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    Looking for Alaska: Crítica da temporada
    Por Laysa Zanetti — 09/10/2019 às 17:00
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    Adorado romance de John Green, "Quem é Você, Alasca?" ganha uma nova roupagem e uma nova vida na TV.

    Nota: 4,0 / 5,0

    O poeta, escritor e médico francês renascentista François Rebelais, em seu leito de morte, no dia 9 de abril de 1553, proferiu suas intrigantes últimas palavras: “Saio em busca de um Grande Talvez”.

    Essa mesma enigmática frase, alvo da curiosidade de John Green, é o pontapé inicial de um de seus livros mais queridos. Miles Halter é um garoto obcecado por últimas palavras de grandes escritores e personalidades da História. Em busca de seu “Grande Talvez”, ele decide pedir transferência para estudar no colégio de regime internato Culver Creek, no Alabama. Lá, ele fará novos amigos e vai aprender, da melhor e pior forma possível, os limites e as provações da amizade, primeiros amores e irremediáveis corações partidos.

    Primeiro romance publicado por John Green, "Quem é Você, Alasca?" (2005) passou por uma longa jornada até finalmente ganhar uma adaptação audiovisual. A ideia existe desde 2016, quando foi anunciada pelo próprio autor em seu Twitter, mas desde então foram tantas as reviravoltas envolvendo o possível filme (de Sarah Polley a Elle Fanning, foram muitos os nomes que rodaram por esta dança) que o próprio escritor declarou que Looking for Alaska jamais seria adaptado para os cinemas. Bem, de fato não foi. E estamos gratos por isso.

    A primeira coisa que um fã apaixonado pelo livro de Green deve saber antes de assistir à série é que o roteirista Josh Schwartz (The O.C., Gossip Girl, Marvel's Runaways)  é (provavelmente) tão fã quanto você. Suas falas favoritas do livro estão lá, os momentos icônicos são adaptados à exatidão, e o espírito dos personagens está nos detalhes, do bufrito ao chapéu de raposa de Takumi. Há uma palpável reverência à obra original, algo que em uma adaptação jamais é necessário, mas acaba fazendo uma diferença tratando-se de um livro tão querido pelo seu fiel público.

    Alfonso Bresciani/Getty Images

    A história se inicia quando Miles Halter (Charlie Plummer) vai para a Culver Creek e é alocado no mesmo quarto que Chip Martin, o Coronel (Denny Love). Logo ele recebe um apelido irônico devido à sua exagerada magreza (Gordo) e conhece os amigos do Coronel: Takumi (Jay Lee) e a indecifrável Alaska Young (Kristine Froseth). O coordenador do colégio, Sr. Starnes, é um homem rígido que gosta de manter os bons costumes e não admite derrapadas, conhecido como Águia (Timothy Simons). Dados a bebidas, cigarros e ao aprendizado de uma vida boêmia, o grupo do Coronel tem como inimigos os Guerreiros de Dia da Semana, um grupo de alunos ricos que ficam no colégio de segunda a sexta e podem ir para suas casas aos fins de semana.

    Quando um dos Guerreiros e sua namorada, Marya (Meg Wright), são expulsos da Culver Creek por terem sido pegos pelo Águia cometendo o que é chamado de “trifeta”: fazendo sexo, bebendo e fumando maconha, todos desconfiam que o Coronel foi o responsável por contar ao Sr. Starnes o que eles estavam fazendo, e um conflito entre os dois grupos fará Miles descobrir de uma vez por todas qual é o verdadeiro espírito da escola.

    Ao mesmo tempo em que deixa claras pegadas no caminho para os apaixonados pelo livro, Looking for Alaska está longe de ser uma adaptação excludente. A história ganha força nas liberdades criativas e na “atualização” que faz tanto da narrativa quanto da figura onírica de Alaska. Schwartz e Stephanie Savage aproveitam a série para fazer reparações pungentes na jornada traçada por John Green, fazendo com que Gordo não esteja o tempo todo no centro da história e concedendo ao espectador a possibilidade de enxergar Alaska através de outras lentes, que não sejam as de um adolescente enfeitiçado pela aura de uma garota bonita. Com isso, a minissérie é menos sobre Miles e consegue aproveitar melhor os personagens que estão à sua volta, sobretudo o Coronel.

    Alfonso Bresciani/Hulu

    Imediatamente, a retirada da lente do primeiro plano de Miles faz da história algo muito mais rico. Sua natural apatia pela vida, sua inocência e sua inexperiência ora doces, ora nitidamente idiotas são evidenciadas em contraste ao espírito vivo do Coronel, e isso faz com que os trotes, as brincadeiras e o dia-a-dia na escola sejam imediatamente mais cativantes e fiquem mais próximos ao coração do espectador. Ao mesmo tempo, esse distanciamento de Miles é algo que acaba prejudicando o personagem — o que não é necessariamente ruim para a história, pelo contrário. Ele mesmo um protagonista narrador na obra literária, Miles é a porta de entrada do leitor para o universo da Creek, apresentando de forma suave e gradual as ideologias dos adolescentes que gastam dinheiro comprando cigarros para fumar entre uma aula e outra e bebidas alcoólicas escondidas em garrafas de leite.

