O Outro Lado das Redes fica à sombra de A Rede Social em um filme datado e pouco provocativo, porém efetivo
por Diego Souza CarlosPode até ser um acaso, parte do cronograma da Sony Pictures em comum acordo com sua matriz global, mas o momento em que O Outro Lado das Redes chega ao Brasil faz parte de uma ironia um tanto assustadora, reflexo de todo o contexto sociopolítico atual. Neste momento em que a decisão presidencial paira sobre a população, um filme como este se torna parte da lição de casa de qualquer um que adora cinema (e está preocupado com o futuro).
Algo que torna a agenda de lançamento totalmente paradoxal é o fato de que assistir aos escândalos do Facebook em 2026 faz o frescor do momento dos ocorridos tratados no longa se perder. Apesar do novo filme de Aaron Sorkin chegar um tanto datado, no entanto, sua estreia neste período é um lembrete de todas as consequências do crescimento do uso das redes sociais.
Como ainda estamos vivendo em cenários muito semelhantes aos dos últimos anos, por vezes ainda mais complexo do que aqueles apresentados no filme, temos aqui uma peça interessante do nosso tempo.
Qual é a história de A Rede Social 2?
Em uma espécie de sequência de A Rede Social, O Outro Lado das Redes, que recebeu este ótimo título no Brasil, acompanha os desdobramentos da vida de Mark Zuckerberg após o crescimento exponencial do Facebook. Anos após os acontecimentos do primeiro filme, no qual vemos a ascensão do gênio que popularizou a rede social que hoje atende por uma corporação chamada Meta, temos acesso a um cenário que praticamente todos nós fazemos parte. A narrativa se passa entre 2019 e 2021, quando praticamente todas as pessoas que conhecíamos (ou achávamos conhecer) tinham um perfil ativo no site.
A trama segue a engenheira Frances Haugen (Mikey Madison). Ela trabalha no Facebook e tem acesso a informações privilegiadas sobre o funcionamento da empresa. Ao descobrir informações internas que provam os impactos negativos da plataforma sobre seus usuários, ela decide expor o que está acontecendo e concorda em conversar com o jornalista Jeff Horwitz (Jeremy Allen White).
No drama baseado em um caso verídico, a protagonista compartilha tudo que sabe com Jeff e mostra as práticas que contradizem o discurso público da companhia. Conforme as denúncias ganham repercussão, ela passa a enfrentar consequências das suas ações que colocam em risco sua carreira e a própria segurança.
A Rede Social x O Outro Lado das Redes
Se você veio pela comparação entre A Rede Social e O Outro Lado das Redes, a notícia não é muito agradável. O que David Fincher fez há 16 anos é o estudo de uma figura excêntrica com o melhor de suas habilidades cinematográficas. Utilizando bem a ideia de criar pontes (ou redes), o cineasta conseguiu entrelaçar diferentes pontos cronológicos de uma única história de maneira eficaz e provocativa, deixando cada peça no tabuleiro em evidência quando necessário.
Já o que acontece no filme atual, sob a direção de Aaron Sorkin, é uma tentativa de fugir da sombra do longa original em um esforço de dar liberdade a diferentes perspectiva de uma única história. A ideia do diretor de Os 7 de Chicago , que incluise utiliza essa estrutura muito bem no título da Netflix, chega com uma ótima premissa encarnada em dois personagens: um jornalista e uma engenheira de sistemas do próprio Facebook. Ambos acabam se unindo para investigar (e posteriormente provar) que a plataforma se beneficia de discursos de ódio e se abstém de qualquer responsabilidade do que possa acontecer a partir disso.
Abraçar o lado jornalístico dessa pesquisa, somado humor e drama dos protagonistas, dá uma boa fluidez à trama. O ótimo texto de Sorkin, no entanto, não consegue acompanhar o que vemos na tela. Uma direção sem grandes inspirações e repetidos momentos didáticos não colaboram para que O Outro Lado das Redes consiga se safar da sombra da trama anterior. Sorkin parece ter receio de ser mais incisivo e até as idas e vindas da linha do tempo estão mais para um capricho do que uma estrutura que beneficie a história.
O Outro Lado das Redes é datado, mas não deixa de ser necessário
O que faz O Outro Lado das Redes ser um bom filme, além do texto cativante de Sorkin e as boas atuações do elenco principal, é o próprio objeto de estudo. Sabemos que a ascensão da extrema-direita nos Estados Unidos e em todo o resto do mundo é completamente atravessada pelas redes sociais. Comprovadamente, o Facebook tem um papel fundamental na inflamação dos discursos de ódio e a evidência desse viés sustenta a atenção do público do início ao fim.
Em uma história baseada em um caso real, o diretor e roteirista apresenta cada nova informação bombástica ao público sem o lado soturno e conspiratório do longa anterior - o que seria muito bem-vindo aqui -, mas ainda consegue criar conexões com a audiência a partir de exemplos (às vezes forçados) de histórias completamente relacionáveis às pessoas que viveram nos anos 2010 em frente a tela de um computador ou com um smartphone nas mãos.
O fato de apresentar ao grande público os bastidores da série jornalística The Facebook Files, do Washington Post Journal, já torna o longa importante. Em termos gerais, mesmo que muitos já saibam o que houve, sabemos que o conhecimento e o acesso não são universais. Uma vez que o cinema também apoie a releitura de pontos históricos relevantes, como é o caso de Ainda Estou Aqui, O Jogo da Imitação e o próprio A Rede Social, O Outro Lado das Redes nos lembra que o jogo político contemporâneo acontece em meio às telas.
O uso da invasão ao Capitólio chega como um ápice bem-vindo a este drama que poderia carecer de um clímax. Infelizmente, porém, Jeremy Strong como Mark Zuckerberg vai do brilhante ao caricato em questão de segundos. O ar robótico do personagem atrapalha até mesmo os momentos de tensão oe dos últimos momentos do filme. É uma pena, pois o ator vem em uma sequência de ótimos trabalhos.
Ao fim, até descobrimos qual é O Outro Lado das Redes e temos ali um bom recorte do momento em que diferentes minorias ganharam novos alvos nas costas, especialmente no território norte-americano. A cena inicial, com uma mulher branca atacando dois policiais negros ilustra bem o início dessas ondas de ódio carregadas por Donald Trump em um governo que deporta imigrantes todos os dias. No entanto, essa história já foi contada (e vivida) tantas vezes que me sua representação cinematográfica chega datada e, pela própria concepção, mais inofensiva do que deveria.