Notas dos Filmes
Meu AdoroCinema
    Democracia em Vertigem
    Críticas AdoroCinema
    3,5
    Bom
    Democracia em Vertigem

    Um grande desacordo nacional

    por Bruno Carmelo

    Inicialmente, é importante fazer uma precisão a respeito desse documentário: considerado desde seu anúncio como "um filme sobre o impeachment da Dilma", Democracia em Vertigem possui ambições muito mais abrangentes do que documentar a queda da presidenta. Dilma Rousseff sequer constitui o foco central do filme, cujo verdadeiro protagonista é Lula, visto tanto na cena de abertura quanto na conclusão. O ex-presidente é retratado desde os primeiros passos políticos como metalúrgico no ABC paulista até a prisão em consequência da Lava Jato. Lula torna-se o símbolo da ascensão da classe trabalhadora ao poder, e também a comprovação dos limites da política conciliatória no cenário político nacional. Embora cite Dilma Rousseff, Aécio Neves, Jair Bolsonaro, Gilmar Mendes, Eduardo Cunha e até Juscelino Kubitschek, o projeto encontra seu motor narrativo na figura de Lula.


    O filme jamais demonstra a intenção de servir como ferramenta de "verdade histórica", ou seja, um documento de impacto visando corrigir percepções e impor um discurso predominante. A cineasta Petra Costa não participa à raivosa disputa de narrativas da sociedade contemporânea, preferindo uma leitura pessoal das últimas décadas. Assumindo sua subjetividade, ela se posiciona enquanto personagem e narradora, ao passo que entrevista a própria a mãe, militante presa pela ditadura. O recurso à família da diretora produz um efeito interessante: embora se trate de um núcleo economicamente privilegiado, Costa opõe os avós defensores da nova extrema-direita aos pais ativistas de esquerda. O contraste serve a representar numerosas famílias divididas desde as últimas eleições, ilustrando portanto a polaridade atual. Em paralelo, após cada cena sobre grupos em apoio à esquerda, vemos outra, de proporções equivalentes, em apoio à direita.





    Embora insira vários discursos dos protagonistas da política nacional, a principal voz do filme é a de Petra Costa, que não apenas enumera fatos e organiza as imagens, mas também interpela o espectador. O filme se abre com a constatação melancólica de que o sonho de uma revolução política jamais aconteceu, e se fecha com outra indagação, igualmente crepuscular, a respeito de nossa dificuldade em encontrar forças para lutar contra vozes antidemocráticas. Ao longo da projeção, Costa insere leituras poéticas ("Ele é um escultor cujo material é a argila humana", afirma sobre Lula), revela sua presença diante das câmeras, mostra entrevistas bem-sucedidas ou falhas, e termina por se confiar ao espectador: "Eu não sei como isso deve ser contado". É curioso que uma diretora, durante o ato de contar uma história, afirme não saber como contá-la. O recurso retórico serve ao menos para expressar proximidade, um tom de conversa de igual para igual, ao invés de se colocar acima do espectador, como se lhe ensinasse uma lição.


    Deste modo, a cineasta encontra espaço para uma inesperada poesia em meio ao caos. Desde o tom lânguido da narração até os planos aéreos de Brasília, banhados em música instrumental de caráter sacro, o filme sabe equilibrar as frases de efeito com os silêncios, os momentos de intensidade com outros de consternação. As duas horas de duração se desenvolvem em bom ritmo, sem a impressão de acelerar passagens nem repetir-se em explicações. É claro que, na ânsia de retratar muitas décadas de conflitos partidários, alguns pontos são subestimados: a mídia, mencionada através de capas de jornais e revistas, adquire um papel secundário na tormenta pública, enquanto as redes sociais e correntes de WhatsApp são citadas muito brevemente no trecho dedicado à eleição de Jair Bolsonaro. Talvez estes elementos desempenhem um papel fundamental na compreensão do Brasil atual, porém Costa privilegia a representatividade: após um rápido insert sobre as redes sociais, dá o assunto por coberto; após citar a imprensa majoritária, considera a menção suficiente. O documentário propõe menos uma hierarquia entre atores do cenário político do que um panorama amplo acenando a todos estes agentes. Caberá ao público, diante do farto banquete de informações, estruturar sua própria leitura.


