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    Kleber Mendonça Filho, diretor de Aquarius, se defende contra acusações de membro da comissão do Oscar
    Por Bruno Carmelo — 19/08/2016 às 16:30
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    Uma das pessoas que escolherá o representante do Brasil no Oscar tem feito ataques ao cineasta.

    Sebastien Nogier / EFE

    Há algumas semanas, as redes sociais têm sido palco de uma polêmica relacionada à escolha do filme brasileiro que representará o país no Oscar 2017.

    O processo de seleção ainda nem começou, e a comissão que escolherá o filme nacional não está completa. Mas o primeiro nome anunciado despertou polêmica: trata-se do crítico Marcos Petruccelli, da rádio CBN, um veterano da imprensa conhecido pelas ideias conservadoras.

    Petruccelli publicou diversos comentários na Internet contrários a Aquarius, único longa-metragem brasileiro que concorreu à Palma de Ouro no festival de Cannes e, por esta razão, um dos nossos candidatos mais fortes à disputa pelo Oscar de melhor filme estrangeiro. Além disso, o filme venceu o festival de Sydney e tem distribuição garantida em 60 países.

    Sônia Braga em Aquarius

    Mesmo sem ter assistido à produção, o crítico atacou o diretor de Aquarius, Kleber Mendonça Filho, pelo posicionamento político durante o festival. Na época, o cineasta e outros membros da equipe (Sônia Braga, Maeve Jinkings, a produtora Emilie Lesclaux etc.) levantaram placas contrárias ao impeachment de Dilma Rousseff, denunciando à mídia a existência de um golpe em andamento no Brasil.

    Entre os ataques feitos por Petruccelli, consta a acusação de que o diretor foi ao festival francês "de férias", levando cerca de 30 pessoas cujas viagens ele supunha terem sido pagas com dinheiro público. Em comentários na Internet, o crítico da CBN confirmou que não sabia exatamente quem financiava as viagens.

    Nesta sexta-feira, 19 de agosto, Kleber Mendonça Filho publicou na Folha de São Paulo e em sua página no Facebook uma carta aberta, combatendo as acusações e defendendo a legitimidade de Aquarius como possível representante nacional no Oscar. Confira a reprodução do texto na íntegra:


    CARTA ABERTA SOBRE A COMISSÃO BRASILEIRA DO OSCAR, por Kleber Mendonça Filho

    Por quê estou defendendo ponto de vista ligado à participação na disputa pelo Oscar, esta "coisa de Hollywood"?. Esta pergunta me tem sido feita ao longo das últimas semanas. A questão aqui não é Oscar, Goya ou Framboesa. A questão é defender um processo democrático.

    A escolha do filme para representar um país no Oscar deve ser estratégica para o cinema do país. As comissões montadas pela Secretaria do Audiovisual para a seleção de um filme devem respeitar o processo democrático executado pelo Ministério da Cultura, órgão federal que defende, estimula e divulga a cultura brasileira. Antes de discutir o Oscar, o que ele é e representa, é importante defender a seriedade dos processos de seleção públicos para que a comissão, escolhida democraticamente por entidades ligadas ao audiovisual, possa fazer o trabalho corretamente.

    Como muitos já sabem, há duas semanas começou a circular a informação de que o jornalista paulista Marcos Petruccelli anunciara nas suas redes sociais o convite, realizado pelo Secretário do Audiovisual do atual governo interino, o pernambucano Alfredo Bertini, para compor a comissão que irá escolher o filme brasileiro para o Oscar.

    Tecnicamente, Petruccelli seria um nome adequado. É jornalista da área de entretenimento, atua na Radio CBN, e acredito que o mesmo padrão técnico aplica-se aos outros nomes da comissão, pessoas ligadas ao cinema e à cultura, livres para tomar suas decisões.

    No entanto, a questão que vem sendo levantada pela imprensa e redes sociais, e que me trazem a esse posicionamento, é que o jornalista em questão vem atacando, por questões políticas suas, já há três meses, "Aquarius", filme escrito e dirigido por mim, e que o jornalista membro oficial da comissão já informou não ter visto.

    O posicionamento estridente do Sr. Petruccelli em relação a esse filme parece ter como base a sua insatisfação pessoal com o protesto democrático e que terminou sendo divulgado em mídia mundial, realizado por dezenas de trabalhadores do audiovisual brasileiro em Cannes e pela equipe de Aquarius no grande festival, onde o filme teve sua première em competição. Foi naquele momento do mês de maio que, vale lembrar, o Ministério da Cultura passou alguns dias extinto - decisão do Governo interino que depois voltou atrás, ressuscitando a pasta.

