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    Sex Education: Crítica da 1ª temporada
    Por Laysa Zanetti — 07/02/2019 às 16:48
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    Série da Netflix com Gillian Anderson traz um teor disruptivo invertendo clichês e quebrando tabus com leveza.

    Nota: 4,0 / 5,0

    Sex Education é uma série que ama clichês. É uma série apaixonada por John Hughes e pela convenção de gênero do nerd excluído, do atleta descolado e da jovem rebelde que esconde o quanto é brilhante. Justamente por isso, no entanto, ela trabalha todos estes biótipos na ponta da reversão. A história apresenta tudo o que se espera dela, apenas para cinco minutos depois brincar com as expectativas e utilizá-las a seu próprio favor. Ao invés de alimentar estereótipos, torna toda a pré-disposição a ler aqueles personagens como livros abertos para enganar o público no melhor sentido, e falar abertamente de sexo com paciência e sem padronizações.

    Criada por Laurie Nunn — cuja filmografia inclui a direção de um curta-metragem e o roteiro deste e mais dois —, a série acompanha Otis Milburn (Asa Butterfield), um jovem de 16 anos sexualmente reprimido, que não consegue se masturbar, embora sua mãe, Jean (Gillian Anderson) seja uma terapeuta sexual que trata do assunto em casa com tamanha naturalidade que chega a constranger o garoto. Ele é melhor amigo de Eric (Ncuti Gatwa), mas sua vida se transforma completamente quando ele aceita a proposta da rebelde “sem causa” Maeve Wiley (Emma Mackey), tornando-se o improvável conselheiro sexual da escola.

    Para uma série adolescente que trata de sexo — ainda mais sendo uma produção britânica, que torna fácil a associação imediata a um humor cru e frio — Sex Education sai do lugar comum porque é acima de tudo uma série feita com o coração. A comédia não está interessada em ficar na dicotomia de personagens ora muito experientes, ora completamente desconexos; as inseguranças nas quais está interessada nunca são tratadas no isolamento, pois tudo está ligado a incertezas de uma vida adulta que se aproxima em velocidade galopante. Não apenas nada é tratado no vácuo como também existe um nível de complexidade nas descobertas feitas pelos personagens que enfim enxerga adolescentes como seres pensantes, e não apenas como versões idealizadas do que adultos gostariam de ter sido. Há experimentação e testes que dão certo e que dão errado. Há frustrações e ideias que não são enxergadas com clareza, há confusão e aprendizado, perguntas e respostas tão específicas que acrescentam muito frescor ao gênero e ao assunto.

    Boa parte do teor disruptivo de Sex Education está ligado ao quanto ela aprofunda personagens e relações no inverso do convencional. Sim, existe o melhor amigo gay do protagonista hétero, mas a história de Eric está interessada no que acontece depois da saída do armário. Na verdade, está interessada em algo mais específico, pois quer descobrir o que acontece com um jovem que não se encaixa nos padrões de gênero, mas que tem o apoio do pai superprotetor em uma família religiosa. A história de Eric pergunta o que a televisão raramente pergunta quando trata da jornada de personagens LGBT: “o que acontece depois?”

    Netflix/Divulgação

    Eric pode ser facilmente o personagem mais popular da série, mas o roteiro não facilita a missão de escolher um favorito. Jackson (Kedar Williams-Stirling), o convencional atleta mais popular da escola, está longe de ser o “babaca descerebrado” tradicional deste tipo de história. Existe um trabalho excelente de desenvolvimento dos coadjuvantes — que existem independente dos protagonistas —, a ponto de fazer a torcida pelo hipotético casal (Maeve e Otis) ser desafiada pela delicadeza através da qual Jackson e Ola (Patricia Allison) são apresentados.

    É nestes pequenos detalhes que Sex Education sai vitoriosa e se destaca da multidão. Ao apostar na honestidade de uma história que se propõe a falar de um tabu sem ridicularizá-lo, torna-se a produção mais genuína ainda que se ampare em todas as convenções de gênero que criaram as comédias escolares. Ela se transforma em algo muito perspicaz quando aposta na contradição com que constrói  o personagem principal da história. Otis não sabe absolutamente nada sobre sexo, mas ao mesmo tempo sabe tudo. Ele dá conselhos que ele mesmo não segue. E isso diz muito sobre experimentações e descobertas. Sexo pode ser divertido, assustador, confuso, frustrante ou prazeroso, mas é algo natural e deve ser tratado como tal.

    A série tem dois grandes pontos fracos: o que ela entende como algo muito inesperado na relação entre Eric e Adam (Connor Swindells) é completamente previsível e repetitivo até a conclusão final, e infelizmente a comédia aproveita mal a genialidade de Maeve e a ótima atuação de Mackey. Em quase todas as vezes, a história dela está ligada a imperfeições de personagens masculinos que falharam com ela, fazendo com que ela gire em torno das falhas deles ao invés de acreditar em si.

    No entanto, as dificuldades de Otis e os conflitos de uma Maeve obrigada a crescer mais do que qualquer outro personagem da série servem como um gancho ainda maior para tratar de uma evolução pessoal que é a mensagem central da história. Qualquer descoberta e qualquer amadurecimento vai acontecer em tempos diferentes para pessoas diferentes. Essa é a ideia. Este é o fluxo natural. E tudo bem se você não souber de tudo, tudo bem em perguntar e dividir. Tudo bem não saber de tudo. Ninguém sabe.

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