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Paris 8
Críticas AdoroCinema
2,0
Fraco
Paris 8

Um filme muito francês

por
Jean-Paul Civeyrac parece tão incomodado com a industrialização do cinema francês quanto Eugène Green. Mas, enquanto o cineasta veterano de O Filho de Joseph articula referências musicais, literárias, clássicas de modo fluido e descontraído em sua obra, Civeyrac demonstra essa inquietação em seu novo filme, Paris 8, de maneira forçosa, pedante e muito enfadonha. Muito!

Os procedimentos de Jean-Paul Civeyrac são nada sutis. Seu protagonista, Étienne é um jovem apaixonado por Filosofia que deixa a vida, a família e a namorada em Lyon para estudar cinema em Paris. E discutir cinema em Paris. "Estou cheio de filmes franceses chorosos. Eu quero ver filmes que falem sobre a vida real", prega Civeyrac via personagem. Com a delicadeza de um elefante. E se contradizendo em todos os momentos de Paris 8 — representante legítimo desse clichê de filme francês.



Diante disso, é fácil questionar se a intenção do diretor e roteirista não seja ironizar essa noção, o parisiense e a si mesmo no processo. Seja pela autoconsciência de Paris 8, seja pelo fetichismo despudorado do filme: fotografia em preto e branco, enquadramentos impecáveis, um elenco lindo, jovens que fumam, transam e esbanjam inteligência a todo momento, discutindo alta cultura e fazendo reflexões existencialistas nos bate-papos mais cotidianos.

A tal vida real de Paris 8 é, portanto, uma ficção de Philippe Garrel. Menos provocante e inteligente, com um ar pretensioso que afunda o longa-metragem na autoindulgência. Tudo porque a obra de Jean-Paul Civeyrac se leva a sério. Assim desperdiçando o potencial satírico de sua estrutura excessivamente afetada. A atuação moribunda de Andranic Manet, por exemplo, serviria perfeitamente a uma releitura cômica, sem qualquer mudança de tom e personalidade.



Em essência, o drama que percorre Paris 8 é amplo: os questionamentos de Étienne sobre o seu futuro como realizador autoral e as distrações da juventude que atrapalham sua busca por um objetivo são aplicáveis a outros contextos e perfeitamente atuais. Porém, sua narrativa episódica, subdividida em capítulos e com direito a fade out ao fim de cada sequência, soa tão anacrônica e dificultosa para o grande público quanto seus longos 137 minutos.

Assim, em forma e conteúdo, Mes Provinciales (no original) habita uma bolha com parca relação com a realidade — mas profunda identificação com um conceito antiquado de cinema francês de que si mesmo promete, sem sucesso, escapar.
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