    Se esse comportamento do jornalista já faz da sua participação nesta comissão algo constrangedor para a SaV, a questão torna-se ainda mais séria quando alguns desses ataques sugerem publicamente mentiras sobre a equipe de mais de 30 profissionais de “Aquarius” ter ido a Cannes "de férias”, suas estadias que teriam sido pagas pelo dinheiro público com orçamento ("no chute" do Sr. Petrucelli) de “500” euros por dia. Esse é um comportamento irresponsável num momento político onde fatos já têm sido tão ignorados e distorcidos na mídia.

    Este jornalista, que deveria ter intimidade com a área na qual trabalha, não parece entender que um filme como Aquarius, feito em Pernambuco, existe através de uma união de profissionais do cinema, trabalhadores do audiovisual que fazem parte de uma comunidade criativa relativamente pequena.

    Para completar, parte importante dessa mesma equipe também estava em Cannes para apresentar um segundo filme pernambucano (na prestigiosa Semana da Crítica), O Delírio é a Redenção dos Aflitos, de Fellipe Fernandes, assistente de direção de Aquarius. Caso raríssimo de dois filmes pernambucanos e brasileiros, em Cannes, em mostras de enorme prestígio. É motivo para celebrar dois trabalhos bem feitos, de maneira honesta.

    Em Aquarius, nossa equipe trabalhou durante 15 semanas, sete de preparação e oito de filmagem. Esses profissionais quiseram celebrar o longa e o curta, em Cannes. Com a seleção dos dois filmes, essa equipe fez esforços pessoais para ir à França, pois Cannes que é um encontro mundial de profissionais de cinema.

    Para que fique claro, com a exceção da minha pessoa e Sonia Braga (despesas pagas pelos co-produtores franceses) e três apoios publicados em Diário Oficial da Agência Nacional de Cinema publicados (previsto, reconhecido, oficializado para profissionais brasileiros a trabalho em grandes festivais internacionais de cinema) para integrantes da nossa equipe de produção, as mais de 30 pessoas da equipe (demais atores, técnicos, produtores) usaram seu próprio dinheiro, parcelando passagens aéreas e dividindo hospedagem. Não há nada de sinistro nisso. Sinistra é a má fé de um personagem primitivo com acesso à internet, sem senso de informação.

    É triste ter que corrigir com fatos, puros e simples, o tipo de mentira destrutiva que um comunicador tem espalhado de forma tão irresponsável. E essa pessoa está numa comissão que deveria defender os interesses do país, para julgar um filme que ele mesmo vem caluniando da forma mais torpe imaginável.

    É esse tipo de postura sombria que, infelizmente, tem marcado as discussões políticas no nosso país, transformando qualquer artista brasileiro em criminosos instantâneos, sem provas de nada, e onde a defesa democrática de um ponto de vista sobre o Brasil é algo a ser descartada com ódio e sem diálogo.

    Esse ano, a Academia de Hollywood tomou medidas novas para democratizar a opinião e o poder de voto dos seus membros, convidando cerca de 600 novos nomes de todo o mundo (uma dezena deles brasileiros, incluindo Anna Muylaert, Rodrigo Teixeira e Lula Carvalho), mulheres e homens de múltiplas culturas. Ironicamente, é nesse momento que o processo de seleção de um filme brasileiro para essa mesma Academia comece já tão errado.

    Independente da escolha dessa comissão, Aquarius estará nos festivais de Toronto e Nova York em setembro, depois da estreia em Cannes com recepção espetacular da mídia internacional, ganhar o festival de Sydney e contar já com distribuição em mais de 60 países, em todas as plataformas (cinema, TV e VOD, incluindo Netflix em quatro territórios incluindo Ásia). É um filme sobre amar as pessoas, estar com elas. É também sobre a defesa de um ponto de vista, de uma opinião baseada em fatos e em experiência de vida através do respeito à história de cada um, e como isso choca-se com o poder. Ou seja, Aquarius está em casa.

    KLEBER MENDONÇA FILHO
    Roteirista e Diretor de Aquarius, filme brasileiro.

    Abaixo, você assiste à nossa entrevista com o cineasta e ao trailer oficial de Aquarius:

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