Críticas AdoroCinema
2,5
Regular
Cordilheiras no Mar: A Fúria do Fogo Bárbaro

O sermão político de Glauber Rocha

por Bruno Carmelo

Glauber Rocha já foi tema de centenas de documentários, livros, pesquisas e reportagens. Pelo menos uma vez por ano, surge um novo filme nacional com um ângulo inusitado sobre um dos mais importantes diretores do cinema brasileiro – o Olhar de Cinema, por exemplo, acaba de receber A Vida é Estranha, com registros de viagens de Glauber. Agora Geneton Moraes Neto decidiu abordar apenas o fervor político de Glauber, sem falar nos filmes dele, nem mostrá-lo nas imagens.

O documentário começa com Paulo César Pereio, Aderbal Freire Filho e Ana Maria Magalhães recitando trechos escritos por Glauber, dentro do Museu de Belas Artes, no Rio de Janeiro. Eles gritam aos quatro cantos como se estivessem pregando em praça pública, apesar do silêncio ao redor. Este momento resume a proposta de Cordilheiras no Mar: A Fúria do Fogo Bárbaro, que reúne personalidades importantes do cinema e das artes (Caetano Veloso, Arnaldo Jabor, Cacá Diegues, Luiz Carlos Barreto etc.), comentando a trajetória política de Glauber e/ou recitando seus textos. O codiretor Cláudio Jaborandy oferece a si próprio um espaço importante para interpretar diversos trechos, berrando aos céus, gesticulando furiosamente, em uma espécie de caricatura do estilo expansivo de Glauber.

O conteúdo debatido pelo filme é controverso e fascinante. Geneton reúne depoimentos sobre a maneira como Glauber questionou a direita e a esquerda, focando especialmente na controversa decisão do cineasta em apoiar o general Geisel, visto então como possível articulador da reabertura democrática. Que o espectador concorde ou não com o posicionamento político de Glauber, é interessante ver discussões sobre novas formas de representação política, especialmente no atual período de reflexões políticas tão pobres.

No entanto, para um filme dedicado a uma personalidade multifacetada, que se dizia “contra os maniqueísmos”, Cordilheiras no Mar é lamentavelmente unívoco em seu discurso. Geneton seleciona apenas trechos que apoiam o ponto de vista de Glauber, que venham de intelectuais progressistas ou conversadores. Ora, se o baiano foi tão criticado nessa época, por que nenhuma voz contrária é usada para conferir relevo ao debate? O documentário prefere tratar Glauber como um visionário, alguém que enxergou uma saída política que ninguém mais concebeu. Ele seria uma espécie de gênio incompreendido, além de mártir do fim da ditadura. Um entrevistado literalmente afirma que as vozes contrárias forçaram o exílio e portanto “mataram” Glauber Rocha.

Além deste conteúdo pouco dialético, Cordilheiras no Mar incomoda por sua estrutura limitada. A obra é constituída de 100 minutos de “talking heads”, ou seja, depoimentos incessantes, com os rostos dos entrevistados ocupando a totalidade da tela. Fala-se, fala-se e fala-se sem parar, sem respiro, impedindo qualquer forma de reflexão. A obsessão pelas palavras é tão grande que mesmo os trechos lidos, com toda a clareza, por atores e artistas são duplicados em legendas, enquanto os trechos mais importantes são destacados em letras grandes e vermelhas. O documentário é tão fascinado por suas entrevistas que se esquece de proporcionar uma estética apropriada à assimilação de ideias. O resultado é um monólogo incendiário, mas extenuante, no qual o conteúdo fagocita a forma.

Filme visto no 25º Cine Ceará - Festival Ibero-americano de Cinema, em junho de 2015.