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True Detective: Crítica da 3ª temporada
Por Renato Furtado — 25/02/2019 às 19:20
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A melhor série policial da atualidade retoma a boa forma em uma temporada calcada na importância da memória.

NOTA: 4/5

Um ato impensável foi cometido e Wayne Hays (Mahershala Ali), vestindo apenas suas roupas de baixo no frio da madrugada, observa o fogo incendiar suas vestimentas, dentro de uma lata de lixo. No silêncio da noite, pontuado apenas pelo crepitar do fogo, o detetive contempla não só as escolhas de seu passado mas também os nublados eventos que parecem anunciar-se em seu amanhã. Repentinamente, acionado por causa de seu aguçado instinto policial/militar, desenvolvido durante anos de investigações e guerras, Wayne sai do transe e se vira para olhar sobre o ombro. Não vê nada além do vazio. Falta-lhe, como a todos nós, a habilidade metafísica de enxergar através do tempo, que nos permite não só conviver com os rastros do passado, mas também com os espectros do futuro.

Esqueça os gângsters, os crimes megalomaníacos, as teorias políticas, a Califórnia e suas labirínticas avenidas, autoestradas infinitas e colinas desertas e também a ideia de unir quatro protagonistas que parecem ter vindo de séries diferentes, caindo de paraquedas em uma trama inspirada na mitologia grega e interessada em demasia no mecanismo da corrupção por trás da indústria de transportes de Los Angeles. Esqueça, portanto, tudo o que não tem a ver com o universo de True Detective e seja bem-vindo à terceira temporada da antologia policial de Nic Pizzolatto, que retorna à boa forma em uma narrativa baseada nos inquietantes microcosmos das cidades pequenas, conflitos familiares, lendas urbanas, dois detetives em suas viagens Estados Unidos adentro e, é claro, enormes saltos temporais.

Os mais recentes capítulos do melhor drama criminal da atualidade resgatam (quase) tudo que fez os episódios iniciais causarem tanto impacto. Neste terceiro ano, Pizzolatto demonstra ter ouvido as críticas recebidas no passado, mas volta a seguir o molde de True Detective à risca. Isso não significa dizer que a terceira temporada do seriado da HBO repete a primeira, ou até mesmo que seria um demérito trilhar um caminho seguro, mas sim que a antologia tem sua própria lógica interna — afinal de contas, quando o autor distanciou-se do conceito de “detetive real”, tudo quase foi por água abaixo, colocando em risco o futuro de um dos projetos mais autênticos das telinhas nestes tempos. Portanto, por que motivo não empregar uma variação criativa sobre um esquema triunfante?

Agora, são Ali e Stephen Dorff, intérpretes dos investigadores Wayne Hays e Roland West, respectivamente, as presas do cruel choque de temporalidades do drama. Só que a estrutura dual da primeira temporada, que equilibrava-se entre os eventos ocorridos nas vidas de Rust Cohle (Matthew McConaughey) e Marty Hart (Woody Harrelson) nos anos de 1995 e 2012, é complexificada. Operando nas bases de uma temporalidade tripla — os anos de 1980, 1991 e 2015 —, Pizzolatto encontra mais tempo, em termos narrativos, para explorar os efeitos negativos provocados pela espiral de violência do caso do sumiço dos jovens Will (Phoenix Elkin) e Julie Purcell (Lena McCarthy) nas vidas dos policiais, que são inevitavelmente afetadas pelo desenrolar de um mistério rico em equívocos e performances memoráveis.

A essa altura do campeonato, chega quase a soar repetitivo aclamar novamente uma performance de Ali, vencedor do Oscar por Moonlight: Sob a Luz do Luar e Green Book - O Guia; por outro lado, como fazer o contrário quando o ator nos apresenta mais uma de suas aparentemente inesgotáveis facetas como artista? Assistir ao seu Don Shirley em Green Book e ao seu Wayne Hays nesta terceira temporada é, aliás, a maneira mais direta de compreender os múltiplos ângulos de seu talento e como Ali tem a capacidade de tornar-se outra pessoa sem mudar de rosto. Ainda que sejam personalidades completamente dissonantes, tanto o pianista do ganhador do Oscar de Melhor Filme 2019 quando o policial, diferenciam-se, acima de tudo, por conta de suas semelhanças.

