Críticas AdoroCinema
3,0
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O Ciúme

A insustentável leveza do ser

por Francisco Russo

Escrito por Milan Kundera, o livro "A Insustentável Leveza do Ser" - que virou filme pelas mãos do diretor Philip Kaufman - é uma análise contemplativa e ao mesmo tempo audaciosa sobre a situação do ser humano perante relacionamentos. O compromisso assumido seria um peso inevitável, enquanto que a tal leveza do título se referia à possibilidade de flanar livremente por paixões diversas, sem ancorar em nenhuma delas - uma situação insustentável pela necessidade do homem, como ser, em se apegar a alguém. O Ciúme, novo filme do diretor Philippe Garrel, tem um pouco das ideias levantadas por Kundera. Especialmente através do personagem de Louis Garrel, filho do diretor e protagonista do longa-metragem.

Louis (Garrell filho) é o típico pegador, daqueles que têm uma amante a cada esquina sem se importar muito com os sentimentos de cada uma delas. O constante rodízio satisfaz suas necessidades, tanto sexuais quanto morais, no sentido de sentir-se valorizado. Entretanto, tamanho poder e autosuficiência desmoronam quando é imprensado contra a parede devido a algo inimaginável (para ele): ser traído. Ou melhor, que sua parceira (oficial) considere seriamente a possibilidade de ter um relacionamento aberto, envolvendo outros homens.

Este contraste entre o "eu posso" e o "ela não" é o grande atrativo do filme, por expor comportamentos distintos e até mesmo machistas na sociedade moderna. Isto no melhor estilo francês, ou seja, a partir de muita verborragia e uma fotografia em preto e branco que remete a outro filme ousado no ambiente dos relacionamentos, Jules e Jim - Uma Mulher Para Dois. O problema é que, até chegar ao que realmente interessa, Garrell pai gasta mais da metade de seu curto longa-metragem - apenas 77 minutos - com uma ambientação exagerada, onde pouco acontece de fato. Ou seja, o espectador precisa suportar o tédio inicial para que O Ciúme, enfim, diga ao que veio.

Apesar dos problemas, trata-se de um filme interessante por representar de forma tão explícita o contraste existente em relação a homens e mulheres quando se fala de relacionamentos e também pelo lado estético, ao apreciar a beleza do preto e branco e o modo como ele realça as expressões faciais dos atores. Mérito para Willy Kurant, diretor de fotografia do longa-metragem, com quem Garrell pai já havia trabalhado no anterior Um Verão Escaldante.

Filme visto no Festival do Rio, em setembro de 2014.