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    Château - Paris
    Críticas AdoroCinema
    2,5
    Regular
    Château - Paris

    Vida de malandro

    por Bruno Carmelo

    A palavra “château”, em francês, significa castelo. Tanto o título original quanto o brasileiro parecem indicar uma incursão na vida de luxo da nobreza francesa, mas o que vemos nesta comédia é exatamente o oposto. Isso porque “Chateau d’Eau” se traduz como o menos glamouroso termo “caixa d’água”, além de ser um dos bairros populares de Paris, nos quais vivem milhares de estrangeiros e franceses de origem africana, árabe ou asiática. A história se desenvolve exclusivamente nestas ruas, onde homens abordam as mulheres assim que saem do metrô, tentando atrai-las para as dezenas de salões de cabeleireiro ao redor.


    O personagem principal também brinca com a ambiguidade de château ao se apresentar. Ele é Charles (Jacky Ido), “como o príncipe”, afirma. O filme dirigido por Modi BarryCédric Ido se articula essencialmente no contraste entre luxo e precariedade, riqueza e pobreza. Os protagonistas são pessoas com dificuldade financeira, vivendo de pequenos trabalhos informais e muitas vezes ilegais. Mesmo assim, o emprego exige beleza, um porte admirável, roupas novas, cabelos bem cuidados. As mulheres brancas que entram nos salões de cabeleireiro especializados em corte afro sonham em ter cabelos indianos, enquanto são atendidas por manicures chinesas. Estamos num microcosmo à parte, onde línguas, costumes e sotaques se misturam.




    Os diretores privilegiam uma abordagem naturalista, mergulhando o espectador no barulho das ruas. A trama se passa quase inteiramente de dia, em espaços abertos, com a câmera seguindo Charles, o pouco confiável Moussa (Jean-Baptiste Anoumon) ou a cabeleireira Djenaba (Félicité Wouassi) de um lado para o outro, caçando clientes, pegando dinheiro, bolando planos para vencer a gangue rival que disputa o mesmo espaço. Cadenciada pela trilha slow jazz, que valoriza os ritmos e a transição entre espaços, a movimentação nunca para, embora a ação seja fundamentalmente a mesma: encontrar trabalho. Os personagens de Chateau - Paris têm grandes planos para um futuro distante, mas na falta de perspectivas concretas de realizá-los, vivem as dificuldades de cada dia sem planejar o amanhã.


    Curiosamente, os autores limitam seus personagens à esfera profissional. Jamais conhecemos suas famílias, seus amores, sua relação com a religião, o governo, a escola. As instituições estão convenientemente ausentes desta micro sociedade que se regula sozinha. Se por um lado esta escolha evita o drama excessivo - nada de imigrantes procurados pela polícia aqui - por outro lado, evita que qualquer um deles se aprofunde. Mesmo com atores muito bons nos papéis principais (Félicité Wouassi em especial) o filme restringe as pessoas a tipos: o líder da gangue, a empresária ambiciosa, o malandro enrolado, o homem branco que aprendeu a ganhar dinheiro com o trabalho dos negros.




    É importante sublinhar a raridade desta comédia dirigida por negros, tendo quase exclusivamente negros nos papéis principais. No entanto, o retrato da informalidade revela-se perigosamente condescendente. Ao trabalhar com estereótipos, Barry e Ido terminam por sugerir que todas essas pessoas são malandras, enroladas, propensas a roubar, aplicar golpes ou criar brigas na rua. O fervor da vida popular e o caos alegre dos bairros mais pobres são transformados em um elogio fetichista da pobreza, da precariedade das relações.


    Sem dúvida, os personagens aplicam seus golpes por necessidade de sobrevivência, mas o filme jamais sugere que tenham capacidade ou perspectiva de fazer qualquer outra coisa - vide os rumos dados ao sonhado salão de Charles, aos negócios de Sonia ou às tranças de Djenaba. De certo modo, a narrativa afirma, com suas boas piadas e tom alegre, que aquelas pessoas nasceram naquele meio e morrerão ali. A malandragem funciona de modo cíclico, com um malandro trapaceando o outro, até que todos sejam afetados e voltem ao lugar de origem. Pode-se questionar esta proposição articulada sem um posicionamento político, sem interrogar as causas ou consequências sociais de tal funcionamento.

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