Tanto Shirley quanto Wayne são homens embrutecidos por seus contextos, homens cujos afetos são silenciados e solapados por ocorrências que fogem ao seu controle. Ambos estão, assim, investidos na incessante e brutal busca, interior e exterior, por encontrar seus lugares no mundo. E é justamente a via com que Ali aborda estes dois papéis quase complementares é que o destaca de seus pares, e potencialmente o credencia ao status de um dos grandes intérpretes de sua geração. Porque em True Detective, Hays é primeiro um soldado que tenta ser útil à sua nação em tempos de paz (1980); um policial condenado ao serviço burocrático por causa de sua “indisciplina” (1991); e por fim um idoso amargurado, assombrado pelos fantasmas do pretérito e prejudicado por uma agressiva falha de memória (2015).

"Conte-me uma história. Neste século e neste momento, de mania. Conte-me uma história. Faça dela uma história de grande distância e de prazeres. O nome da história será Tempo, mas você não deve dizer o seu nome", diz o poema "Tell Me a Story", de Robert Penn Warren, obra que serve como primeiro contato entre Hays e a professora Amelia (Carmen Ejogo), uma mulher determinada que se tornaria sua esposa e confidente. Mas mais do que ligar o protagonista à sua contraparte feminina, o texto poético, apresentado logo de início, antes mesmo de a investigação dar seus primeiros tímidos passos, coloca as cartas na mesa: nesta terceira temporada, Pizzolatto está mais interessado, acima de tudo, em analisar como as relações estabelecidas por Hays, consigo mesmo e com aqueles ao seu redor, altera-se com os anos.

Talvez por isso este pacote de capítulos pareça ser dividido em dois momentos claramente distintos e separados — indicativo, aliás, da falha fundamental desta temporada: um inicial que compreende os capítulos entre o primeiro e o quinto, mais focado nas ligações interpessoais entre seus personagens, construindo, a partir das mesmas, todas as implicações afetivas que desembocam, inevitavelmente, na segunda parte, composta do sexto ao oitavo episódio, na qual o foco é o desfecho da investigação em si. O que fica evidente aqui, portanto, é que Pizzolatto deixou para trás algumas de suas preocupações filosóficas — distantes são os tempos dos aforismos niilistas de Rust — e de seus thrillers criminais para debruçar-se sobre um minimalista estudo de personagens através da corrosão, natural ou não, da memória.

Assim, se a primeira temporada é um romance fantástico, com seus mitos grandiosos e suas tramas lovecraftianas, esta terceira temporada é de fato um poema motivado pela humanidade de seus protagonistas, pelos seus erros, falhas, triunfos, dissabores e prazeres. Aqui, são as fantasias da mente, e também as "fantasias" provocadas pelo abuso de poder e pela corrupção daqueles que estão no topo da sociedade, que tomam precedência sobre as fantasias sobrenaturais. A trama é, no fim das contas, um emaranhado de pensamentos e considerações sobre esquecimento, amarguras, rancores, ódios alimentados pelo tempo, deterioração de cidades e outras destruições acarretadas por problemas de memória, sejam eles individuais ou coletivos.

Como o balanço é alterado, o caso em si, a seara narrativa do drama policial, perde força. O desenlace do caso Purcell — que cita a primeira temporada de True Detective e a jornada de Rust e Marty em um easter-egg que não só ajuda a edificar o universo dramático da antologia, como também escancarar ainda mais os descompassos da segunda temporada, que soa quase como um derivado mal-sucedido das intenções originais de Pizzolatto — é, de certo modo, anticlimático. As revelações são sim impactantes, ,as não necessariamente conclusivas em relação à inteligente e intrincada trajetória policial escrita pelo autor, inserindo bonecas, símbolos, personagens sombrios e policiais corruptos. O desfecho é, no máximo, correto, em outras palavras.

A ausência de uma unidade visual, por sua vez, segue sendo outro problema. Nesta terceira temporada, o comando diretorial, nos moldes do primeiro ano, impressionantemente comandado por Cary Joji Fukunaga (Maniac, Beasts of no Nation) ficaria por conta de Jeremy Saulnier (Sala Verde). Contudo, conflitos de agenda impediram que o realizador de Noite de Lobos dirigisse mais do que os dois primeiros episódios que, não por acaso, são os destaques, em termos de realização, deste presente conjunto de capítulos de True Detective. Desse modo, Pizzolatto precisa compensar o confinamento da antologia à estética tradicional e pouco inspirada da direção de televisão — o próprio autor e o veterano Daniel Sackheim são os diretores que completam a temporada — com saídas de roteiro.

