Críticas AdoroCinema
3,0
Legal
Ponto Sem Retorno

Ponto Sem Retorno aposta no lado intimista do pós-apocalipse com Jacob Elordi, mas falha na construção de mundo

por Bruno Botelho dos Santos

Histórias distópicas e pós-apocalípticas fazem parte do cinema há décadas, como uma resposta aos nossos medos, ansiedades e conflitos enquanto humanidade. De clássicos como Metrópolis (1927) e O Planeta dos Macacos (1968) até filmes recentes como Filhos da Esperança (2006), A Estrada (2009) e Mad Max: Estrada da Fúria (2015). É por isso que estamos começando a ver cada vez mais produções que são um reflexo da pandemia de COVID-19 e o agravamento da crise climática nos últimos anos.

É exatamente aqui que o novo filme dirigido por Ridley Scott (Gladiador e Perdido em Marte), Ponto Sem Retorno (2026), se encaixa. Baseado no livro "Na Companhia das Estrelas" ("The Dog Stars"), escrito por Peter Heller e publicado em 2012, a adaptação estrelada por Jacob Elordi, Margaret Qualley e Josh Brolin mergulha no drama humano de um mundo em colapso, mas não consegue apresentar algo inovador e que já não tenhamos visto em outras produções consagradas, como The Walking Dead, Eu Sou a Lenda e The Last of Us.

Qual é a história de Ponto Sem Retorno?

Ponto Sem Retorno apresenta um futuro devastado por uma pandemia global, no qual um vírus aniquila a humanidade. Hig (Jacob Elordi) é um piloto viúvo que vive de forma isolada em um hangar no Colorado com seu cachorro e Bangley, um ex-fuzileiro naval ranzinza (Josh Brolin). Embora incompatíveis, a dupla depende um do outro para sobreviver a invasores. A rotina é interrompida quando uma transmissão de rádio desperta em Hig a esperança de uma vida melhor além de seu perímetro controlado, levando-o a uma jornada de risco sem retorno.

Ponto Sem Retorno é uma jornada de esperança e conexão em um mundo pós-apocalíptico devastado

Os primeiros minutos de Ponto Sem Retorno já são importantes para estabelecer o tom melancólico da história e apresentar esse mundo pós-apocalíptico através de Hig e seu cachorro Jasper. Enquanto o protagonista usa seu pequeno avião para pegar suprimentos, Ridley Scott nos leva para passear entre paisagens montanhosas deslumbrantes, mas também sentir no vazio a solidão de um mundo devastado.

O roteiro escrito por Mark L. Smith (O Regresso e Terra Indomável) busca uma abordagem mais intimista e focada nos personagens neste cenário pós-apocalíptico, reforçada pelo conflito ideológico central entre Bangley – acostumado e conformado com esse contexto de sobrevivência que eles vivem – e Hig – que tem a esperança de encontrar um mundo melhor em algum lugar.

É assim que Ridley Scott nos conduz em uma espécie de road movie em uma jornada sobre a importância da esperança e conexão humana quando o personagem de Jacob Elordi encontra e se envolve com outras pessoas como Cima (Margaret Qualley) e seu pai Pops (Guy Pearce), mas também se depara com o lado mais obscuro da humanidade. O problema é que, com o passar do tempo, esse ritmo lento acaba se tornando cansativo e tedioso por causa da frustrante falta de exploração mais profunda desse mundo que eles estão inseridos, assim como os perigos enfrentados.

O filme de Ridley Scott falha na construção de mundo e na história de sobrevivência

É no mínimo curioso que a construção de mundo, algo que Ridley Scott trabalhou de forma tão rica e complexa nas suas franquias de ficção científica Alien e Blade Runner, seria um dos maiores problemas de Ponto Sem Retorno.

A trama está tão interessada na visão e jornada do indivíduo, o protagonista de Jacob Elordi, perante ao mundo, que esquece como um desenvolvimento de nuances e particularidades desse cenário pós-apocalíptico são fundamentais para enriquecer a narrativa. Não é que o roteiro precise apresentar tudo com excesso de exposições, mas que os elementos de conflito que tinham potencial parecem deslocados ou apresentados de forma corrida ao longo das quase duas horas de duração.

Os demais sobreviventes que se tornam ameaças para os protagonistas são apresentados de forma estereotipada como selvagens. Eles têm uma aparência diferente e parecem fazer parte de um culto, mas até essas especulações mostram como não sabemos mais sobre essas pessoas e o que realmente aconteceu com elas, servindo como figuras descartáveis para sequências de ação. Ficamos apenas com o olhar genérico e problemático sobre “o outro”, sem se aprofundar nas complexidades desse mundo de sobrevivência. Outro exemplo é um grupo excêntrico liderado por Darlene (Allison Janney) que encontramos mais para o final e rende um dos momentos mais tensos do filme, mas tudo acaba sendo resolvido rápido demais e não temos tempo para entender a singularidade dessa parte da história.

Vale a pena assistir Ponto Sem Retorno?

Em Ponto Sem Retorno, Ridley Scott faz um bom trabalho em filmar esse cenário pós-apocalíptico a partir de uma perspectiva mais intimista, mas falha em desenvolver e se aprofundar nas complexidades desse mundo e também suas ameaças.

Ele funciona como uma mensagem de esperança pós-pandemia que enfrentamos anos atrás, mas fica a sensação que outras produções de ficção científica contaram a mesma história e conseguiram se aprofundar melhor na construção de mundo. De qualquer forma, o filme entrega momentos comoventes de reflexão sobre nossa sociedade e a humanidade pelas boas atuações de Jacob Elordi, Margaret Qualley e Josh Brolin.