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    O Farol
    Críticas AdoroCinema
    5,0
    Obra-prima
    O Farol

    O inferno é uma ilha deserta

    por Bruno Carmelo

    Uma tela quadrada (ou próxima disso, em formato 1.19:1). Uma fotografia em preto e branco, extremamente contrastada, com textura antiga, suja. Personagens que caminham em silêncio e, em determinado momento, param e encaram diretamente para o espectador. O início de The Lighthouse evoca o cinema soviético do início dos anos XX e os recursos de linguagem do cinema mudo. O diretor Robert Eggers continua buscando nos símbolos do passado o material para ilustrar os medos contemporâneos. Após A Bruxa, constrói uma fábula sobre isolamento e loucura, sobre a monstruosidade real ou imaginária – sua versão pessoal de “A Volta do Parafuso”.

     

    Logo, os dois homens falam, até demais. Thomas Wake (Willem Dafoe) corresponde ao imaginário do capitão bêbado e agressivo, exceto pelo fato de que se tranca dentro do farol, à noite, completamente nu, e emite alguns gemidos de prazer. Ephraim Winslow (Robert Pattinson) é anunciado como o típico novato explorado pelo chefe, ainda que esconda alguns segredos no passado e ostente um comportamento, digamos, instável. A narrativa está repleta de sugestões de violência e erotismo – nunca sabemos ao certo se os dois homens vão se matar ou fazer sexo um com o outro. Tudo passa pelo corpo, como atesta a quantidade impressionante de brigas, bebedeiras, trabalhos forçados, urina, fezes, sangue, vômito, esperma e flatulência.

     

    A decisão de confinar a trama a dois únicos personagens poderia resultar num produto teatral e excessivamente dependente dos diálogos para se desenvolver. Felizmente, a armadilha é evitada por dois recursos: a potência estética e a subversão do realismo do texto. Eggers se mostra mais uma vez um exímio construtor de imagens, atribuindo uma função narrativa importante à natureza, que poderia ser considerada uma terceira personagem. As ondas do mar, a chuva, o vento e mesmo as gaivotas se convertem em elementos assustadores, de grande impacto visual e sonoro. Mesmo sem saber ao certo o que está acontecendo aos personagens – estariam enlouquecendo? -, compreendemos o clima de perigo iminente naquela ilha deserta. Quanto aos diálogos, cada ator recebe monólogos tão deliciosos quanto perigosos, marcados por oscilações de tom e vocabulário antiquado, condensados em tiradas longuíssimas que exigem o máximo talento de Dafoe e Pattinson.


     


    The Lighthouse se converte no huis clos a céu aberto, ou seja, um filme de clausura sobre dois homens oprimidos, impossibilitados de pegar um barco e partir da ilha. A convivência forçada entre os amigos/inimigos atinge índices cada vez maiores de intensidade, felizmente contrabalanceada por uma generosa dose de humor. O cineasta percebe que a comicidade é um elemento necessário permitir algum tipo de vazão à angústia crescente. Eggers prefere, portanto, assumir o absurdo da trama, brincando muitíssimo bem entre o que deve ser mostrado e o que pode ser sugerido ao espectador. O filme constitui um exemplo notável de manipulação consciente e dosada de luz, som, efeitos visuais e psicologia de personagens.

     

    O resultado não se contenta com a beleza estonteante das imagens nem com o refinamento da produção. Quando chega a hora de partir para o terror, Eggers oferece cenas chocantes, de uma brutalidade explícita e banalizada – mais uma vez, os animais desempenham um papel importante, como em A Bruxa. O diretor aproxima-se de Lars von Trier na estética da violência, apostando na possibilidade de ao ser mesmo tempo mais gore e mais refinado. Uma sequência de sexualidade envolvendo a figura de uma sereia revela-se particularmente perturbadora, assim como o desfecho, de uma plasticidade magistral.