    A onipresença apática de Miles, enquanto funciona no livro como uma forma de mostrá-lo como um rapaz que infelizmente não compreende totalmente o mundo em que vive e que criou uma imagem idealizada de Alaska, que embeleza suas dores e praticamente a transforma em uma Manic Pixie Dream Girl, é colocada de lado aqui para que cada um dos personagens secundários seja capaz de contar a sua própria história de forma particular. A atuação de Plummer como o protagonista, por sua vez, ainda que capte a essência do personagem do livro, deixa a desejar quando ele não consegue transmitir emoção nos momentos que devem ser emotivos, e o contraste é gigantesco quando contraposto com os demais personagens. É difícil decifrar se trata-se de uma franca limitação do ator ou se este é apenas quem Miles é, e deve ser.

    Por outro lado, o relativamente novato Denny Love é tão bom como Coronel que rouba a cena todas as vezes em que abre a boca. Sua versão da história é valorizada, assim como a sua amizade com Alaska e os degraus da desigualdade nos quais precisa aprender a se equilibrar. De fato, o ângulo de Chip é tão rico e tão cativante que frequentemente fará com que o espectador questione por que não é ele o protagonista. Mas esse é o tipo de alteração que enriquece a adaptação de Looking for Alaska enquanto minissérie. No fim das contas, essa versão deixa de ser a história sobre como Miles não conseguia enxergar Alaska Young como uma pessoa real, e passa a ser a história de como um grupo de amigos se encontra nas próprias diferenças, nas limitações de cada um e sobre como cada uma dessas vozes é igualmente importante para os muitos lados de um acontecimento.

    Alfonso Bresciani/Hulu

    Mas de tudo isso, quem carrega a maior responsabilidade em Looking for Alaska é ninguém menos que Kristine Froseth. Ela dá vida a uma personagem que existe em milhares de versões nas milhares de cabeças de cada um dos leitores da obra de Green, e cada um provavelmente tem sua própria versão de quem Alaska Young é, como Alaska Young deveria ser, deveria soar e se portar. Alaska é um belo enigma, uma pergunta sem resposta, provavelmente muito madura para a própria idade porque sempre é vista apenas através da visão de Miles.

    Essa Alaska ainda é este belo enigma, alguém corajosa o suficiente para desafiar professores e regras, gritar contra o patriarcado e se portar como se tivesse as respostas para todas as maiores questões do universo, e esconder a própria dor entre sorrisos e ensaiadas frases de efeito. Mas ela também é muito mais humana, porque pela primeira vez conseguimos ver Alaska por si só, porque dessa vez ela tem a própria voz, e existe fora da bolha de apenas como afeta aqueles ao seu redor. Ela é sensível, passiva a erros e fatalmente inebriante, e Froseth — com seus grandes sorrisos e uma destreza perspicaz — faz dela alguém ao mesmo tempo misteriosa e magnética, mas também explosiva e fervilhante de emoções. Há a mesma Alaska Young de quem sabemos pouco, mas dessa vez, o que sabemos ou não sobre quem ela é existe porque ela escolheu ou não nos contar.

    Nas mãos de Schawartz e Savage, Looking for Alaska é um retrato extremamente naturalizado da adolescência, e vai na contramão de Euphoria no retrato de uma juventude efervescente. Os cigarros e as bebidas aparecem naturalmente, com um quase blaserismo que não soa celebratório ou chega a incentivar o consumo, mas também não é alarmista ou está focado nas consequências dos atos — aqueles adolescentes são assim porque o são, e pronto; não faz deles mais ou menos. A dupla que praticamente definiu gerações de adolescência com The O.C. e Gossip Girl, com personagens que continuam sendo referência após mais de uma década, está de volta com uma abordagem extremamente sensível e familiar do coming of age, que soa bastante próxima ao que têm feito com Marvel’s Runaways. E, ambientada em 2005, dada à ausência de telefones celulares e com uma trilha sonora datada, a minissérie é um abraço quentinho em um dia frio que por vezes se agarra demais a um período em que não existiu. Sua ânsia de reprisar 2005 pode ser bastante constrangedora, justamente porque a nostalgia não é lá tão forte assim. 

    Alfonso Bresciani/Hulu

    O maior problema de Looking for Alaska continua sendo Gordo, ao mesmo tempo o seu maior trunfo, mas a apatia de Charlie Plummer no papel inevitavelmente soa fora do lugar, seu suposto charme igualmente injustificado. Os oito episódios são uma história bonita e tocante sobre amizade, famílias, dor e luto, desenhada com um cuidado reverente à obra original; é ainda assim um romance “infanto-juvenil”, um conto que, por mais que traga suas surpresas e tenha seus muitos tesouros, segue à risca uma cartilha há muito conhecida. 

    Com tudo isso, não dá para acusá-la de não cumprir o prometido: Looking for Alaska faz chorar na mesma intensidade que faz rir, e sai de cena como um soco no estômago que você anseia por sentir. Garoa, furacão, labirintos de dor, perdão e autopiedade se misturam e o resultado é uma linda calmaria em meio ao caos e um raro caso de uma série que consegue enriquecer o conteúdo de um livro.

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