Aos pouco variados e ocasionalmente preguiçosos planos próximos e de conjunto, que nos fazem sentir saudades dos insanos enquadramentos e do ritmo imposto tanto por Fukunaga, quanto por Saulnier, True Detective contra-ataca através das performances de seu elenco e de alguns comentários relevantes sobre as audiências contemporâneas e nossos mórbidos interesses nas histórias de crimes reais, narradas em documentários como Making a MurdererThe Staircase e O.J.: Made in America. Desse modo, enquanto o Hays de Ali é questionado pela documentarista Elisa (Sarah Gadon, mal explorada, apesar de sua sólida atuação) em 2015, ele também é antagonizado por Roland e por Amelia, que trazem, ao mesmo tempo, o melhor e o pior do detetive à tona.

Enquanto Dorff mantém o ritmo de Ali, tornando-se o perfeito ponto de equilíbrio de Hays em suas jornadas, Ejogo, por sua vez, é aquela que cutuca o detetive vivido pelo vencedor do Oscar. Prêmios podem dizer muita coisa sobre atores, mas a ausência de estatuetas nas prateleiras dos coadjuvantes desta temporada de True Detective não deve ser levada em contas. O que deve ser considerado, somente, é como, na posição de apoiadores do protagonista, Dorff e Ejogo desafiam Ali das mais variadas formas possíveis. Apesar de serem praticamente veteranos, os dois soam como um verdadeiro achado de Pizzolatto e, se tivermos sorte, ganharão mais papéis de relevância no futuro, trazendo as ambiguidades e ambivalências que estruturam personagens tão tridimensionais quanto Roland e Amelia.

A escritora, aliás, parece ser a resposta do autor às críticas sobre o tratamento que sua obra reserva às mulheres. Enquanto o roteirista e diretor tentou adequar-se às reações negativas na segunda temporada com a detetive Ani de Rachel McAdams, na segunda temporada, é com a esposa de Hays que Pizzolatto aproxima-se mais da ideia de uma figura feminina verdadeiramente complexa — que não seja apenas, em suma, uma viga de sustentação narrativa aos homens da trama. Muito mais agente, ainda que não seja uma protagonista, nem na prática nem na teoria, Amelia é uma criação bastante instigante, principalmente pelo fato de que opera, quase que via de regra, como uma antagonista, que desenvolve uma linha de investigação paralela àquela empreendida por Wayne e Roland.

Nos diálogos, Pizzolatto faz questão de reforçar a ideia de que a personagem de Ejogo não é apenas um enfeite, mesmo quando ela é tratada assim. Mas é só quando ela é realmente a opositora de Wayne, independentemente das palavras que usa, só quando possui um arco narrativo próprio na trama, informado por desejos e objetivos individuais e não subordinados aos do personagem de Ali, que Amelia atinge o auge. Na teoria, protagonista e antagonista são aqueles personagens que, para além de definirem os rumos da trama, lutam por um mesmo objetivo — no caso dos romances policiais, a missão é tomar posse da capacidade de contar a história, de desvendar a verdade, algo que Wayne tenta através de seu trabalho e Amelia como a autora de um livro que faz as vezes de uma espécie de Bíblia do caso Purcell.

Potencializada por uma intensa performance de apoio do sempre competente Scoot McNairy, esta terceira temporada de True Detective pode pegar leve no mistério e nos aspectos policiais, mas consolida Pizzolatto como um roteirista de relações humanas. Caso o thriller e o drama fossem mais harmônicos entre si, estes episódios certamente seriam mais triunfantes. Por outro lado, como a última imagem desta temporada anuncia, o ponto nunca foi seguir os passos de um Raymond Chandler ou até mesmo do primeiro ano desta mesma antologia. Tudo culmina quando Wayne, pela primeira vez diante de nossos olhos, adentra aquela que parece ser uma floresta do sudeste asiático, como se a imagem remetesse às memórias do policial durante a Guerra do Vietnã.

A subtrama dos tempos de Wayne no Exército dos Estados Unidos, onde servia como rastreador durante o mais fracassado conflito bélico da história de seu país, é, na verdade, uma metáfora. Porque apesar de vermos o detetive em meio à selva, ele não está lá; ou, colocando as coisas de outro modo, a floresta não é real e sim, quem sabe, os confins de sua própria mente. Armado até os dentes para a batalha, o personagem de Ali é, a todos os instantes, um caçador de memórias, um caçador do tempo perdido. E como prova "Calmly We Walk through This April’s Day", poema que encerra a temporada, todos nós também somos caçadores: "O que sou agora do que era antes? Que a memória resgate a menor cor, do menor dia. O tempo é a escola onde aprendemos. O tempo é o fogo no qual queimamos".

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