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    Atlantique
    Críticas AdoroCinema
    3,0
    Legal
    Atlantique

    A febre do mar

    por Bruno Carmelo

    Os primeiros quinze minutos de Atlantique fornecem ao espectador um momento maravilhoso de cinema. Para contar a história de amor proibido entre Ada (Mame Bineta Sane) e Suleiman (Ibrahima Traoré), a diretora Mati Diop utiliza uma infinidade de recursos de linguagem que vão dos sons em off à ação fora do enquadramento, passando pelas diferentes profundidades da imagem. Ela adota uma sucessão de recursos poéticos incluindo as ondas do mar, a trilha sonora hipnótica e uma espetacular cena do garoto sentado na caçamba de um caminhão. Em poucos minutos, conhecemos muito bem a psicologia e as circunstâncias sociais de ambos através de um domínio excepcional da linguagem – vide a bela troca de olhares através das frestas do trem.

     

    Infelizmente, nada do que se segue possui a mesma força do início. A beleza ainda se encontra em momentos esporádicos, e a concisão narrativa funciona em certas passagens, porém o drama investe em caminhos tão inesperados quanto incompatíveis entre si. Fica a impressão de que algumas partes sequer foram dirigidas pela mesma pessoa. Por um lado, a incursão no cinema fantástico é bem-vinda, até porque a cineasta encontra ferramentas eficazes para representar a volta dos trabalhadores mortos no mar (sem jamais filmar o acidente em si). Diop consegue transformar a possessão dos espíritos dos rapazes no corpo meninas num momento febril, uma mistura de doença e orgasmo, convertendo as personagens em figuras perigosas e sensuais. As cenas das jovens mulheres-zumbis confrontando o empresário corrupto são particularmente notáveis.


     


    Por outro lado, o investimento no suspense policial constitui a parte mais fraca da narrativa. A história passa a dedicar tempo cada vez maior à figura do investigador novato que tenta provar seu talento ao chefe enquanto busca a origem de um incêndio criminoso. Cada vez que a câmera se afasta de Ada e privilegia o garoto, a trama se afrouxa, como se os dois conflitos caminhassem em paralelo sem se tocar – ainda que, rumo à conclusão, o filme proponha um encontro destas vertentes. No entanto, o trecho policial transparece uma ingenuidade e incoerência narrativa muito distantes da naturalidade com que a cineasta trabalha o universo jovem e feminino, por exemplo. Ela parece possuir muito mais intimidade com o retrato da vida cotidiana do que com os segmentos mais ostensivamente fictícios.

     

    Enquanto isso, o roteiro espalha uma série de inconsistências, talvez justificáveis pelo tom predominante de mistério, porém graves demais para serem ignoradas. Se a possessão inicial adquire um caráter evidentemente sexual, porque ela perde esta conotação nas manifestações seguintes? Se os espíritos masculinos tomam apenas os corpos de suas amadas, por que apenas Suleiman se materializa no corpo de um rapaz que sequer conhecia? Por que o jovem investigador é tratado como prodígio pelo chefe, se jamais demonstrou este talento anteriormente? Por que a insistência de Dior na possibilidade de uma emboscada não desperta a menor preocupação na protagonista? Atlantics elabora um universo rico e complexo em imagens, texturas e possibilidades, apenas para abandoná-las ao fio da trama.


     


    Talvez esta impressão decorra do fato que o real centro de interesse da cineasta se encontre na criação de atmosfera e no poder das sugestões. Quando precisa delinear um ambiente de tensão sexual ou violência iminente, Diop encontra ótimos recursos estéticos, sem precisar passar por diálogos nem reviravoltas explicativas. No entanto, chegada a hora de concluir os conflitos e conduzir os personagens a um rumo preciso, o projeto se perde por completo – vide a conclusão, indecisa entre a imagem metafórica do mar e a justificativa clássica via narração off. De qualquer modo, a diretora embarca numa abordagem ambiciosa, demonstrando forte potencial para seus próximos projeto.

     

    Filme visto no 72º Festival Internacional de Cinema de Cannes, em maio de 2019.

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    Comentários

    • David Kass
      Difícil concluir o que se passa na cabeça do roteirista com simples diálogos ou imagens. Existem muitas cenas que não acrescentam e nem revelam nenhum novo caminho. Sinceramente falando, alguns trechos ficaram sem explicação. A fotografia é propositalmente superexposta, criando uma textura inusitada que ao olhar leigo pode parecer de má qualidade, mas imprime uma dramaticidade maior à cena. O filme tem momentos de arte e momentos até meio perdidos, mas vale a pena conferir.
    • ivan leduc de lara
      Eu tive que ler a crítica para entender o porquê daquelas moças cegas. Também não entendi o final. Péssimo filme e crítica igualmente confusa.
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