Josephine: Fragmentos de um Crime transforma o trauma em uma experiência cinematográfica dilacerante
por Rafael FelizardoDe tempos em tempos, a sétima arte traz ao mundo obras cuja força reside primordialmente na capacidade de provocar inquietação. A última a me atravessar dessa forma, se não me falha a memória, havia sido A Voz de Hind Rajab, um filme que em 2025 reconstruiu de maneira visceral uma tragédia real acontecida em Gaza.
Recentemente, assisti a Josephine: Fragmentos de um Crime, e embora já estivesse familiarizado com os contornos de sua trama, não imaginei que o longa-metragem seria capaz de me afetar tão profundamente. Sob a direção da cineasta brasileira-estadunidense, Beth de Araújo, Josephine não se debruça propriamente sobre uma história real, mas sobre uma circunstância cuja dimensão aterradora reside justamente em uma possibilidade concreta para qualquer mulher.
Josephine: Fragmentos de um Crime é um filme cru e realista
O enredo acompanha Josephine (Mason Reeves), uma menina de oito anos que testemunha um estupro a céu aberto. Abalada pelo episódio, ela passa a enxergar o mundo com outros olhos e começa a apresentar comportamentos divergentes de sua personalidade.
Enquanto seus pais, Damien (Channing Tatum) e Claire (Gemma Chan), tentam ajudá-la a superar o trauma, o casal enfrenta divergências sobre como lidar com o assunto. Em meio ao medo, à insegurança e às dificuldades de compreender o que presenciou, Josephine precisa enfrentar as marcas de uma experiência traumática que ameaça transformar sua percepção da realidade.
Exibido majoritariamente sob a perspectiva de Josephine, tudo é objetivamente cru neste filme. Desde enquadramentos fechados e trêmulos, passando por uma captação sonora menos refinada e silêncios excruciantes, cada escolha estética é concebida para diminuir a zona de conforto do espectador, e assim, aproximá-lo, ainda que minimamente, da experiência subjetiva da jovem protagonista.
Sem jamais explorar a violência apenas para chocar, Beth de Araújo conduz o longa com uma abordagem profundamente empática e um realismo lúcido. Em Josephine: Fragmentos de um Crime, as respostas raramente surgem com facilidade e, em muitos momentos, essa ausência provoca uma frustração que o enredo não procura amenizar.
Há também uma maturidade de direção impressionante na maneira como Beth opta por reproduzir o trauma de Josephine. Ao confundir deliberadamente os limites entre a realidade, a cineasta traduz em linguagem audiovisual a persistência de um trauma que não se encerra com o fim da violência, mas passa a ocupar, de maneira insidiosa, todos os espaços da vida da garota.
Vale lembrar que Beth de Araújo tem apenas 41 anos de idade, e Josephine: Fragmentos de um Crime é só o seu segundo longa como diretora - o primeiro foi Suaves e Discretas (2022).
Channing Tatum e Gemma Chan entregam atuações sólidas; Mason Reeves é grandiosa
Antes de assistir ao filme, confesso que desconfiei da presença de Channing Tatum. Não por duvidar de sua capacidade de atuação, mas porque quando penso nele, os primeiros títulos que me vêm à mente são Magic Mike e Anjos da Lei. Por mais que eu conhecesse sua veia dramática (lembra de Foxcatcher?), é difícil me livrar completamente dos preconceitos.
Personagem de Tatum, Damien é um pai bem-intencionado, mas despreparado para lidar com as angústias da filha. Na tentativa de restabelecer a sensação de segurança da menina, ele acaba reproduzindo comportamentos que agravam o sofrimento de Josephine, embora suas atitudes sejam invariavelmente motivadas por um desejo genuíno de protegê-la.
Nesse sentido, Damien estabelece uma espécie de contraponto à Claire de Gemma Chan, que embora também se mostre incapaz de compreender plenamente as necessidades emocionais de Josephine, demonstra maior sensibilidade ao lidar com a filha.
Com uma atuação extraordinária, Mason Reeves é um dos pontos altos do projeto. Em sua estreia no cinema, a jovem atriz entrega uma interpretação silenciosamente hipnótica, capaz de exteriorizar sentimentos mesmo com poucas palavras. Em meio a olhares, expressões faciais e maneirismos, Reeves constrói um retrato complexo de uma criança cujo repertório emocional ainda não lhe permite compreender a dimensão daquilo que testemunhou, mas que mesmo assim sente-se perturbada.
O trauma como ponto central de Josephine: Fragmentos de um Crime
No fim das contas, Josephine: Fragmentos é um filme sobre o trauma, principalmente o feminino. A narrativa entrelaça reações distintas geradas por um mesmo ato: a de uma vítima de violência sexual; a de pais incapaz de encontrar os meios adequados para acolher as angústias da filha; e a dessa mesma criança, que ao testemunhar a brutalidade de um crime, passa a carregar consigo marcas severas.
Nele, Beth de Araújo não está interessada em oferecer conforto ou resoluções, apenas honestidade. Ao conduzir a história ao clímax, a cineasta constrói um argumento que, embora não corresponda necessariamente à experiência individual de todos, encontra ressonância em inquietações profundamente humanas.
*O AdoroCinema assistiu ao filme no Festival do Rio 2026.