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    O Menino que Descobriu o Vento
    Críticas AdoroCinema
    3,0
    Legal
    O Menino que Descobriu o Vento

    A educação salvará o mundo

    por Bruno Carmelo

    Existe algo fundamentalmente contraditório no costume de identificar casos excepcionais dentro da sociedade e utilizá-los como modelos que qualquer um poderia seguir. William Kamkwamba (Maxwell Simba) foi um garoto inteligentíssimo, autodidata, que descobriu um método de criar energia eólica no meio das terras secas do Malawi, de modo a garantir a irrigação das colheitas e a sobrevivência de uma população faminta. O diretor Chiwetel Ejiofor faz deste caso real um exemplo sobre a importância dos estudos, da ecologia, de políticas humanitárias e do senso de comunidade.


    Em outras palavras, o garoto é instrumentalizado para caber dentro do formato narrativo e moral de uma fábula. Ele jamais representa a si mesmo, e sim algo muito maior: a importância das escolas, da união, da luta contra as opressões, do respeito ao próximo etc. Por esta razão, a história se transforma num grande tratado de valores morais que o diretor acredita serem necessários a todas as pessoas. “Nós temos que garantir que as pessoas saibam o que está acontecendo aqui”, afirma a certa altura Trywell Kamkwamba (Ejiofor), claro alter-ego do cineasta. O artista também acredita na necessidade da informação, tratando de explicar, aos olhos europeus e americanos, as consequências da miséria e da corrupção nos países africanos.


     


    The Boy Who Harnessed the Wind funciona igualmente como cautionary tale, ou seja, uma fábula de precaução para avisar ao espectador o que acontecerá caso não coloquemos em prática os valores enunciados acima. Os símbolos são claros: o céu preto indica a chegada da chuva, mas também a tragédia na vida da família; enquanto o sol é apresentado numa fusão com os olhos do garoto, afinal, ele representa a esperança para o futuro. Não por acaso, “Vá para a escola” é uma das últimas frases pronunciadas no filme, enquanto uma prece religiosa é interrompida pela garota que prefere acreditar nos conhecimentos científicos do irmão do que esperar pelo atendimento divino.

     

    Isso não impede que o drama carregue o olhar salvacionista que tanto incomoda em produções sobre catástrofes africanas. Assim como Hotel Ruanda e Rainha de Katwe, temos uma narrativa que observa os personagens com carinho misturado a paternalismo. A descoberta do método de irrigação é mérito do garoto, mas os letreiros finais tratam de avisar que ele saiu do país e foi completar a sua educação nos Estados Unidos, como pareceria lógico ao pensamento europeu/americano. Mesmo assim, o resultado é uma produção polida, com fotografia bem adequada à iluminação das peles negras – elemento ainda em falta na maioria dos blockbusters -, bom trabalho de direção de arte e preparação muito satisfatória do elenco.

     

    Ejiofor ainda encontra espaço para destacar o folclore, as diferentes línguas do país e os costumes típicos, enquanto retrata a si mesmo como a geração bondosa, porém tolhida pela dificuldade de acesso à informação. Este é claramente um filme político, ainda que a política seja compreendida menos como um conjunto de práticas sociais – a subtrama do governador corrupto fica em segundo plano – do que uma medida de esforço individual. Ainda se acredita que, mediante o esforço necessário, qualquer um possa se tornar um engenheiro promissor como o personagem principal. Ingênuo ou não, este raciocínio é apresentado com uma paixão e uma honestidade inegáveis: o diretor impregna cada cena de humanismo e empatia, além de ressaltar a importância das mulheres dentro das transformações sociais.


     


    The Boy Who Harnessed the Wind e tantas outras produções semelhantes podem ajudar a pensar sobre o cinema como veículo de ensinamento. A questão é menos óbvia do que parece: a arte tem como vocação ensinar as pessoas? Transmitir valores, ensinamentos? A arte pode ser um objeto utilitário? Ou sua função estaria no despertar de sentidos, sentimentos, capazes de facilitar/induzir o aprendizado? Ejiofor acredita numa transmissão direta, simples, com seu interlocutor: ele lhe diz, com clareza, o que está acontecendo no Malawi, o que faltaria ao país e como consegui-lo.

     

    Em outras palavras, oferece o problema e a solução, como um professor generoso. Ao espectador não cabe fazer muito esforço: o filme o envolve, o faz rir e chorar, entregando as informações e a recompensa prometida. No entanto, manter o espectador em posição de passividade pode ser uma estratégia contraprodutiva quando se espera um aprendizado, algo que exige, por definição, uma postura ativa. É possível que o projeto, com suas belas imagens e boas intenções, funcione melhor como veículo de sensibilização do que de reflexão.

     

    Filme visto no 69º Festival Internacional de Cinema de Berlim, em fevereiro de 2019.

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