     

    Enquanto no projeto anterior Eggers testava os limites da sugestão, aqui ele se diverte tanto com o imaginário sugerido quanto com a passagem ao ato. O efeito pode ser considerado pretensioso por sua grandiloquência imagética e existencialista, no entanto o filme sempre sabe quando dosar a intensidade das cenas, interrompendo uma fala complexa para incluir uma piada física. Pela presença de Robert Pattinson e Willem Dafoe, The Lighthouse deve chegar a um circuito de cinemas ainda mais amplo. Será delicioso descobrir, então, a surpresa do público médio diante de uma obra tão visceral.

     

    Filme visto no 72º Festival Internacional de Cinema de Cannes, em maio de 2019.

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    Comentários

    • Edil J.
      Gosto de cinema autoral. Gosto de cinema alternativo. Gosto de filme onde nada acontece. Não sou careta. Não gosto de filmes da Marvel. Esse pequeno perfil introdutório serve para esclarecer que, depois de meio século de vida, apurei minha sensibilidade cinematográfica. Até mesmo por tentativa e erro. No caso desse filme, foi erro. E grosseiro. Porque assistir a The Lighthouse se tornou uma das piores experiências que tive com a 7ª Arte nos últimos tempos. Em 2019, seguramente não vi nada mais enfadonho. Excessivamente hermético e pretensioso, o filme de Robert Eggers parece provocar deliberadamente a plateia a todo instante, que vive um permanente desafio entre deixar a sala de projeção no meio da película ou pagar pra ver se o filme trará na manga alguma solução magistral, que nos fará esquecer as extenuantes duas horas durante as quais pensamos em tudo aquilo que poderíamos estar fazendo na vida que acontece lá fora. A simples escolha de Dafoe parecia credenciar o filme a ser visto. Ao final da exibição você se lembra que os atores, mesmo roliudianos, também têm boletos a pagar. E por isso se submetem a papeis como esses. Sim, Dafoe, como sempre, está extraordinário, mesmo nesse filme que insiste em nos remeter a um Tennessee Williams cujo talento foi totalmente excluído. Mas todo o esforço do ator em levar a obra nas costas é em vão. Porque falta à película o estofo essencial.Pattinson também está bem. É verdade. Mas reconhecer isso não salva o filme. Sequer a construção psicológica dos personagens chega a surpreender, dado o descuido com os diálogos, exageradamente verborrágicos, que parecem descontextualizados de algum quadrinho da DC Comics.O terror psicológico experimentado em A Bruxa nem de longe alcança a plateia, que se contenta em assistir a uma versão de terror cuja estética é propositadamente explícita e visceral, tal qual os filmes pornográficos feitos na Boca do Lixo, nos anos 80.E a ausência da sutileza que transborda em A Bruxa é sofrivelmente substituída por um humor quase pastelão, em cenas, tomadas e diálogos que beiram o nonsense.Gosto é como sovaco, é verdade. Cada um com o seu. E o que fede é o do outro. Mas, no caso de The Lighthouse, o sovaco de Robert Eggers precisa ser urgentemente lavado.
    • Josefino Agripino
      Tem que ter algo (gay) pra atrapalhar...
    • Josefino Agripino
      Difícil imaginar isso com alguma moral...
    • Igor Tarcízio
      Não tenho dúvida que a grande parcela do público vai odiar. Infelizmente, muitas pessoas ainda não conseguem desconstruir a concepção do cinema mainstream com algo mais autoral. As obras do estúdio A24 são um grande exemplo disso. Amo, com toda a minha força, as obras do estúdio, mas grande parte da galera que vai ao cinema esperando algo resumido aos gêneros, esteriótipos e clichês acabam se decepcionando. Felizmente (ou infelizmente, para alguns), o cinema não se resume a isso.
    • André Otoni
      Sem dúvida será uma obra-prima do gênero.
    • Duh
      Preciso assistir.
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