Críticas AdoroCinema
4,0
Muito bom
Minha Melhor Amiga

Ingrid Guimarães e Mônica Martelli trazem poder da amizade real para a ficção

por Aline Pereira

“Quem tem um amigo, tem tudo”, já diria Emicida em um verso que me veio à mente imediatamente ao assistir a Minha Melhor Amiga no cinema. Ingrid Guimarães e Mônica Martelli levam para as telas o lado mais cômico (e caótico!) da amizade na vida real em uma história que cumpre o que propõe a fazer e que parece sequer ter um roteiro exatamente fechado — assim como a jornada (também caótica!) em que elas embarcam.

Minha Melhor Amiga acompanha a história de Clara (Ingrid Guimarães) e Júlia (Mônica Martelli), duas amigas de longa data que enfrentam as dores - em busca das delícias - da vida após os 50 anos. Quando as filhas adolescentes das duas vão estudar na Europa, as mães também decidem se dar uma chance de aventura em cenários exuberantes do verão de Portugal e Espanha. Durante a viagem, surgem então, diversos questionamentos sobre a maturidade feminina, liberdade emocional e sexual, autodescobertas, sonhos, entre outros papos de terapia.

Ingrid Guimarães e Mônica Martelli superam os medos juntas

Entre todos os assuntos levantados com humor em Minha Melhor Amiga, a superação do medo talvez seja o principal fio condutor e, certamente, uma boa parte do público encontrará alguma inspiração neste aspecto da comédia. As duas personagens vivem dilemas diferentes na vida, envolvendo relacionamento, ambição profissional e a própria questão do envelhecimento, que, socialmente, pesa muito mais para a mulher do que para o homem.

Nesse sentido, as duas são um apoio fundamental uma para a outra nos momentos decisivos em que o medo tem tudo para prevalecer, mas que são justamente aqueles em que a coragem de dar um passo à frente é o que pode abrir as portas para uma vida mais plena e satisfatória. É difícil sair da sessão sem se identificar em algum sentido – não sei vocês, mas eu não me lembro de nenhuma grande decisão de vida que não tenha vindo acompanhada pela apreensão do desconhecido. E é aqui que as duas dão força ao tema do poder da amizade, especialmente da amizade feminina.

Em meio à compreensão de que é realmente um risco depositar muita energia, buscar felicidade e realização em um parceiro, a história de Clara e Júlia nos faz pensar na importância dos bons amigos que cultivamos durante a vida. “A gente também se apaixona pelos nossos amigos”, dizem as protagonistas logo no início da história e, de fato, a ideia de centralizar o amor romântico e colocá-lo sempre acima do amor da amizade pode ser enxergada de outra maneira.

A mensagem que fica em Minha Melhor Amiga é justamente a de que a solução para o medo da solidão inerente ao ser humano não precisa estar única e exclusivamente em um parceiro romântico – os bons amigos podem ser, na verdade, as pessoas ao lado de quem nos sentiremos mais acolhidos e felizes. Uma coisa não deve excluir a outra.

Química da vida real fortalece comédia autêntica

A dinâmica entre Ingrid e Mônica é inquestionável. Comentei no início do texto que o filme mal parece ter roteiro não porque não tenha história, mas pensando justamente nessa química: a sensação é de que as duas estão sempre falando (e falando muito, muito mesmo) no improviso e, assim como suas personagens, se deixando levar pelas situações que surgem no caminho – algumas delas, inclusive, as artistas já contaram que vem de histórias reais que já viveram. E como dividem o mesmo timing cômico, o ritmo vem com naturalidade.

A experiência humorística das duas artistas também dá força a esse jogo entre as duas e o resultado é a emenda quase sem fôlego de uma piada atrás da outra no mesmo estilo que já as vimos fazer em outras produções delas, como De Pernas Pro Ar, Minha Irmã e Eu, Minha Vida em Marte, entre outras. A não ser que esse realmente não seja o tipo de humor que te agrada, é bem improvável que saia da sessão sem sentir que tenha se divertido.

Minha Melhor Amiga é uma boa comédia para rir sem compromisso, relaxar o sistema nervoso e se divertir com um gigante balde de pipoca em mãos. E é justamente na leveza que essa dupla nos lembra de que nem aos 30, nem aos 40, nem aos 50 precisamos ter a vida toda resolvida, as respostas para tudo e menos ainda a crença de que o tempo de recomeçar já passou. A trilha sonora reforça: “Temos todo o tempo do mundo”.