Críticas AdoroCinema
4,0
Muito bom
Macbeth: Ambição & Guerra

Nova releitura

por Francisco Russo

Por mais que tenham sido escritos no século XVI, as peças teatrais de William Shakespeare jamais saem de cena por tratarem de temas absolutamente humanos, como inveja, amor, vingança e ambição. O cinema, por sua vez, já as explorou das mais diversas formas, seja adaptando-as ao pé da letra, traduzindo para uma linguagem (e ambientação) mais moderna ou ainda retratando-as de forma figurada. Esta nova versão de Macbeth fica entre as duas primeiras opções: ao mesmo tempo em que é bem fiel ao texto original, busca uma brutalidade que seja mais atraente ao público dos dias atuais.

Logo de início é possível notar este tom mais violento adotado pelo diretor Justin Kurzel, já que o longa começa com uma vigorosa cena de batalha campal. A movimentação dos exércitos e as caras pintadas remetem à famosa batalha de Coração Valente, acrescida de muita câmera na mão para ressaltar o caos da situação. Da mesma forma, a adoção de câmera lenta em certos momentos dá ao confronto um estilo visual mais próximo ao de produções recentes, como 300 – sem os exageros de Zack Snyder, é bom ressaltar! O apuro na fotografia é um elemento importante, por ajudar a contar a história através de simbolismos visuais – o impactante desfecho é onde esta intenção fica mais explícita. Além disto, várias das cenas de diálogos (ou monólogos) foram elaboradas de forma que se pareçam com um quadro, tamanho o cuidado na construção da ambientação em torno dos personagens, o que amplifica o impacto visual no espectador.

Diante de tamanho cuidado estético, Kurzel demonstra ainda uma profunda reverência ao texto de Shakespeare, mantido sem grandes alterações – por mais que o sotaque escocês por vezes dificulte a compreensão. Curiosamente, a adoção do texto clássico nas legendas brasileiras traz ao filme um certo peso decorrente do linguajar rebuscado, repleto de conjugações envolvendo tu e vós – em inglês eles não existem, sendo substituídos por “you”. Ainda assim, trata-se de uma iniciativa louvável da distribuidora nacional, a Diamond Films, por respeitar e preservar o material original.

O segundo pilar de sustentação de Macbeth é o elenco. Por mais que Marion Cotillard destile cobiça através do olhar de sua Lady Macbeth - e, posteriormente, demonstre a mais profunda desolação diante de sua limitação como esposa -, quem brilha de fato é Michael Fassbender. Suas nuances variam de homem íntegro a sádico, passando pela loucura e ambição, sempre de forma intensa e expressiva. É ele quem conduz a narrativa, demonstrando com competência a montanha-russa emocional pela qual Macbeth passa.

Quanto à história propriamente, não há muito o que dizer devido à já conhecida qualidade do material. A profecia das três bruxas não apenas levanta questões relevantes sobre a depravação moral do ser humano diante da ambição desmedida como ainda incita, de forma muito apropriada, até que ponto saber o futuro o afeta. A novidade em relação a versões anteriores é a inserção do sexo como elemento de manipulação, utilizado por Lady Macbeth para convencer o marido de que ele deve seguir a profecia e matar o rei Duncan. Reflexo dos tempos atuais, que já não escondem a existência de relações sexuais como os filmes mais antigos faziam.

Visualmente impactante, Macbeth: Ambição & Guerra é também uma produção vigorosa que entrega ao espectador mais do que o mero texto de Shakespeare – o que, por si só, já é bastante relevante. Para quem já conhece a história, de outros filmes e montagens teatrais, fica a oportunidade de apreciar melhor os detalhes desta nova adaptação, tanto visuais quanto de narrativa. Muito bom filme, onde Justin Kurzel consegue trazer frescor a uma trama tão conhecida e adaptada.

Filme visto no 68º Festival de Cannes, em maio de 2015.