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    Exclusivo: Mia Hansen-Love comenta a estreia Eden, retrato da música eletrônica pelos olhos dos jovens
    Por Bruno Carmelo — 18 de mar. de 2015 às 13:00
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    A diretora falou sobre a origem do projeto, a escolha do elenco e a diferença em relação aos outros "filmes de música".

    Eden não é um filme comum sobre música, e o trailer abaixo já comprova isso. Conhecida pelos filmes intimistas, a diretora Mia Hansen-Love conseguiu levar para o mundo da música eletrônica um olhar carinhoso e melancólico. A história apresenta Paul (Félix de Givry), jovem que descobre a música garage e torna-se DJ, até perceber que não é nada fácil viver da música.

    Mia Hansen-Love conversou em exclusividade com o AdoroCinema, falando sobre a origem deste projeto, escrito a quatro mãos com o irmão Sven Hansen-Love, um DJ profissional. Ela revela as grandes dificuldades de produção, comenta o trabalho com o elenco e as diferentes reações ao filme na França e no resto do mundo. Selecionado nos festivais de Toronto, Nova York e San Sebastian, Eden chega aos cinemas brasileiros nesta quinta-feira, dia 19 de março.

    História pessoal

    Eu não vivi esse cenário de tão perto quanto o meu irmão, mas eu ouvi muita música eletrônica por causa dele, desde que eu tinha 12 ou 13 anos. Ele era um típico irmão mais velho, que me passava sugestões de música para escutar. Eu vivi essa época pelos olhos dele, através da experiência dele. Quando comecei a escrever, criando a história e os personagens, eu escrevi cada vez mais cenas pensando nessa época. No fim das contas, é o meu ponto de vista, mas está impregnado das histórias dele também. É fruto de um diálogo entre nós. 

    Olivier Vigerie
    Mia Hansen-Love, diretora de Eden
    Biografia?

    Eden não é uma biografia clássica. Eu me senti muito livre em relação a isso, é realmente uma ficção. Meu irmão foi DJ durante 20 anos, mas não é uma “história real”, eu não fazia questão que tudo fosse fiel à realidade. O filme não é fiel aos fatos, mas eu tento ser extremamente fiel aos sentimentos da época. Eu não poderia restituir todos os fatos da vida do meu irmão. Essa é uma reinterpretação por vias de uma história.

    Escrevendo o roteiro

    Foi um processo longo. Nós escrevemos durante muito tempo, foram seis a dez meses de trabalho sem parar. A gente também fazia um trabalho de documentação, sempre escutando as músicas que a gente pretendia colocar na trilha sonora. A escolha da trilha sonora acompanhou o roteiro, criando um diálogo com a história.

    Direitos autorais das músicas

    Nós tivemos muita sorte. Nosso primeiro produtor estava muito preocupado. Ele achava que a gente não conseguiria os direitos autorais, porque custaria muito caro. No final, foi mais fácil. Quero dizer, isso gastou muito tempo e energia, mas foi menos caro. 99% das músicas que a gente queria foram cedidas ao filme, porque os artistas estavam muito felizes de ter uma música garage em um filme de ficção, o que não tinha acontecido antes. Eles compreenderam que era uma pena que essa música ficasse escondida. Muitos artistas vivem às sombras, são esquecidos, então eles aceitarem a tarifa única, que era a mesma para todo mundo, inclusive para o Daft Punk. Foi assim que conseguimos fazer o filme.

    Difícil produção 

    A primeira versão do roteiro era muito mais longa. Seriam dois longas-metragens, com um aspecto épico. Infelizmente, eu não consegui montar esse filme, embora algumas pessoas tenham apostado no projeto, e estivessem dispostas a investir naquela versão. Mas não encontramos dinheiro suficiente, então esses produtores perderam tempo. Tentamos várias comissões, mas reclamavam que a história não tinha muito conflito, não era dramática o bastante. Não era isso que se esperava sobre a música eletrônica. Eles queriam ver alguns códigos, e encontraram outros... Isso prejudicou a busca de financiamento. Fazer um filme de autor com grande orçamento hoje em dia é algo muito difícil.

