito bom
O Beijo no Asfalto

O palco do cinema

por Bruno Carmelo

A nova adaptação da obra de Nelson Rodrigues, pelas mãos do diretor estreante Murilo Benício, enfrentava alguns desafios essenciais. O primeiro deles diz respeito à linguagem: como transpor a peça de teatro ao cinema de modo dinâmico, com recursos propriamente cinematográficos? Em outras palavras, como evitar o teatro filmado? O segundo corresponde à dificuldade de adaptar os clássicos: que novidade esta nova versão da peça poderia trazer em relação ao filme de Bruno Barreto, ou às várias adaptações da peça? Que relevância a versão cinematográfica ganharia nos tempos de hoje?

É interessante perceber como a equipe encontra respostas muito satisfatórias, e ao mesmo tempo muito simples, a essas questões. A fusão de linguagens é assumida pelo projeto, articulado entre três polos: a filmagem cinematográfica, a filmagem teatral e o documentário sobre os ensaios da peça de teatro. Os registros são bem costurados pela montagem, fazendo com que o material de origem apele ao mesmo tempo à fantasia típica do imaginário teatral e à relação com a realidade própria à essência fotográfica do cinema. Ou seja, O Beijo no Asfalto não é mero teatro filmado, nem uma adaptação cinematográfica convencional: ele constitui a fusão dos dois, um atrito entre ambos.

Por isso, um dos méritos é utilizar Nelson Rodrigues para promover uma reflexão sobre o processo de criação. A metalinguagem assumida por Benício faz com que o espectador acompanhe os ensaios, nos quais os atores explicam as suas motivações, suas visões dos personagens, para depois os vermos em ação. É de uma riqueza excepcional ver como Débora Falabella efetua uma primeira leitura simples, para depois se transformar completamente em cena, enquanto Augusto Madeira constrói uma interpretação muito própria do policial desde as primeiras leituras. Cada ator tem seu processo, sua compreensão da peça, tornando o resultado mais complexo: o filme não se destina apenas a quem gosta de arte, mas a quem tem curiosidade sobre os processos da arte, dos primeiros passos ao resultado final.

O elenco está excelente. Otávio Müller é desses nomes que o cinema nacional precisa aproveitar cada vez mais e melhor, visto a facilidade de transitar entre o cômico e o dramático, o farsesco e o ameaçador, às vezes na mesma cena. Fernanda Montenegro possui tantos recursos que transforma sua atuação de um ensaio para o outro, e Lázaro Ramos trabalha sem dificuldade a ambiguidade essencial ao protagonista da história. Enquanto conversam sobre arte, os atores ainda discutem o papel do conservadorismo nos dias de hoje e como a classe artística deve levar em consideração os meios menos progressistas quando representam a sociedade em geral. Neste palco tão cinematográfico quanto teatral, existe espaço para que o país inteiro seja representado.

Esteticamente, o diretor de fotografia Walter Carvalho opta pelo preto e branco contrastado, assumidamente artificial. A escolha condiz com a exposição das ferramentas de filmagem, incluindo os trilhos pelos quais desliza a câmera, o boom para captar o som, as claquetes, a mudança dos cenários. Em nenhum momento O Beijo no Asfato propõe uma simples imersão escapista no drama. Pelo contrário, o diretor recorre ao constante distanciamento – o projeto se oferece como construção. A arte é vista pelo prisma do trabalho, algo importante na época em que artistas são criticados pelos grupos reacionários como se fossem boêmios aproveitando do dinheiro público.

Com sua adaptação metalinguística e plural, Murilo Benício produz uma obra capaz de expandir o significado original do texto. Agora, Nelson Rodrigues não contribui apenas para discutir a sociedade conservadora e as transformações morais desde os anos 1960, mas também sobre a evolução do cinema como veículo de comunicação atrelado ao seu tempo.

Filme visto na 41ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, em outubro de 2017.