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    Black Mirror: Bandersnatch
    Críticas AdoroCinema
    3,5
    Bom
    Black Mirror: Bandersnatch

    A técnica acima do roteiro

    por Barbara Demerov

    Que Black Mirror é uma das séries mais impactantes dos últimos tempos, isso não é nenhuma novidade. Cada episódio desta antologia conversa com diferentes aspectos da vida moderna, sempre com a tecnologia em sua essência. Quem acompanha a série sabe que há alguns episódios extremamente dramáticos e outros mais leves que podem até trazer mensagens positivas sobre amor, amizade ou autoconhecimento. Mas por que parar por aí? Criar histórias dinâmicas e variadas dentro de um só universo que tanto se relaciona com modernização e ciência, até então, era um limite já bastante impactante. Agora, não mais: para a Netflix e seu novo episódio/filme Bandersnatch, este limite acaba de ganhar uma extrema liberdade de condição.

    O serviço de streaming acaba de conquistar um espaço até hoje nunca alcançado em uma série televisiva: dar ao espectador a escolha de participar ativamente de uma narrativa e definir o destino de seu protagonista. O mistério e a promessa de uma ferramenta inovadora que conversa de modo amplo com o universo Black Mirror estão entregues, mas a questão principal é: estruturalmente, Bandersnatch é um filme liberto de amarras? Daquelas mesmas amarras que a série sempre deixa claro que existem - não importa o personagem, ano ou realidade em questão?



    Se o espectador clica para começar a ver/participar/jogar Bandersnatch, com o tempo ele verá que existe, sim, um controle de toda a situação. A tecnologia continua controlando aquele que está na frente da TV ou do tablet - mas a "distração" é que, agora, nós também podemos controlar as marionetes que estão dentro da tela. A partir da segunda ou terceira escolha do protagonista Stefan já é possível entender que há a manipulação dentro do que é o certo e o errado. O mais curioso neste filme não é nem a história em si, mas sim a falsa sensação de controle e de planejamento, pois, no fim das contas, a narrativa já está completamente programada para entregar o que quer entregar. Assustadoramente programada, por assim dizer.

    A escolha dos anos 1980 para ambientar a história (assim como o universo dos jogos, as cores e visuais da época) trazem familiaridade imediata para um mergulho no que há de mais Black Mirror, mesmo nada disso sendo inédito. O problema é que o roteiro por si só não chega nem perto da potência de certas histórias da antologia (como White Christmas, The Entire History Of You ou Hang the DJ) e é basicamente sustentado pela estrutura fragmentada e dividida em opções. Se não fosse pela inovação narrativa da Netflix, e se a história fosse contada com apenas um dos cinco finais alternativos, certamente ela não entregaria tanto impacto.



    Por possuir diversas possibilidades, Bandersnatch pode ter reações diferenciadas do público e, portanto, é um tanto quanto difícil analisar a história como um todo já que não existe nada absoluto. Após o espectador finalizar a jornada com suas primeiras escolhas é possível continuar participando da história a fim de conhecer os outros destinos de Stefan. Um deles, que envolve mais de uma morte, certamente é o que mais se encaixa no estilo Black Mirror de ser, interligando o início da história com um fim trágico, mas muito coeso com a proposta. No entanto, outros finais podem se conectar mais com a figura interna de Stefan e suas relações familiares - não com a do jogo que está criando, que é o verdadeiro foco da trama.

    Se por um lado a narrativa não é totalmente construída com base no livre-arbítrio, do outro há boas sacadas que surpreenderão o espectador pela capacidade de formar uma breve conversa com o protagonista. Dependendo da opção selecionada, nós podemos nos tornar o "amigo do futuro" que explica a um confuso Stefan o que é a Netflix - uma maneira criativa e realmente divertida de quebrar a quarta parede de uma maneira diferenciada. No fim das contas, estes detalhes (que não são necessariamente importantes para a resolução da trama) são o que há de mais inovador desta ferramenta.

    Por conta de fazer parte desta já extensa antologia, é curioso notar que Bandersnatch não possui uma história com nexo e muito menos tenta explicar o que está acontecendo a partir de algumas escolhas. Apesar de ser estranho fazer escolhas "erradas" dentro de uma proposta que teoricamente abraça a liberdade, é completamente compreensível quando analisamos pelo lado de que, na verdade, isso é exatamente o que a produção quer passar. Assim como Stefan sofre para criar rumos para seu jogo, o espectador também se sente preso e pode se ficar frustrado. Mas nenhuma das escolhas soam necessariamente desnecessárias, fazendo com que seja muito difícil deixar de observar Stefan enquanto ele busca respostas no vazio, à procura do nosso critério.
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    Comentários

