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    Trust: Criador fala sobre comparações com Todo o Dinheiro do Mundo e elogia performances de Donald Sutherland e Hilary Swank (Entrevista)
    Por Laysa Zanetti e Katiúscia Vianna / Tradução: Louise Franca — 31 de mar. de 2018 às 08:24
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    O AdoroCinema falou com Simon Beaufoy, grande parceiro de Danny Boyle, sobre a nova série do FX.

    Em 1973, um famoso bilionário recusou pagar o resgate de seu neto sequestrado. Como resultado, a orelha do jovem foi arrancada e enviada pelo correio para seus parentes. Desde então, a polêmica história da família de J. Paul Getty ficou marcada na cultura popular, sendo recontada de diversas formas. No último ano, foi tema do filme Todo o Dinheiro do Mundo. Agora chegou a vez de Trust.

    Produzida por Danny Boyle, a antologia vai explorar a história da família Getty, analisando uma década por vez. Ambientada nos anos 1970, a primeira temporada retrata o sequestro de John Paul Getty III (Harris Dickinson), o neto de J. Paul Getty (Donald Sutherland), dono da fortuna petrolífera da Getty Oil Company. O show ainda traz Hilary Swank como Gail, a mãe do jovem protagonista, e Brendan Fraser no papel do excêntrico investigador James Fletcher Chace.

    O AdoroCinema teve a chance de conversar com o roteirista/produtor Simon Beaufoy - que já trabalhou com Boyle em Quem Quer Ser um Milionário? (2008), 127 Horas (2010) e A Guerra dos Sexos (2017). Suas opiniões sobre a responsabilidade de contar a história da família Getty nas telinhas, você confere no bate-papo a seguir:

    Quanta liberdade você tomou com a história real ao escrever essa série?

    A estrutura é a mesma. As partes inacreditáveis são verdadeiras. O fato da família mais rica no mundo não pagar um resgate insignificante para seu neto. O fato que ele sequestrou a si mesmo, para começo de conversa. O fato de sua orelha ter sido cortada e enviada pelo correio, mas houve uma greve e ficou sem ser entregue por duas semanas. Todas essas coisas são verdadeiras. Claro, não há muito sobre os meses em que John Paul Getty III foi mantido como uma pessoa sequestrada no sul da Itália. Tive que fazer suposições lógicas sobre isso. Mas uma das coisas que realmente me fascina sobre contar essa história é que essa foi, de certa forma, o primeiro reality de televisão. Gail Getty foi seguida o tempo todo por jornalistas enquanto estava tentando negociar a liberação do seu filho. Foi a nova forma de fazer jornalismo em 1973. O mundo estava mudando. Agora, com a geração selfie, tudo é gravado a qualquer momento. Esse foi o primeiro sequestro de uma pessoa importante que foi acompanhada pelo público. É uma mistura de fato e ficção.

    Qual é a parte mais difícil de escrever sobre pessoas reais?

    Você tem responsabilidade de fazer a coisa certa ao escrever seus personagens com integridade. Obviamente, quando está transformando uma história verdadeira num drama, você precisa mudar algumas coisas. Mas, de alguma forma, precisa manter a verdade emocional dos personagens e das pessoas. Essa é a coisa mais difícil de ser feita. Eu fiz isso algumas vezes na minha vida, especialmente com Billy Jean King em A Guerra dos Sexos, e também em 127 Horas. Em ambos casos, eles ficaram bem satisfeitos, apesar da ficção fazer certas suposições, o que acontecem quando você está dando uma linearidade narrativa que a vida real não tem. A vida real é confusa e dramática. Espero que respeite a única personagem principal ainda viva, Gail Getty, a única pessoa que lutou incessantemente para liberar seu filho, enquanto todo mundo era egoista e focado no seu próprio sofrimento. Tenho um enorme respeito pela forma como ela lidou com essa situação absurdamente agonizante.

    Por que você acha que é importante contar essa história para o mundo em que vivemos, em pleno 2018?

    Essa é uma história que podia ser contada a qualquer momento, porque fala sobre as duas coisas mais importantes da vida: o amor e o dinheiro. É o conto mais extraordinariamente moralista do que a riqueza abundante pode proporcionar. Para essa família, causou uma quantidade enorme de sofrimento. Trata-se, na verdade, de um menino que quer fugir da riqueza e não conseguiu. Já John Paul Getty I foi o primeiro bilionário da história. Os sequestradores querem um resgate de 17 milhões de dólares e ele conseguiu negociar a diminuição até 5 milhões de dólares. Ele apenas via seu neto como uma negociação. É uma história brilhante para o presente, onde a diferença entre os muito ricos e os muito pobres é extrema. É uma análise incrível sobre o amor e dinheiro, questionando qual é mais importante na sua vida.

    O que vai surpreender as pessoas sobre Trust?

    Ela tem performances incríveis de Hilary Swank, Donald Sutherland e Brendan Fraser. E cada episódio tem um tom diferente do outro. O primeiro é como se Downton Abbey estivesse sob efeito de drogas. O segundo é um processo investigativo. O terceiro é todo formado por flashbacks de dentro da mala de um carro, com John Paul Getty sendo sequestrado. Outro é inteiramente em italiano, sob o ponto de vista do sequestrador, mostrando como eles lidaram com o fato de ter alguém em sua comunidade por quase seis meses, porque sua família não paga seu resgate e as consequências disso. Então, é surpreendente pois muda toda hora.

    Qual é a diferença entre sua visão da história e a versão de Ridley Scott em Todo o Dinheiro do Mundo?

    Eu acho que a diferença entre fazer um longa e uma série de televisão (com dez horas de duração) é que filmes são incrivelmente impacientes quanto ao enredo. Eles o atacam como um tubarão. Você precisa manter a história em movimento. Com a televisão, você tem tempo. Nós temos um episódio inteiro para analisar o que os sequestradores pensam sobre tudo isso. Você jamais teria tempo para fazer isso em um longa-metragem. Eu não vi, mas suspeito que o filme do Ridley Scott é sobre o sequestro. Nós usamos o sequestro como um gancho para analisar o mundo louco de John Paul Getty I.

    Por que você acha que o público e a crítica está respondendo tão bem para essa série que recria tragédias do mundo real, como American Crime Story e Law & Order: True Crime?

    Acredito que tenha a ver com a crescente auto-análise proporcionada pela internet. Lembro que, quando fizemos 127 Horas, sobre um homem que corta seu próprio braço para sobreviver, a questão de todo mundo era "será que eu conseguiria fazer isso?" Estamos numa era de auto-reflexão. Estamos sempre olhando no espelho. As histórias baseadas em fatos reais nos fazem olhar para nós mesmos.

    Trust estreia no Brasil em 2 de abril, através do Fox Premium. Confira nossas primeiras impressões!

     

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    Comentários
    • Alan Ramos Fernandes
      Achei curioso o roteirista ter dito que nao viu o filme ,apesar de TV e cinema serem veículos distintos poderia ser uma boa base para ele escrever a serie dele ,ainda que o filme do Ridley Scott seja mediano ,também acho arriscado fazer a serie tao em cima do filme ,que foi muito badalado mas foi um monumental fracasso .
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