    Além do “filme de música”

    Eu estava convencida que a força do projeto se encontrava no fato de trazer um olhar pessoal à história, sem reproduzir os mesmos códigos do gênero. Eu não queria fazer um típico filme musical, um filme sobre a vida noturna, e sim algo que pertencesse ao meu trabalho, que fosse coerente com a minha trajetória, e queria ter total liberdade. Foi justamente essa liberdade que despertou reclamações das comissões de financiamento. Hoje, com o filme terminado, sei que o público em busca dos clichês de música eletrônica, com a droga e tudo mais, vai ficar decepcionado.

    Uma história comum e realista

    Era essa a iniciativa: mostrar a história de alguém que cresce (não sei se posso dizer que ele se torna adulto), sobre a passagem do tempo, mergulhando no mundo particular da música. O amor principal do filme não é por uma mulher, e sim pela música. Esta é a particularidade de Eden, mas ele se inscreve na continuidade do meu trabalho. Quando eu escrevo um filme, eu penso na maneira como ele prolonga ou dialoga com os filmes anteriores.

    “Entre a euforia e a melancolia”

    Quando eu escrevi essa fala no filme [para o momento em que o protagonista descreve o gênero garage], não foi algo consciente, e só depois eu percebi que era uma boa definição do que me agradava, a mim e ao meu irmão, no garage. Essa também é uma definição do meu estilo como diretora. Com essa expressão, eu encontrei o que existia em comum entre a minha música pessoal e a música do filme, por assim dizer.

    Félix de Givry, ator principal

    Foi uma história especial. Ele tinha um pequeno papel em Depois de Maio, de Olivier Assayas. A diretora de elenco se lembrou dele, e eu tinha visto o teste dele na época, que tinha sido incrível. Além da sua presença e do seu físico, que combinavam com o personagem, ele tinha uma melancolia misturada com energia... O Félix também tinha um coletivo de música, um selo musical com amigos. Ele já era muito ativo na música eletrônica, e esse interesse me agradou para o papel. Era mais importante ter alguém com uma relação próxima à música do que um ator profissional, mais clássico.

    Homens amadores, mulheres profissionais

    Pois é, o elenco tem Pauline Étienne, Laura Smet, Greta Gerwig, Golshifteh Farahani... Isso aconteceu naturalmente, e só depois eu percebi. Todos os atores masculinos são amadores, e as atrizes são profissionais. Eles são mais frágeis, têm uma inocência que não existe nelas. Os papéis das mulheres são menores, apesar de marcantes, mas elas são muito profissionais, com bastante experiência. Eu adoro este equilíbrio, e sempre tentei misturar atores amadores e profissionais, adultos e crianças. Eles sempre trazem algo interessante à dinâmica.

    A diretora no set de filmagem de Eden
    Preparando o elenco

    Eu faço poucos ensaios, porque o meu estilo de roteiro não é muito baseado nos diálogos, é mais centrado no cotidiano, nos cenários, na luz natural. Seria muito artificial ficar ensaiando, mas eu faço uma leitura antes para ter certeza que os atores estão confortáveis com os diálogos. Eu passo muito tempo com os atores principais antes da filmagem, para existir uma intimidade na hora de gravar, uma cumplicidade que facilita o trabalho. Eu faço várias tomadas, porque adoro buscar as nuances, as pequenas diferenças, refletindo sempre sobre os enquadramentos, ocupando todo o tempo que eu tenho. Eu não gosto da ideia de chegar às filmagens tendo certeza do que vai acontecer. Gosto que exista uma parte de risco, de desconhecido, porque é sempre no set de filmagem que as coisas acontecem realmente.

    Um filme francês vs. um filme universal

    Pode parecer paradoxal, mas eu sempre acreditei que quanto mais um filme é preciso, principalmente na construção dos personagens, mais ele será universal. A ambição de Eden era ser ao mesmo tempo um retrato meticuloso sobre a música eletrônica na França e também uma evocação de toda a juventude, algo que se comunicasse com toda a geração. Aliás, o filme teve uma recepção ainda mais forte nos países estrangeiros, então espero que essa história possa dialogar com outros públicos. Espero que seja um retrato fiel da geração dos anos 1990, mas ao mesmo tempo, o idealismo e os fracassos são algo que todo mundo pode compreender. Mesmo que as gerações evoluam, e os problemas também, existe um idealismo próprio à juventude.

    Próximo projeto

    Neste verão [inverno no Brasil], vou filmar um filme totalmente diferente de Eden – o mais diferente possível, aliás. Vai ser um filme muito simples, com poucos personagens, e com Isabelle Huppert no papel principal. A história vai girar em torno dessa mulher, uma professora de filosofia.

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