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    Simonal
    Críticas AdoroCinema
    2,0
    Fraco
    Simonal

    A sorte então mudou

    por Taiani Mendes

    Wilson Simonal, nascido no Rio de Janeiro em 1938, foi um famoso cantor condenado ao ostracismo após ser apontado como delator no período da ditadura militar. O documentário Simonal - Ninguém Sabe o Duro que Dei iniciou em 2009 um movimento de revisionismo histórico que fez suas músicas tornarem-se acessíveis às novas gerações, e agora este longa-metragem ficcional surge ansiando sepultar de vez a alcunha de dedo duro que há décadas acompanha o falecido músico.


    Milionário, idolatrado, inconfundível, talentoso em diferentes gêneros, estrela da TV, empresário e cheio de sucessos, Simonal foi um caso único, tanto por ter atingido patamar que nenhum artista negro havia alcançado até então no Brasil, quanto pela derrocada incomparável que veio na sequência. O filme do estreante Leonardo Domingues, no entanto, não sabe aproveitar as especificidades do astro da pilantragem, assemelhando-se a obras recentes como ElisTim Maia - tecnicamente corretas e capazes de evocar a nostalgia a partir de canções e histórias famosas, mas sem a personalidade marcante do artista impregnada em sua forma e conteúdo. Mais grave do que isso, a cinebiografia soa incompleta na abordagem do processo de “queimação” de Simonal (vivido por Fabrício Boliveira), ignorando a polarização esquerda-direita que o atacou duplamente e minimizando o contexto da ditadura militar a um agente do DOPS (Caco Ciocler) e uma cartela na abertura do longa.


    O racismo, certamente determinante no que ocorreu, se faz presente de maneira contundente nas palavras do personagem e no relacionamento com o agente que o interroga por causa de uma homenagem a Martin Luther King, o que parece pouco considerando o tamanho de Simonal em seu auge, a época, os lugares por onde circulava e o notório preconceito racial brasileiro. A predileção por mulheres brancas e o relacionamento com Tereza (Ísis Valverde), por exemplo, estranhamente não geram nenhuma reação nesse sentido.


    Experiente montador, Leonardo começa o filme em 1975, com o cantor já em maus bocados, e volta 15 anos para explicar o que aconteceu. Não há infância, não há velhice. O foco é na ascensão e queda; na conquista e perda do público, tratado sempre como massa; no início e no fim do caso de amor com a população brasileira. Dois elaborados planos-sequência opõem esses dois momentos: um na abertura e um que demonstra como o artista tinha total domínio sobre os fãs e sua arte, dando um pulinho do lado de fora do teatro no meio de uma apresentação.


    Esbanjando malemolência, Boliveira o compõe como um malandro consciente de seu enorme potencial, que sente prazer em quebrar regras. É convencido, mas de forma charmosa na maior parte do tempo, além de explosivo, inconsequente e um pouco ignorante, o que reforça sua posição de vítima. No entanto, é um tanto incompreensível esse homem que diz fazer música, não política, e dedica canção a MLK na TV, afirma que passeata é coisa de menino rico e guarda vários carros de luxo na garagem, tem o país nas mãos e se rebaixa voluntariamente ao DOPS. Nasce a expectativa de que um aprofundamento psicológico sobre o artista acontecerá na parte trágica do filme, dedicada à decadência, porém isso não acontece. Os bons momentos são uma disparada de hits, os maus são uma breve série de lamúrias e destratos, e o golpe nunca chega a ser sentido em sua verdadeira potência, pois o filme privilegia o monótono jogo de empurra e disse me disse das declarações de Simonal à polícia, ante o sofrimento que jamais o deixou até o fim da vida.


    Ainda que tenha o envolvimento dos filhos do artista, o filme não busca transformá-lo em santo, apenas apagar a história de delator, cuja responsabilidade é colocada nas canetas dos jornalistas d'O Pasquim. Sempre com a face metade à luz, metade à sombra, equilíbrio que vai se modificando conforme os eventos vão se sucedendo, Simonal tem uma companheira, Tereza, com quem vive relacionamento que começa fofo e logo se deteriora. Principal personagem feminina da trama, ela perde todo o discurso individual ao se casar, ficando restrita ao papel de esposa consumista e viciada em remédios, cuja voz existe apenas para apoiar o marido ou brigar com ele - há violência doméstica e também a clássica quebra de violão, vingança favorita das mulheres de músicos.


    Os números musicais usam gravações em áudio do próprio Simonal, e Leonardo opta por mostrar imagens do cantor em shows e na televisão, o que é complicado por ressaltar o quanto Fabricio e Wilson não são parecidos fisicamente e por, de certa forma, entrar em conflito com o trabalho da direção de arte de recriar capas de discos com Boliveira no lugar de Simonal. Poderia ser uma troca complementar, porém resulta só esquisita, principalmente na grande cena do show no Maracanãzinho.


    Repleto de cores, movimento, telas, figurinos caprichados, iluminação cênica e eventualmente até frenético, Simonal tem surpreendente participação de Leandro Hassum como Carlos Imperial e certamente servirá como início de uma nova onda de valorização do cantor de "Sá Marina". Apesar de oferecer uma justificativa para seu isolamento e condenação, e buscar ilustrar como de fato se deu o controverso contato com os militares, o filme peca no mais básico: Quem era o homem Wilson? O que sentia?
    Caso, assim como ele, você não ligue para as letras das músicas - aqui o roteiro, como equivalente -, se importando só com o balanço poderá encontrar satisfação.


    Filme visto no 46º Festival de Gramado, em agosto de 2018.

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