Críticas AdoroCinema
2,5
Regular
Mulheres no Poder

Cambaleia no salto

por Renato Hermsdorff

O grande barato de Mulheres no Poder é que trata-se, sim, de um filme sobre o empoderamento feminino. Não por reposicioná-las em um protagonismo político tradicionalmente dominado pelos homens. Mas por, em se tratando de uma sátira política, não aliviar a barra delas. Como é de se esperar do imaginário coletivo referente à classe, só tem cobra (cobra fêmea) no longa-metragem de Gustavo Acioli (Incuráveis).

O problema é que essa suspensão da realidade (um mundo onde são eles que precisam de cotas) – uma boa ideia, diga-se – vem pontuada por momentos de humor apelativo, que flerta com o pastelão. O roteiro (assinado pelo próprio diretor) é confuso, mas tem momentos de lucidez (do modus operandi político), que rendem boas piadas.

Na trama, Maria Pilar (Dira Paes) é uma senadora que vê na licitação de um grande contrato a chance de faturar uma bolada, ao lado da iniciativa privada. O processo é um jogo de cartas marcadas, que se embaralham a partir do momento em que uma organização não-governamental, idônea, dá um lance, cujo valor, os interessados desconhecem.

O diretor da ONG (Paulo Tiefenthaler), no entanto, tem relações com a secretária (Gabrielle Lopez) de Pilar. E a ministra Ivone Feitosa (Stella Miranda), da pasta responsável pelo trâmite, promete, com a ajuda da sua secretária-executiva, Madalena (Milena Contrucci Jamel), facilitar a “vida” da senadora caso ela descubra o valor ofertado pela instituição.

É um enredo rocambolesco, que, nos pormenores, caminha entre a atualidade da sátira, em si (a socialite que anda com um habeas corpus preventivo debaixo do braço) e o ridículo (como uma extensa troca de documentos em uma pista de dança "do acasalamento"). Nos momentos em que o filme força a mão no suposto humor, abre mão do tom de denúncia fundamental ao gênero.

É quase redundante elogiar as performances das atrizes principais, Dira Paes e Stella Miranda: caricatas no tom; canastronas na medida. Mas o filme traz um time de profissionais não tão famosas que merecem atenção. Não são poucas: Gabrielle Lopez, Milena Contrucci Jamel e Susana Ribeiro (a socialite, que representa a iniciativa privada) não ficam atrás das colegas mais conhecidas.  

No fim, mais do que preconizar um ambiente inerentemente corrupto, Mulheres no Poder olha para trás, trazendo um pout pourri dos escândalos já vivenciados (e revisados) na história recente da política nacional. Não se trata, portanto, de se desesperar com o que vem, mas de rir do que passou. De preferência, ao lado delas.