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    Espírito Jovem
    Críticas AdoroCinema
    2,5
    Regular
    Espírito Jovem

    O discurso ambíguo da fama

    por Bruno Carmelo

    Este drama musical ameaça enveredar por uma trajetória explorada à exaustão no cinema americano: uma pessoa comum, que passa despercebida no meio onde vive, descobre um talento excepcional para a música. A personagem vive uma ascensão meteórica, mas corre o risco de se perder no mundo de glamour e falsas amizades. Normalmente, esta personagem infeliz trabalha como garçonete, profissão que tem representado o ápice da frustração pessoal. Este também é o caso de Violet (Elle Fanning), garota que, além de trabalhar como garçonete, carrega o estigma de ser órfã, filha de imigrantes, pouco popular na escola e originária do campo em meio a um grupo de jovens da cidade.

     

    Tudo isso muda, é claro, quando um concurso intitulado Teen Spirit passa pela cidadezinha onde ela vive. A partir deste ponto, a narrativa segue a previsível combinação de sucesso profissional e perda de identidade. O diretor Max Minghella até tenta trazer algum frescor ao subgênero “Nasce uma Estrela”, primeiro ao priorizar o período pré-fama em relação ao mundo das celebridades. O terço inicial, mais sóbrio, representa a melhor parte da narrativa, por se concentrar na psicologia de Violet e na tentativa de combinar sua paixão pela música pop com a obrigação formatada pela mãe, que prefere vê-la num coral de igreja.


     


    Fanning, atriz cada vez mais acostumada às figuras de adolescentes problemáticas (Demônio de Neon, Mulheres do Século 20, O Estranho que Nós Amamos) desta vez limita a expressividade e contenta-se em ser um corpo em deslocamento, uma figura em torno da qual tudo acontece, mas que não controla ação alguma. A cada vez que pisa num palco, ela parece pronta a desistir, até abrir a boca e se soltar como uma brilhante cantora. O cineasta gosta de ressaltar estes extremos – a timidez da “vida real”, a expressividade das apresentações – de modo a tornar a transformação ainda mais forte aos olhos do espectador. De fato, Violet não parece a mesma pessoa quando canta.

     

    Infelizmente, o roteiro não demonstra a mesma preocupação com os demais personagens. Exceto pela cantora e pelo mentor Vlad (Zlatko Buric), uma extensa galeria de coadjuvantes é reduzida a caricaturas um tanto grosseiras (vide os demais competidores e a produtora musical interpretada por Rebecca Hall), ou é simplesmente ignorada pelo roteiro (o amigo/interesse amoroso Luke, em particular). O cineasta tem a mão pesada para a caracterização deste mundo do espetáculo, tornando a crítica tão explícita quanto literal – isso dentro de um drama sem qualquer espaço para a leveza. Não demora para o terço final recorrer a soluções fáceis e catarses aceleradas, de natureza novelesca.

     

    Talvez a maior preocupação de Minghella se encontre na construção das imagens ao invés dos personagens. Espírito Jovem busca ser um filme “sensorial”, o que implica no uso abusivo de flares, luzes neon, câmeras lentas, flashes velozes do passado e, principalmente, muita música. Por mais que se espere de um filme sobre uma jovem cantora uma presença expressiva de canções, Minghella vai além, embutindo dezenas de canções pop a cada cinco minutos, inclusive sobrepostas a outras canções. A sequência da primeira bateria de testes constitui um hino à saturação, por combinar a rápida montagem elíptica com as apresentações dos participantes e uma trilha sonora extra-diegética sobreposta às vozes dos atores e atrizes. Curiosamente, este filme sobre a voz, no sentido literal e figurativo, preocupa-se muito pouco com o canto em si.


     


    O mesmo pode ser dito do retrato vacilante sobre a juventude. O drama tem pouco a dizer sobre a situação média do adolescente britânico (a falta de perspectivas, a sensação de abandono em meio à sociedade) e ainda menos sobre a situação excepcional da fama. O discurso sobre a sedução dos holofotes soa inverossímil porque trata de reproduzir, através da estética lânguida e multicolorida, a mesma artificialidade que pretende atacar. A apresentação de Violet ao som de “Don’t Kill My Vibe”, durante o clímax, representa ao mesmo tempo o cúmulo da estética de videoclipe e o ponto que deveria representar uma ruptura na carreira da garota. Afinal, a busca pelo estrelato constitui um perigo ou uma boa oportunidade de descobrir talentos? Os programas kitsch como Teen Spirit são nocivos à saúde mental dos jovens, ou uma oportunidade de ouro?

     

    Tentando se esquivar de soluções fáceis, o drama defende estes dois caminhos contraditórios, alternadamente, sem se resolver ao final. Não por acaso, a conclusão constitui um não-fim, uma ruptura abrupta da narrativa. Por mais louvável que seja deixar ao espectador tirar suas próprias conclusões, o filme também carrega a responsabilidade de precisar seu ponto de vista, sobretudo após navegar por uma ascensão marcada por vilões manipuladores e mentores gentis, garotos sedutores e inocentes companheiros de banda. O filme é interrompido na hora exata em que prometia concluir, enfim, sua tese.

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