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    Histórias de Amor que Não Pertencem a Este Mundo
    Críticas AdoroCinema
    3,0
    Legal
    Histórias de Amor que Não Pertencem a Este Mundo

    Histeria

    por Taiani Mendes

    A abertura de Histórias de Amor que Não Pertencem a este Mundo é assustadora. Claudia (Lucia Mascino) desperta lenta e tranquila, até que de repente se dá conta de algo indedutível por parte do espectador e entra em desespero. A razão era o celular. Sua aflição ecoa no público conforme a apresentação da personagem vai sendo feita. Trata-se de uma apaixonada cujo relacionamento de anos acabou contra a sua vontade. Obcecada, gasta todos os créditos telefônicos enchendo a caixa de mensagens do ex, buscando convencê-lo de qualquer maneira a reatar.


    Lá vem mais uma vez a mulher surtada pelo abandono e o humor proveniente do sofrimento desmedido e atitudes baratinadas, mas a surpresa é que a diretora e roteirista Francesca Comencini parte da exploração de questionáveis clichês de gênero para abalar a masculinidade. Com título irônico, armadilha que atrai românticos, o filme é um divertido jab no chauvinismo masculino, vocação que, no entanto, é desvelada bem lentamente.

    Narradora extremamente autoconsciente, a professora Claudia deixa claro que não é insana e “capaz de lembrar de tudo” revive os principais momentos do intenso relacionamento com o comedido Flavio (Thomas Trabacchi), nascido num desacordo intelectual. Tem início o primeiro round da guerra dos sexos, que, assim como no recente longa-metragem sobre Billie Jean King, é também uma jornada de autoafirmação e perda de medos. O percurso passa pelas sensações ligadas ao hormônio ocitocina, ultracitado pela protagonista: empatia, apego, prazer do orgasmo e pavor.


    Opostos na forma de lidar com o término, Claudia e Flavio, ambos na meia-idade, são iguais no movimento seguinte, a renovação bebendo na fonte da juventude. Porém, enquanto ele descobre no mais óbvio sintoma da famosa crise etária inéditas inseguranças, ela ganha força inesperada. O que não vivenciaram juntos eles experimentam com suas novas amantes: ele o compromisso, ela o empoderamento.

    Apesar de não ser exatamente vilanizado, Flavio precisa se dar mal para que a volta por cima de Claudia se dê por completo, ideia que pode estar fora de moda, mas serve ao propósito da comédia dramática de instrução feminista - feminismo este da corrente mais clássica, baseado em debates acadêmicos e no lesbianismo. O “despertar” da conservadora personagem principal é gradual na narrativa, mas a diretora faz questão de não deixar dúvidas através de uma aula sobre heterocapitalismo e a desvalorização das mulheres maduras. Comencini pontua o filme inteiro com imagens de arquivo, mas esse momento didático, em preto e branco, é a única intervenção que de fato se encaixa perfeitamente.


    No embate entre paixão e virilidade quem se destaca é a atriz Lucia Mascino, que se equilibra na corda bamba para evitar que o comportamento da protagonista afaste o interesse do público. Não se trata de tarefa fácil, pois durante muito tempo ela é narcisista, insuportável e inclusive tóxica, conforme acusa o ex. É até possível sentir pena dele, que está longe de ser um companheiro exemplar e mesmo sendo figura fundamental é um pouco negligenciado pela trama. São pessoas complexas em relacionamento complexo e a inevitável conclusão de que amor eterno não existe, principalmente sob o império do patriarcado. Há sim, e deve ser valorizado, o amor próprio, cuja busca é apresentada com louvável sagacidade feminina na segunda metade de Histórias de Amor que Não Pertencem a este Mundo. O gozo é livre.

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