    Democracia em Vertigem se conclui como um projeto extremamente ambicioso que, embora não dê conta da integralidade de sua abordagem socioeconômica, desempenha muito bem uma parte considerável dela. Para quem tiver receios sobre uma possível defesa partidária, vale ressaltar que o filme, de vertente progressista e igualitária, reserva espaço considerável a críticas ao PT - e mesmo à tão cobrada autocrítica dos membros do partido. Sobre a proximidade com outros documentários lançados recentemente com temas semelhantes - O Processo, ExcelentíssimosOperações de Garantia da Lei e da Ordem -, não há o que se preocupar: cada um destes projetos recorre a uma linguagem e um discurso diferentes, desde o tom sóbrio e jurídico de Maria Augusta Ramos até a abordagem espetacular de Douglas Duarte, em contraponto à narração intimista em modo "álbum de retratos" de Petra Costa. A profusão de documentários políticos reforça a fortuna crítica brasileira, que conta com filmes relevantes tanto por seu aspecto sintomático quanto pelo diálogo frutífero entre eles.





    Ao final, resta um retrato de desalento, de perda de referências, simbolizado pelo plano aéreo do gramado em frente ao Planalto, no qual pessoas de diferentes campos políticos caminham para todos os lados. Costa não cai na armadilha de fornecer alternativas fáceis, tampouco aponta vilões pontuais. O projeto se encerra na constatação de um sistema falido, uma democracia frágil e uma sociedade esfacelada, incapaz de se reconectar consigo mesma. Estaríamos unidos, ironicamente, pela descrença na noção de coletividade. Ao invés de nos alarmar sobre o caos iminente, a cineasta prefere acenar à necessidade de uma reforma muito mais ampla do que a eleição de um ou outro candidato. Na busca pela coesão narrativa, talvez controle excessivamente o discurso com sua própria narração, porém consegue apresentar um apanhado complexo sobre a "história do passado presente" do Brasil.


    É possível que este seja o maior mérito de Democracia em Vertigem: não tanto o que nos diz sobre o nosso passado - ainda recente, fresco na memória de qualquer cidadão minimamente informado - e sim as conexões tragicômicas com o presente. A comparação entre os coronéis da ditadura e os militares do governo atual, entre a esquerda social-democrata dos anos 1980 e a esquerda conciliadora do século XXI, entre os ativistas contra a ditadura e os jovens contestadores dos nossos tempos, um farto material de reflexão é fornecido a respeito das evoluções e involuções de uma nação em crise.

