Críticas AdoroCinema
4,0
Muito bom
Piedade

Tende piedade de nós

por Sarah Lyra

Piedade é um filme que se dispõe a abraçar o mundo. E, até certo ponto, consegue. A pluralidade de temáticas vista em tela só não se transforma em um caos desenfreado por conta da direção segura de Claudio Assis, que neste novo trabalho faz novamente os pertinentes comentários sociais pelos quais já é conhecido, mas agora trazendo sua obra para um nível mais reflexivo e contemplativo, com o apoio do elenco estelar composto por Fernanda Montenegro, Cauã ReymondMatheus Nachtergaele e Irandhir Santos. Divididos em três núcleos, os personagens nos conduzem por submundos de uma cidade litorânea no Nordeste — não citada no longa — que sofre com uma agressiva especulação imobiliária representada por Aurélio (Nachtergaele), o funcionário inescrupuloso de uma empresa petrolífera chamada Petrogreen.

É interessante observar como Assis faz acenos às problemáticas por meio de pequenos detalhes, a começar pela combinação paradoxal de se ter uma corporação com as palavras petro (de petróleo) e green (verde, em inglês), em referência ao meio ambiente, justapostas, como se uma extração de óleos e responsabilidade ecológica pudessem, de alguma forma, andar juntas. A angulação da câmera é outro fator que chama a atenção. Em diversos momentos da trama, a direção de fotografia tem o cuidado de respeitar os limites impostos pelos personagens. Assim, quando acompanhamos uma intensa briga entre dois irmãos no corredor de um cinema pornô, a câmera sobe e se distancia, evidenciando o aspecto peculiar do ambiente, mas também concedendo liberdade para seus personagens durante uma troca emotiva. O mesmo zelo pode ser visto no confronto inicial entre Aurélio e os moradores da comunidade, onde a câmera se movimenta com a cautela imposta pela tensão dos diálogos.

Uma outra minúcia de Piedade parte da construção de um personagem infantil que sonha em entrar no mar, mas precisa se contentar com um óculos de realidade virtual, o que, segundo o remetente do acessório, “é melhor que mar de verdade”. E é também difícil não notar o plano quase cômico responsável por evidenciar o nome do cinema: Mercy (o nome da cidade, Piedade, traduzida para o inglês), uma bem vinda cutucada na presença de multinacionais na região. Dependendo do nível de significado que se atribua a um simples letreiro — e da intenção do roteiro por trás dele —, não é exagero dizer que este momento apresenta uma das evidências de como o local está à venda para atender interesses estrangeiros e capitalistas.

Não à toa, os espaços ocupados pelo personagem de Reymond são todos abarrotados, ilustrando o estado de sufocamento enfrentado por ele, como se estivesse constantemente cercado de empecilhos que o impedem de sair de qualquer lugar em sua vida — e não surpreende, portanto, que ele busque uma fuga em alguém como Aurélio, que representa o extremo oposto disso em seus enormes espaços minimalisticamente decorados. É também quase possível sentir o cheiro ao qual os personagens se referem, tamanha é a precisão do longa em apresentar o ambiente de Sandro.

E, assim, de detalhe em detalhe, Claudio Assis constrói um belo filme, que desperta um senso de urgência para abordar as questões sociais apresentadas e ao mesmo tempo entrega personagens carregados de afetividade. A maior prova desse afeto vem na forma de um reencontro entre dois personagens, no ato final, com uma cena que funciona de maneira quase independente, sem que o espectador necessariamente precise dissecá-la. Talvez seja esta a forma encontrada por Piedade de atender minimamente ao pedido de misericórdia contido no título, que, a depender dos rumos do Brasil atual, está longe de acontecer.

Filme visto no 52º Festival de Brasília, em novembro de 2019.