    • Rayza Virginia
      Marcelo Cal acho que foi proposital, pois em uma cena com a psicologa, o Stefan diz que o jogo que ele criou não importa o que a pessoa escolha, sempre vai parar no final que ele criou. Ele disse mais ou menos assim. Nenhum detalhe é aleatorio.
    • Raaafael
      Acho que a ideia foi simplesmente de provocar uma espécie de sinestesia, entre o protagonista que sentia que estava sendo controlado, e o telespectador que também foi percebendo que só tinha a ilusão de escolha.. (Na real pra mim não ficou tão claro se isso foi realmente proposital, mas teve esse efeito)Mas concordo com o Jackson, o ponto alto do filme é a tecnologia utilizada. E a trama estava boa até a metade.. Praticamente jogaram o filme no lixo depois com aqueles finais, não por ter um final bad, mas sim pq foram muito ruins msm..Basicamente ou você interpreta que o menino tava ficando louco e não existe nada disso de Netflix nem de PACS, ou então interpreta que existe uma conspiração que está controlando cada ação dele..As duas opções achei bem bosta.. Sei lá pelo que vi até a metade já estava imaginando um final de filme bem melhor, explorando melhor a história do livro, com o menino concluindo o jogo e só depois então um final bem bad, pra honrar o nome BlackMirror.O único final que achei mais razoável foi aquele em que o Colin começa a explicar sobre a MATRIX pro Stefan, mas tbm eles tinham que pelo menos tentar lutar contra a matrix né, não acabar daquele jeito.. (O final da terapeuta tbm salvou um pouco pq foi cômico haha)Ah, e discordo completamente de que o filme tentou tratar de uma questão como o determinismo(filosofia)..Primeiro pq Black Mirror é uma série sobre tecnologia, na vdd a intenção foi simplesmente fazer uma brincadeira com isso de a gnt poder escolher o q aconteceria no filme, evidenciando q com isso nós sufocaríamos o personagem por deixa-lo sem escolhas.E segundo, porque determinismo já é uma questão complexa por si só, mesmo explicando da forma mais didática possível ainda é possível gerar dúvidas, já que é uma questão que causa estranhamento natural, como assim todas minhas escolhas já estão determinadas? Impossível. Misturar com outros conceitos não faz sentido nenhum, pois só complica o entendimento da lógica por trás da teoria determinista, distanciando ainda mais o público do entendimento da mesma.
    • salvatore_giannella
      marcelocal important
    • Marcelo Cal
      MTA gnt não entendeu as teorias abordadas pelo filme e analisaram, mtas vzs, de forma superficial...leaim sobre multiverso, determinismo, etc...
    • Marcelo Cal
      A.mensagem eh essa mesmo: teoria dos caminhos/destinos pré estabelecidos (multiverso/determinismo).
    • Marcelo Cal
      Escolhas pré estabelecidas: a ideia/mensagem eh essa mesmo.
    • Jackson Lovato
      Com certeza o ponto alto do filme é a tecnologia utilizada. Somado isso a ambientação do filme para o ano de 1984 foi uma escolha acertadíssima. A trama, do início até a sua metade, é bastante promissora, mas com o passar das cenas e suas inúmeras repetições vai ficando cansativo, pois nos transmite a falsa impressão de livre arbítrio com nossas escolhas, que na verdade são pré-estabelecidas. Mesmo assim, a Netflix surpreende positivamente pela inovação e produção...
    • disqus_KoGPsuvMZM
      alicebuskler already
    • guimaraesvitor
      Ótima crítica Barbara, muito ponderada e em sua maior parte assertiva.Acredito que, esse tipo de produção é focada em nicho, ela impactará mais algumas pessoas (em geral quem se identifica mais com cultura nerd, geek, pop, anos 80) e principalmente pelo mundo de Black Mirror. Concordo com alguns usuários, que a questão da dinâmica desse filme pode deixar a sensação de filme chato ou confuso, mas mesmo assim, se a observação for mais imparcial possível o filme é muito bom.
    • Mariana C.
      Merece um 0, que ep/filme bosta. Não deixa vc escolher o destino do personagem como nos jogos de rpg, na verdade te induz a fazer as escolhas que “eles querem” pq se vc faz a escolha “errada” a série te volta pra fazer a escolha “certa”. Livre árbitro uma ova. Ranco. Preguiça. Tédio. Raiva. Foram meus sentimentos ao tentar concluir - confesso que não consegui.
    • Nois Critica Mermo
      Não merece, não
    • Nois Critica Mermo
      Tirando a diversão e inovação com a interatividade, o que o filme tem de especial? Nada. A premissa em si em fraca e não existe uma narrativa completa pra cada história. Às vezes dá até a impressão de que a trama fica só dando voltas nas escolhas que você fez. A narrativa é tão fragmentada que torna a história esquecível. 3,5 tá de bom tamanho pela iniciativa de criar essa interatividade, mas só por isso.
    • nightwishjp
      Vendo o episódio ainda com cara de experimentação de uma nova forma de fazer série, achei totalmente aceitável tanto essa luta como outro final (não vamos dar spoilers). Lógico que tem muitas coisas a melhorar, mas eles conseguiram de vdd. Todo mundo que conheço curtiu.
    • isac queiroz
      Merece um 4 estrelas no mínimo.
    • ViniciusVSG
      (spoiler levíssimo) Eu já havia feito a maioria dos finais e estava ficando atordoado pelo clima pesado que a história havia passado. Porém, ao fazer os finais NETFLIX acabei rindo e saindo bem mais aliviado do que se o filme tivesse acabado apenas com os outros finais.Quem assistiu esses finais como primeira opção, certamente ficou chateado. No entanto, quem estava imerso no filme e em seus outros finais, acabou achando a ideia genial, pois deu uma quebrada no clima do filme e ainda, por mais non-sense que a cena parecesse, ainda tem certa ligação com a história e proposta do filme.
    • Alice Buskler
      Concordo, só achei aquele final da luta entre o Stefan e a terapeuta bem desnecessario
    • nightwishjp
      Só 3,5? Eu achei genial a forma como os múltiplos finais já se encontra preso numa amarra, e nos sentimos iguais a Stefan. Como não dar 5?
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