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Lino - Uma Aventura de Sete Vidas
Críticas AdoroCinema
3,0
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Lino - Uma Aventura de Sete Vidas

A transformação de um azarado

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Lino é um azarado. Se fosse personagem de um desenho dos anos 1980, ele teria uma pequena nuvem sobre sua cabeça, chovendo apenas nele. Como faz parte do século XXI, Lino não tem amigos, acumula dívidas e efetua um trabalho ingrato: ele anima festas infantis, sofrendo maus-tratos das crianças hiperativas e recebendo um salário insuficiente. Até o dia em que uma magia errada prende o rapaz à fantasia de gato usada nas festas.


Lino - Uma Aventura de Sete Vidas - FotoEsta animação brasileira parte de dois pontos interessantes: o primeiro deles é o hibridismo de Lino. A partir da transformação, o protagonista não é nem humano, nem animal, adquirindo um status inédito aos olhos do público e também dos demais personagens. Neste sentido, os súbitos “miaus” na voz de Selton Mello, misturados ao registro oral, funcionam muito bem. Temos uma premissa criativa, algo louvável dentro de um gênero tão engessado quanto a animação infantil. Segundo, o ponto de partida é evidentemente social: o problema de Lino não diz respeito à família, ao amor nem aos valores de amizade, e sim às condições básicas de vida. A trama parte de uma realidade raramente transposta ao colorido mundo infantil.

 

Felizmente, a qualidade da animação é digna de aplausos. Dispondo de recursos muito mais limitados do que as produções americanas do gênero, o exemplar brasileiro tem personagens expressivos, cenas dinâmicas e bem dirigidas, com escolhas de enquadramento inteligentes por parte do diretor Rafael Ribas. A improvável competição de dança com um cacique e uma perseguição policial nas montanhas são filmadas com a dinâmica surrealista que só a animação poderia permitir. Os personagens tampouco são idealizados: mesmo os vilões e tipos mais amargos da história (Victor, Henry Topper) se inserem numa lógica social precisa, ao invés de serem pessoas “naturalmente más”.

 

No entanto, o resultado é prejudicado por certas escolhas do roteiro. A Pestinha, bebê que acompanha o protagonista, não possui função narrativa, servindo apenas para aumentar o teor de sacarina do filme e replicar uma dinâmica semelhante demais à de Monstros S.A. ou mesmo Meu Malvado Favorito. Em muitas cenas, a garota se limita a rir pacificamente no fundo do quadro, ou dormir sobre uma pedra quando o texto não sabe o que fazer com ela. Os estereótipos americanos também incomodam: mesmo que tenham feições brasileiras, os policiais americanizados, com suas repetidas piadas de flatulência, representam as cenas menos interessantes do conjunto.

 

Atenção: spoilers a seguir!

 

Lino - Uma Aventura de Sete Vidas - FotoNo entanto, o aspecto mais questionável diz respeito à visão social que o filme apresenta rumo à conclusão. Partindo de uma ousada situação de crise na vida de Lino, sugere-se que basta enxergar as coisas por um novo ângulo para tudo melhorar. Ou seja: basta ter força de vontade, algo que depõe contra a própria construção do personagem, que de fato tentava bastante no início da narrativa, mas não conseguia melhorar de vida por falta de oportunidades. O social torna-se motivacional, o problema sociológico se transforma em meritocrático.

 

A solução é bastante ingênua: a ideia do rapaz azarado era então passar de empregado a empregador? Basta transformá-lo em empresário, “pai de família”, com a esposa rebaixada a assistente e uma filha para cuidar, que subitamente o detestado ramo de trabalho se torna recompensador? Esta virada soa ainda mais mágica que as trapalhadas de Don Leon. Obviamente, não podemos discutir uma complexa situação social com as crianças como faríamos com adultos. Mas também não é vendendo um mundo cor-de-rosa que se dialoga da melhor maneira com as novas gerações.

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