Críticas AdoroCinema
1,0
Muito ruim
A Suprema Felicidade

COLCHA DE RETALHOS

por Roberto Cunha

Quem é fã dos textos de Arnaldo Jabor, de suas incursões televisivas ou gosta mesmo é dele como cineasta, pode odiar o que vai ler daqui por diante. Ou não, como diria um célebre baiano. Afinal, são mais de duas décadas afastado do ofício. O fato é que A Suprema Felicidade pode ser uma grande tristeza para muita gente que apostava neste retorno. E pode mesmo.

A explicação está na verdadeira colcha de retalhos que o longa se transformou, costurando fases da vida do personagem Paulinho (alterego de Jabor?). Na história, que se passa no Brasil pós 2ª Guerra Mundial, o menino é filho de um aviador "que não decola", interpretado por Dan Stulbach, e de uma dona de casa frustrada (Mariana Lima). Juntos, eles vivenciarão as alegrias e angústias de quem não consegue decifrar o amor.

A narrativa vai e volta no tempo (o tempo todo), mas o roteiro não chega a ser confuso. Contudo, carece de uma unidade que envolva o espectador com os personagens que são "cuspidos" na tela de maneira contumaz, como que saindo das estranhas entranhas de Jabor que bebeu de muitas fontes.

E assim pululam referências como a chanchada brasileira, seus palavrões, a nudez (moderada ou não), as taras sexuais, o evidente flerte com o bizarro de Federico Fellini, as questões com Deus de quem estudou em colégio católico, divas como Marilyn Monroe, o clássico O Morro dos Ventos Uivantes, o homossexualismo velado, e uma profusão de piadinhas sexuais desnecessárias propaladas pelo pipoqueiro Bené (João Miguel).

Para não dizer que o salgado virou doce, o merchandising de Leite Moça é primário e a reconstituição de época (bem feita) poderia ter considerado que carros não precisam (e não devem) parecer que ganharam um polimento. A não ser que seja uma ação promocional bem bolada da cera Grand Prix.

Com atuações caricatas, alguns diálogos são de uma fragilidade incrível e incondizente com a verve do autor. Do elenco de nomes conhecidos do povão como Elke Maravilha, Zé Bonitinho (o eterno Jorge Loredo) e Ari Fontoura, é Marco Nanini (Vovô Noel) quem rouba a cena, talvez e até, por ter os melhores textos à sua disposição. Foi a salvação da lavoura.

Embora em alguns momentos a simbiose com os musicais seja patente, com direito a marchinha "Aurora" de Mario Lago, faltou ritmo para a trama longa (125 minutos) e sobrou humor, raso e rascante. Vai ter gente achando até que o filme é arrogante, mas o deboche é sua principal marca. O que explica, por exemplo, cartas psicografadas, fotos de ectoplasmas e gente que vê pai morto. Se não é, soa deboche.

A Suprema Felicidade é um filme difícil de ser assimilado pelo grande público e fácil de ser incensado pela pequena "inteligentzia" que jamais dirá não ter gostado. Assim, parafraseando um ótimo momento do personagem Noel, se "nada é só ruim e nada é só bom", tudo o que pode ser dito é que o ácido comentarista já tem seu lugar marcado no cinema nacional. Só falta Você dizer se esta obra contribui ou não.