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    Opinião: Precisamos falar sobre preconceito contra minorias em séries de TV
    Por Laysa Zanetti — 16 de abr. de 2016 às 09:50
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    Ou: como os fãs de The 100 começaram uma revolução a favor da boa representatividade.

    [Atenção: Contém spoilers de The 100, Sleepy Hollow e Arrow. Esteja atento(a) aos eventos dos episódios recentes.]

    No fim de 2015, o mundo do cinema e da TV hollywoodianos mergulhou em uma polêmica ancorada pela falta de indicados negros às categorias de atuação do Oscar pelo segundo ano seguido. O assunto foi amplamente debatido nas redes sociais e pela mídia, e a hashtag #OscarsSoWhite foi novamente utilizada. À medida que o assunto foi sendo aprofundado, porém, a verdadeira causa do problema foi denunciada. A falta de representatividade, no fim, nunca esteve restrita às premiações, mas está presente em todo o processo de criação. Como Chris Rock muito bem denunciou em seu discurso de abertura da cerimônia do Oscar, no último dia 28 de fevereiro:

    “Você quer indicados negros todo ano? Você só precisa ter categorias para negros. Vocês já têm para homens e mulheres...Pense bem, não faz sentido ter uma categoria para homem e outra para mulher em atuação. Não tem por quê! (...)

    Se quiser atores negros indicados todo ano, apenas tenha categorias para negros, como 'melhor amigo negro'.”

    O debate, porém, não ficou esquecido, e apesar de poucas soluções terem sido, de fato, propostas, o problema foi reacendido após uma recente polêmica que teve seu estopim em uma série teen da CW. Então, se você nunca ouviu falar de The 100, chegou a vez.

    Ambientada cem anos no futuro, The 100 (se lê the hundred) se passa após uma guerra nuclear ter destruído a Terra. Um grupo conseguiu sobreviver em uma estação espacial, mas quando a sobrevivência na Arca é ameaçada, o chanceler manda um grupo de jovens delinquentes para a Terra a fim de descobrir se ela é novamente habitável. O que ninguém sabia é que existem vários grupos de sobreviventes que já habitam o planeta, e quando os novatos chegam, uma guerra por território é colocada em movimento.

    Lexa (Alycia Debnam-Carey) e Clarke (Eliza Taylor), um dos mais fortes pilares de The 100, e estopim do movimento.
    O resumo da história (contém spoilers): três temporadas adentro, uma grande parte dos fãs da série está revoltada com a forma que a saída de uma personagem, lésbica, foi abordada, tanto dentro da história quanto pelos representantes da série nas redes sociais. A personagem, Lexa (Alycia Debnam-Carey), foi morta de uma forma que evoca inúmeros clichês já utilizados exaustivamente em séries de TV, e o que torna tudo ainda pior foi a maneira que o próprio showrunner, Jason Rothenberg, utilizou o Twitter mais de uma vez para garantir aos fãs não apenas o retorno da personagem, mas a sua importância na história.

    Após terem se sentido usados para aumentar a audiência da série (algo que definitivamente aconteceu após a segunda temporada), os fãs iniciaram uma campanha para denunciar o queerbait (quando o roteiro de uma série cria tensão sexual entre personagens do mesmo sexo para atrair atenção de um determinado público). O que torna o movimento relevante é que ele não ficou restrito a uma única série. Nas semanas seguintes ao episódio de Lexa, uma onda de personagens do sexo feminino foram mortas em séries diferentes, de Arrow a Empire, passando por The Walking Dead, The Vampire Diaries e Sleepy Hollow. A pergunta que fica no ar é: por que temos a impressão que apenas mulheres, personagens negros ou representantes LGBT estão sendo ameaçados nas séries?

    A justificativa utilizada pelos produtores e roteiristas cai em uma velha máxima, há muito conhecida: “qualquer um pode morrer”.

    Mas será que pode mesmo?

    Por que, então, que a Abbie Mills (Nicole Beharie), a protagonista negra de Sleepy Hollow, foi morta somente para aprofundar a história de sua contraparte, o homem branco? Há indícios de que Beharie queria sair da série, o que se justifica pelo pouco desenvolvimento e destaque que sua personagem teve desde a segunda temporada. A decisão da atriz apenas reforça a ideia de que Abbie pouco estava importando para os roteiristas.

    Por que, então, que Arrow matou Laurel Lance (Katie Cassidy), a Canário Negro, simplesmente pelo valor do choque? A personagem é uma das mais importantes para o Arqueiro Verde nos quadrinhos. Qual sentido tem cortá-la da história simplesmente para dar mais enfoque a um romance (que incomoda boa parte dos fãs da série) e para chocar a audiência?

    Qual paradigma exatamente uma série está quebrando se ela coloca vários personagens representantes da minoria no centro da trama para apenas torturá-los ou tirá-los de cena em favorecimento do protagonista-homem-branco-heterossexual-padrão? Se não for um desserviço, esta escolha é, no mínimo, completamente descompromissada com qualquer causa. Se uma minoria não tem boa representatividade, então ela não tem representatividade alguma. E ponto.

    No Laurel, No Arrow: fãs se revoltaram após a morte da Canário Negro no último episódio da série do Arqueiro.
    Estes são apenas alguns dos exemplos, mas uma rápida pesquisa demonstra que “mulheres descartáveis” foram mortas em séries como The Expanse, The Magicians, Hap and Leonard e Vikings, para contar apenas as últimas semanas. Os fãs estão ficando cada vez mais furiosos e cansados — e com razão. É claro, ninguém está dizendo que os roteiristas devem deixar de lado as suas escolhas e dar às suas séries o fim ou o caminho idealizado pelos fãs, mas é necessário ouvir quando eles apontam um problema recorrente e constante. Agora mais do que nunca, quando a propaganda boca a boca, de fã para fã ou de blog para blog é cada vez mais importante para o futuro de uma série. Se esta perde a fidelidade do seu público (como vem acontecendo com The 100), então o caminho para o fim é ainda mais curto.

    Por isso, se a diversidade não for incluída de forma completa na narrativa, então ela se torna apenas uma palavra bonita para chamar atenção. A resposta para tudo isso é novamente a inclusão. Um estudo da Universidade de San Diego aponta que 74% dos produtores executivos são homens. Nas salas de roteiristas, 87% são brancos. Então, como exatamente as séries vão incluir minorias de uma maneira ideal se esta mesma minoria não tem voz dentro das próprias emissoras?




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    Comentários
    • Cleber Oliveira
      Boa
    • Cleber Oliveira
      Puta que pariu!! quanto mi mi mi em uma postagem só.
    • Jared Lourenço
      Triste
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