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    Black '47
    Críticas AdoroCinema
    1,5
    Ruim
    Black '47

    O super-herói irlandês

    por Bruno Carmelo

    A princípio, esta coprodução entre Irlanda e Luxemburgo seria caracterizada como um filme histórico comum, protagonizado por um soldado (James Frecheville) em busca de justiça quando descobre que a sua família foi vítima da Grande Fome de 1847. Na prática, o espetáculo esperado do gênero histórico – grandes batalhas, imagens em proporções épicas, opulência de cenários e figurinos – é abandonada: os personagens apenas contam ao soldado recém-chegado tudo o que aconteceu em sua ausência. Talvez por restrições orçamentárias, a motivação para a vingança parte de frases soltas ouvidas por terceiros. “A sua mãe morreu”, “o seu irmão foi preso”. Não sobra uma única lembrança, um único objeto para atestar a veracidade destes fatos.


    Na falta da grandiloquência da guerra, ganhamos um protagonista com ares de super-herói. O soldado Martin Feeney não voa nem invoca poderes da natureza, mas possui algumas qualidades sobrenaturais: ele escapa de quatro homens armados enquanto tem as mãos algemadas, combate exércitos bem treinados tendo apenas um facão, sofre tiros no ombro sem dor, aparece em todos os lugares como um deus onipresente e manifesta ares de invisibilidade por transitar em minúsculos vilarejos matando todas as figuras de poder – homens com expressões vilânicas, como nas histórias em quadrinhos – mas ainda consegue se esconder.


     


    Não existe realismo nesta premissa: o diretor Lance Daly investe na glorificação de seu país através do revanchismo utópico, deixando o protagonista livre para praticar a carnificina desejada, sem maiores impedimentos. O prazer da matança inconsequente aproxima o filme das produções de terror, também conhecidas pela facilidade com que os corpos são enviados ao matadouro. A trilha sonora soturna e a atuação de alguns nomes do elenco – Hugo Weaving, especialmente – remetem às produções com casas abandonadas e pessoas possuídas. Para representar o bem, o cineasta apela para criancinhas indefesas e com fome, para ilustrar o mal, coloca homens bem alimentados, em roupas impecáveis e sorrisos sarcásticos.

     

    O problema deste maniqueísmo é o fato de retratar um episódio real e traumático do século XIX. O cinema tem o direito de tomar liberdades em relação aos fatos, porém, ao mesmo tempo, possui a responsabilidade definir o seu discurso e se assumir como puramente fictício caso reescreva passagens reais – como fez Quentin Tarantino em Bastardos Inglórios, por exemplo. Ora, em Black 47, a câmera tremida na mão, as cores frias da fotografia e a indicação de datas precisas sugerem uma proximidade com os fatos. Neste sentido, o espectador é obrigado a fazer grande esforço de suspensão da descrença para acatar que a praga das batatas e o justiceiro insuperável existem num mesmo universo.


     


    O projeto tem as suas qualidades, que merecem ser mencionadas. Dermot CrowleyStephen Rea possuem participações curtas, porém muito eficazes e verossímeis. A decisão de manter o dialeto dos irlandeses locais nos diálogos se revela louvável pela vontade de honrar a cultura daquele povo. Esta homenagem rende um fraco filme histórico, porém uma carta de amor sincera. Pelo menos, os responsáveis nunca escondem a sua parcialidade.

     

    Filme visto no 68º Festival Internacional de Cinema de Berlim, em fevereiro de 2018.

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