    Quer ver mais críticas?
    • As últimas críticas do AdoroCinema

    Comentários

    • leandro
      Petra Costa é filha de Manoel Costa e da jornalista e socióloga Marília Andrade (Li An). É também neta de Gabriel Donato de Andrade, um dos fundadores da construtora Andrade Gutierrez.Nos anos 1970, seus pais foram militantes de esquerda, ligados ao PCdoB (Partido Comunista do Brasil)
    • Jonas Puke
      Filme excelente, muito bem trabalhado. No começo, a voz um pouco chorosa da Petra faz pensar que ela é ingênua e magoada. Mas com o rolar do filme se percebe o contrário. Sua maturidade e firmeza são reveladas na sua escolha impecável das cenas, do texto, no seu conhecimento dos fatos históricos. Uma maravilha. Parabéns Petra!
    • Marco R. A.
      Chamar a Dilma de presidenta é a mesma coisa que chamar o Bolsonaro de mito. Não está linguisticamente errado, mas demonstra claramente a orientação político-partidária e séria tendência a ser seletivo quanto às verdades em que acredita.
    • Ricardo da Mata
      A maior lenda é dizer que Petra não procurou a objetividade, pois o tempo todo ela mostra as coisas como se fossem verdades. A questão é que ela não tem fundamentação política para conseguir entender o que aconteceu.
    • Jorge Luiz
      Serie verdadeira mesmo é o mecanismo pois eu tenho certeza que foi o Lula que disse ‘estancar a sangria’ da Lava Jato, num “grande acordo, com o Supremo, com tudo” isso sim que é verdade
    • Jorge Luiz
      chamaram a Dilma de presidenta por todo o mandato agora as pessoas se inflama porque o comentarista chama ela de presidenta ridiculo
    • Silvio Luiz de Carvalho Filho
      Se o filme fala de algo com um viés e distorce fatos sim se trata de uma mentira.É claro que você não vai, você acha que apresentar uma foto alterada (no filme não diz que foi alterada) é apresentar a verdade.Quer achar que foi golpe, pode achar é seu direito, todos temos o direito de estar errados e você está fazendo uso do seu.
    • Jorge Alves
      Caro Silvio, Se a pessoa apresenta uma foto alterada e diz que a foto foi alterada, então apresenta o fato sem qualquer distorção, se não dissesse, seria fake. Acredito que você esteja confundindo fatos (elementos objetivos) com a interpretação destes mesmos fatos, que entra no campo da subjetividade. A interpretação de que foi um golpe das elites para tirar o PT do poder é da autora do filme eu concordo e você não, ok. Apesar dessa interpretação pouco simpática para você, não torna o filme mentiroso. O tempo dirá quem tem razão.Deixo aberta a possibilidade de te pedir desculpas, mas não foi desta vez.
    • Silvio Luiz de Carvalho Filho
      Meu comentário com o link está pendente então segue sem o linkA Foto dos militantes mortos, na foto original há uma arma com eles, a própria petra afirmou que alterou a foto digitalmente.O Aécio no inicio do processo era contra o Impeachment, a ideia do PSDB era deixar o governo Sangrar, assim como foi no caso do mensalão.Toda a questão dos movimentos sociais que surgiram nessa época foi tratada como algorítimos das redes sociais, simplesmente apagou o fato da marcha até Brasília para protocolar o processo do impeachment,.Tenta dar a entender que a mulher do Lula morreu por conta de ter sido acusada quando o próprio lula disse sobre o Triplex e algumas assinaturas Tem que ver pois quem cuidava disso era a Dona Marisa.Ao final do documentário fala de alguns fatos que seguiram, como o Moro ter se tornado Ministro, mas não cita por exemplo a prisão do Temer.O Documentário tenta colocar tudo como um golpe e que não há democracia quando o Impeachment é um gatilho previsto na constituição, se em 92 não foi golpe por quê desta vez foi?O Documentário tenta colocar que o PT foi a vítima forçada à se corromper, quando no meio do mensalão o PT acabou com a tripartição do poder comprando o congresso para conseguir tramitar projetos.De resto, eu não acho que quem ficou no poder é honesto, tampouco o PT era.A Foto alterada você pode facilmente achar na internet.
    • Jorge Alves
      Quais são os fatos distorcidos e as fotos adulteradas? Se você apresentar, eu te peço desculpas.
    • Silvio Luiz de Carvalho Filho
      Fatos distorcidos, fotos adulteradas, tentando forçar uma narrativa que não existe.Esse documentário é uma fake news de mais de 2 horas, omitindo diversos fatos e colocando o Lula como herói e vítima, coisa que nem ele nem Dilma são.
    • Jorge Alves
      Agora, só falta você assistir.
    • Jorge Alves
      Parabéns, sinto-me orgulhoso e aliviado em ver alguém narrando a nossa história recente baseando-se em fatos. Trata-se de um documentário com imagens em tempo real, mostrando o lado oprimido, do derrotado, ou melhor, da democracia derrotada. O mal estar que senti na época estão nesse filme, pois retratou o que perdemos e para quem perdemos. Como sempre, nominar a angustia é o melhor remédio para diminuí-la.
    • Jorge Alves
      Esse teu Lixo é melhor documentário da história recente do país. Totalmente baseado em fatos e não em fake news de redes sociais.
    • Jorge Alves
      Mais um que não assistiu, fazer o quê?
    • Laércio R.
      Lixo...
    • Marcio Pereira
      O filme me trouxe uma lembrança de 2016 que se mantém ... como o país está dividido.
    • Jorge Machado
      Acho que o filme mostra muito bem a divisão de classes, aqueles senhores que sempre estiveram no poder defendo uma elite classista, além de retratar a grande influência Americana que sempre existiu na nossa vida, quando JK tentou mudar o panorama, fazendo um Governo democrático com um grande crescimento econômico e principalmente cultural, houve uma Ditadura Militar apoiada pelos EUA, o que faltou neste documentário foi retratar o desastre cultural para o povo Brasileiro deste golpe, as escolas públicas era referência antes da ditadura, e os três pilares do sistema educacional Brasileiros foram punidos, Anísio Teixeira, Paulo Freire e Darcy Ribeiro, tiveram que sair do País, Anísio Teixeira foi morto pela ditadura. O Filme retrata uma corrupção politica entranhada nos três poderes que sempre existiu, mas, coincidentemente quando Governos Democráticos tentaram Governar este País houve Golpe, mostra também a grande influência que a mídia exerce na vida dos Brasileiros, criando falsos ídolos, e a história irá mostrar que este juizeco tinha como único objetivo impedir que Lula voltasse a Governar este País.
    • BRUNO COSTA MARQUES
      A narrativa da Petra é péssima, fraca, muito minguado, o documentário camuflou muitas questões que levaram ao impeachment como se fosse apenas a mídia junto com uma parte da população que foram os responsáveis, o que não é verdade, houve erros muito graves durante a sua gestão, mas valeu assistir por causa das cenas dos bastidores,um ambiente fora do alcance da imprensa em geral num momento tão decisivo para o país.
    • Antonio Inacio
      Faltou ela citar a aproxima do PT com a Venezuela.
    Mostrar comentários
    Back to Top