Críticas AdoroCinema
1,5
Ruim
Mundos Opostos

Os gregos ainda amam

por Taiani Mendes

De boas intenções o inferno está cheio. Este filme também. O diretor Christoforos Papakaliatis usa Eros para ciceronear uma trama sobre amor e dor em tempos de crise econômica na Grécia, mas pelo visto esqueceu de antes entrar em contato com Apolo, o deus das artes, em busca da devida inspiração. Atuações terríveis, roteiro rasteiro e trilha sonora exagerada são as principais características de Mundos Opostos, que, apesar de tudo, pode ser capaz capturar a simpatia dos menos exigentes em suas armadilhas sentimentais.

Dividido em três partes, o longa inicia com Bumerangue, trecho em que a universitária Daphne (Niki Vakali) é salva de um estupro pelo sorridente imigrante sírio Farris (Tawfeek Barhom). Eles não se conheciam antes do ataque, mas Eros entra em ação colocando-os na mesma rua dias depois e os jovens desafiam a xenofobia vigente trocando juras de amor em grego e árabe. Ela estuda política, ele foi perseguido por ser cristão e o romance, que parece peça publicitária da ONU, tem como careteiro vilão um ex-comerciante que coloca nos estrangeiros toda a responsabilidade por seu fracasso e monta uma milícia para expulsar os “invasores” do país. Poucas vezes um assunto de tamanha importância foi tão subaproveitado. O didatismo e a superficialidade do roteiro impedem qualquer reflexão fora do lugar comum sobre a maior questão de nosso tempo ou até mesmo uma conexão real com a narrativa, que termina meio no susto, numa situação bastante forçada, o que dá a ideia de que o nível vai aumentar na sequência – afinal, seria difícil ficar pior...

Loseft 50mg, o segundo capítulo, tem como protagonista Giorgios (Papakaliatis), executivo profundamente abalado pela terrível situação do país, viciado em antidepressivos e que lida de maneira complicada com o fim de um casamento. Eros age e a situação parece melhorar quando ele conhece a consultora sueca Elise (Andrea Osvart). Empenhado na conquista e confiante de que seu calor do sul europeu será capaz de derreter o coração gelado da estrangeira, Giorgios experimenta breves momentos de felicidade, pois logo relacionamentos pessoais se misturam com trabalho e a sombra do desemprego aniquila qualquer esperança que ousava nascer. O ponto ganho pela apresentação do galã como vulnerável é anulado pelo reforço do clichê "mulher de negócios independente é sempre intransigente" e fica difícil levar o drama romântico a sério, pois tanto o diretor, quanto Osvart apresentam desempenhos sofríveis.

Quando tudo já estava perdido, eis que surge J.K. Simmons, ele mesmo, vencedor do Oscar por Whiplash - Em Busca da Perfeição, para tentar salvar a colheita, explicar tudo para quem ainda não havia entendido a moral e tirar uma dona de casa carente da infelicidade. Seu personagem, um historiador alemão (!), tem encontros semanais com a sonsa Maria (Maria Kavoyianni), a quem explica toda a mitologia de Eros e Psiquê enquanto fazem compras e discordam em línguas opostas. Das três partes a melhor, o singelo romance na terceira idade acaba rendendo menos que o esperado, pois Papakaliatis precisa de tempo para mostrar que na verdade tudo está conectado de maneira que ninguém esperava (apenas os fãs de telenovelas). Mas não é só isso. Lembra que a primeira história tinha terminado de maneira estranha? O filme volta para lá e ainda recupera várias outras cenas já vistas para reforçar mais uma vez que nenhum mundo é oposto, só o poder transformador do amor salva e a fé não deve ser ignorada – essa informação chega por uma procissão religiosa que é testemunhada por todos os personagens principais ao longo da trama.

Raro no circuito comercial brasileiro, o cinema grego contemporâneo merecerá uma segunda chance para provar que pode ir além de mitologia misturada com ciências políticas de telejornal. A falência do capitalismo merece mais. A crise migratória merece mais. Eros pode mais e Hedonê, responsável pelo prazer que verdadeiras obras de arte proporcionam, mandou lembranças.