Críticas AdoroCinema
4,5
Ótimo
Feito Pipa

Quando a vida parece cinza, Feito Pipa, com Lázaro Ramos, é o filme para resgatar o bom da vida.

por Aline Pereira

Um protagonista que nos faz cair de amores no primeiro minuto de filme, uma avó que nos faz sentir como se fosse a nossa e um visual encantador. É assim que Feito Pipa, que estreou no 54º Festival de Cinema de Gramado nos fisga o coração e a atenção para uma história que é, ao mesmo tempo, dramática, cômica, real e lúdica. Além de trazer um dos melhores artistas mirins que já tivemos em muito tempo.

Com direção de Allan Deberton (Pacarrete), Feito Pipa acompanha a história de Gugu (Yuri Gomes), um garotinho de 11 anos que é criado pela avó, Dilma (Teca Pereira), com quem tem uma relação muito próxima. Dividindo a casa, dos dois cuidam um do outro e compartilham personalidades muito únicas: a avó sendo despachada e desenrolada e o neto sendo uma criança criativa, sensível, que dá show no futebol na mesma medida em que adora performar e se maquiar.

Depois de criar no público um apego enorme e bem acertado aos dois e, principalmente, à sintonia sublime entre eles, o filme golpeia seu público: Gugu e Dilma precisam se separar. Nesse cenário, surge a presença mais forte do pai do menino, Batista (Lázaro Ramos). Ao contrário da avó, o pai é muito duro e emocionalmente distante do filho por uma série de fatores que passam pela perda da mãe e que vêm principalmente da frustração com personalidade e gostos de Gugu: Batista não quer aceitar de forma alguma que o filho use maquiagem, dance ou que use acessórios.

Entre todos os acertos de Fito Pipa, elenco é destaque

Yuri Gomes tem apenas 11 anos, mas não é exagero dizer que não houve quem não tenha se impressionado com o trabalho do ator na primeira exibição do filme no Brasil (fora do país, prêmios e indicações em festivais internacionais já apontavam um bom caminho). Feito Pipa abre com uma cena de Gugu sozinho, dançando – e ali já fica claro que estamos diante de um talento raro. Yuri faz seu personagem parecer real: uma criança naturalmente vivendo a própria vida, expressando a criatividade, se desentendendo e se conectando com outras crianças, cujas atuações também cativaram o público.

E aí vem Teca Pereira como avó, em um trabalho avassalador: Dilma começa como uma mulher cheia de vida, autêntica, namoradeira. Com o tempo – e sem muitos detalhes, porque vale ter a experiência junto com Gugu – ela sofre uma deterioração de saúde contínua que a obriga a se afastar do neto. Com habilidade, a atriz faz uma transição entre as duas fases da personagem em um tom tão delicado quanto assustadoramente realista. Ao sair da sessão, ouvi mais de uma pessoa dizer que se emocionou ao lembrar da própria avó assistindo à história de Dilma. Eu também lembrei.

Os talentos individuais de Yuri e Teca ganham ainda mais força quando os dois estão juntos e o resultado é uma dinâmica com tanta ternura que torna Feito Pipa uma história para ser lembrada, depois, como um abraço, um quentinho coração.

Filme é sobre resistência, memória e a coragem de ser quem é

O gosto por atividades, hábitos e aparências considerados “coisa de menina” tornam Gugu alvo de bullying na escola e da hostilidade do pai, que é o principal fator de tensão no filme. No entanto, direção e roteiro são habilidosos ao desviar o personagem de Lázaro Ramos do papel de vilão propriamente dito e retratá-lo mais como um símbolo da complexidade de algumas relações familiares.

Batista não é um homem puramente mau e não há desprezo pelo filho: fica claro que a preocupação com o Gugu anda lado a lado com um preconceito difícil de superar, em uma ideia de masculinidade homofóbica facilmente identificável na vida real. “Ele poderia esbarrar a qualquer momento em um estereótipo, alguém com quem a gente não se identifica. Nas conversas dos ensaios, a gente falava muito sobre onde é que nasceu o amor desse homem e a violência também”, explicou Lázaro Ramos.

Bem, as conversas deram certo: Lázaro apresenta um personagem que nos causa antipatia pelo comportamento hostil, é claro, mas que também parece torturado pela falta de capacidade (se é que essa é a palavra) de expressar o que sente e de abrir o olhar para novas direções. A falta da mãe de Gugu, que morreu em circunstâncias fortes, também aparece como um elemento sutil, mas importante nessa equação – é mais uma qualidade de Feito Pipa: provocar sentimento e entendimento com informações pontuadas em momentos certos.

Feito Pipa me lembrou, em termos de vibe, de outras obras que passaram pelo Festival de Gramado, como Marte Um, Tia Virgínia e o próprio Pacarrete, do mesmo diretor. Existe uma beleza muito específica em histórias que conseguem equilibrar a realidade com um certo tom de fantasia para ilustrar sensações e comportamentos profundamente humanos. É um deleite e um bom filme para assistir quando sentir que a vida está cinza demais.