Críticas AdoroCinema
1,5
Ruim
Alfa

Virtuosismo vazio

por Francisco Russo

Ao longo de sua breve carreira, o diretor Albert Hughes se notabilizou pelo lado visual de seus filmes - assim foi tanto em Do Inferno quanto em O Livro de Eli, no qual trabalhou ao lado do irmão gêmeo Allen. Se antes tal plasticidade de alguma forma complementava a narrativa proposta, em sua estreia solo o diretor resolveu chutar o balde de vez! Não é exagero afirmar que Alfa apenas existe devido à fotografia conduzida por Martin Gschlacht, e isto não é nem um pouco positivo.

Mais do que estabelecer uma história com base em belas paisagens, algumas claramente criadas em computador, Hughes entrega um contraste abissal entre a beleza do que é visto com o tom pueril dos diálogos e da história em si. Com uma abertura que brada "um coração tão puro que enxergou o inimigo como aliado", Alfa é a saga de um jovem "que lidera com o coração ao invés da lança" que precisa, simplesmente, voltar para casa. Abandonado por estar ferido e, acredita-se, em condições impossíveis de resgate, ele percorre quilômetros ao lado de um lobo selvagem, "domesticado" ao receber cuidados após ser ferido.

Além da escancarada parábola dos desprezados que irão mostrar seu valor a partir da superação, Alfa perde um tempo imenso justamente nos preparativos para tal situação, tão óbvios quanto desnecessários. Sem ter o que dizer, Hughes apela para a plasticidade das imagens que, de tão manipuladas em busca de uma estética publicitária, cansam. Há também um exagero no uso da câmera lenta em várias sequências, assim como um excesso de contra-luz na fotografia que soam, mais uma vez, gratuitos.

Com um preâmbulo que apela a todos os clichês possíveis na relação familiar e uma ingenuidade narrativa impressionante, Alfa até melhora quando a relação homem-lobo começa a ser desenvolvida. Há boas cenas da aproximação entre Keda (Kodi Smit-McPhee, perdido) e o personagem-título, e o aceno afetivo ao carinho existente junto aos cachorros domesticados age a favor do filme. Ainda assim, é bem pouco frente à ambição desta aventura, tanto pelo suposto tom épico da jornada quanto pelo visual forjado a partir de drones e imagens manipuladas.

Cansativo e bastante frágil, Alfa poderia encontrar um caminho se optasse pela ousadia e abandonasse, por completo, o recurso da fala. Com poucos personagens em uma história que trabalha mais a sobrevivência do que a comunicação, existe a possibilidade de uma narrativa composta apenas pelos recursos visuais, no melhor estilo A Guerra do Fogo. Mas Albert Hughes não é Jean-Jacques Annaud e, na tentativa em criar um épico jovem, entrega uma cartilha de diálogos ruins associada a uma coletânea de imagens extremamente trabalhadas que pouco dizem.