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    Reality Z: Série de zumbis ganha tempero brasileiro pelas mãos da Netflix e entrega bom resultado (Primeiras Impressões)
    Por Ygor Palopoli — 8 de jun. de 2020 às 15:55
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    Ser zumbi nunca foi tão brasileiro.

    Se você foi uma criança ou um adolescente que cresceu no início dos anos 2000, existem algumas coisas às quais provavelmente passearam por sua cabeça enquanto a cultura pop internacional, refletida em filmes, séries e programas de TV, ganhava mais força aqui no Brasil. Se imaginar dentro de um reality show, provavelmente, foi uma delas. 

    Para uma outra parcela de pessoas, no entanto, a onda era outra: ser um(a) sobrevivente de um eventual apocalipse zumbi. No ano de 2011, um Charlie Brooker que ainda nem sequer sonhava em fazer tanto sucesso com sua vindoura série Black Mirror, desenvolvia um projeto episódico fechado com apenas uma temporada para a Endemol Shine intitulado Dead Set que fazia o então inimaginável: unir os dois desejos citados acima.

    Na websérie em questão, participantes de um Reality Show acabavam sendo as pessoas mais protegidas de todas enquanto o apocalipse zumbi estourava lá fora, em uma noite de "Paredão", no entanto, nem eles mesmos sabiam disso, até que uma invasora da produção acaba entrando na casa e iniciando a luta geral por sobrevivência.

    Quase dez anos depois, a Netflix resolveu adaptar a obra para o cenário brasileiro e contou com uma parceria bastante efetiva com o diretor Cláudio Torres, sócio da Conspiração Filmes, que entrou como produtora do projeto. O AdoroCinema recebeu com exclusividade os seis episódios iniciais da primeira temporada, que conta com 10 capítulos no total.

    O TEMPERO BRASILEIRO DE REALITY Z
    Suzanna Tierie/ Netflix

    O mais interessante a se notar em Reality Z a uma primeira vista é como o tema parece ter sido feito o público brasileiro — o que talvez explique um pouco a razão pela qual a Netflix escolheu o solo nacional para ambientar sua adaptação. O texto é muito bem adaptado para nosso contexto, inserindo não apenas referências populares em sua trama como também referências a como as redes sociais impactam praticamente qualquer coisa hoje.

    Um exemplo claro disso é como a primeira reação a um "barraco" no Olimpo, que é o reality fictício da trama (no original, a série britânica era do Endemol Shine, então foi possível usar o Big Brother UK, produto da mesma marca), acaba vindo do diretor geral, Brandão, que brilha os olhos ao relatar o quanto o Twitter deve estar em êxtase. 

    O trabalho de localizar o público em um contexto tipicamente brasileiro acaba sendo muito bem fortalecido pela equipe de efeitos visuais da Conspiração, liderada por Claudio Peralta. Efeitos estes, inclusive, que tornam-se determinantes para obtermos um diferencial importante entre Reality Z e Dead Set: a visualização de uma perspectiva mais abrangente, como a cidade do Rio de Janeiro em chamas após o início do surto zumbi. 

    Confira nossa entrevista com o elenco e o diretor de Reality Z!

    Quem também merece muito destaque aqui é a equipe de maquiagem e próteses, que precisou passar por um longo e burocrático processo na obtenção de moldes que até então não eram usados em produções nacionais. Dito isso, acredito que o maior trunfo de Reality Z esteja em justamente dar os primeiros passos em uma nova maneira de se fazer obras que saiam da zona de conforto no mercado nacional, que é tão rico e capacitado. 

    O BOM SELVAGEM (OU NÃO...)
    Suzanna Tierie/ Netflix

    Falando em capacidade profissional, vale o espaço falar um pouco a respeito dos protagonistas da série. Começando por Brandão, cuja escalação de Guilherme Weber parece ter encaixado muito bem no personagem, este talvez seja o elemento mais representativo da trama. Exalando selvageria como se fosse um odor natural, Brandão é a síntese daquilo que Reality Z busca passar ao espectador: somos todos selvagens em algum tempo. 

    Com essa análise meio Thomas Hobbes, de que é o homem é o seu próprio lobo, Brandão escalona para atitudes que são praticamente primitivas em sua tentativa de sobreviver, compasso que Guilherme segura muito bem, evoluindo de maneira gradativa. A protagonista de Anna Hartmann, Nina, segue um caminho parecido, mas com uma selvageria um pouco melhor direcionada.

    Enquanto Brandão torna-se um verdadeiro primata, Nina acolhe o grupo ao qual passa a fazer parte e seus esforços são todos em prol de encontrar um caminho para fugir daquela situação: por mais que ela mesma não saiba exatamente o que isso significa. Anna também veste bem a pele de sua personagem e cria afetividade ao espectador na jornada de liderança.

    Os integrantes do reality, no entanto, assim como a apresentadora interpretada por Sabrina Sato, parecem ter sido mais um easter-egg à parte do que de fato parte contundente do espetáculo. Sabrina, por exemplo, tem pouco tempo de tela, mas parece encontrar algumas dificuldades em se dissociar da sua própria persona fora da personagem.

    O QUE RELUZ
    Suzanna Tierie/ Netflix

    Nem tudo são flores, é claro, e alguns pontos negativos se destacam em determinadas decisões do roteiro, que poderia ter seguido caminhos um pouco mais diferentes, libertando-se de certas ideias da obra original. Quando assisti Dead Set, por exemplo, senti falta de ter mais tempo com a casa entre o momento que o apocalipse estoura e eles descobrem o que de fato aconteceu. Aqui, os caminhos parecem seguir uma pequena receita, mas até onde pudemos assistir, há uma ideia promissora se desenvolvendo.

    Prova de que a liberdade da obra original sempre é benéfica, é que nos momentos em que a série se permitiu sair da ideia, como quando trouxe a perspectiva para o exterior, e inseriu uma drag queen entre os participantes, as mudanças caíram muito bem na narrativa. Ao final das contas, Reality Z acaba traçando passos bem importantes para o gênero e não deixa de lado o tempero brasileiro: que é o que mais importa para nós.

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