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    Bacurau
    Críticas AdoroCinema
    3,5
    Bom
    Bacurau

    A colônia se rebela

    por Bruno Carmelo

    Como é estranho o filme proposto por Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles! Talvez descrever uma produção como “estranha” soe um tanto superficial, mas o adjetivo se encaixa ao projeto no sentido mais estrito do termo: Bacurau está o tempo todo se transformando, apontando novos caminhos, rompendo com expectativas e ressignificando as imagens mostradas anteriormente. Ao espectador, cabe acompanhar a narrativa como quem tateia um caminho às escuras: aos poucos, sem certezas, aberto às inevitáveis surpresas que virão. Esta não é uma dessas produções que busca agradar o espectador a todo custo: ela se move por um caminho peculiar, ciente de sua heterogeneidade, deixando ao público a tarefa de acatar, ou não, as subversões propostas.

     

    Tendo isso em mente, vale dizer que este texto busca preservar as diversas surpresas da trama. Mesmo assim, alguns elementos podem ser adiantados: primeiro, não existe um protagonista único – a não ser que a cidade inteira seja encaixada nesta categoria. Cerca de vinte personagens tomam a cena, desempenhando papéis muito específicos, apenas para ceder espaço a outros na cena seguinte. Talvez se termine a sessão sem lembrar o nome da maioria destes habitantes, mas pouco importa: o essencial se encontra na função que ocupam. Por isso, a identificação do espectador se dará menos com a jornada de um herói do que com uma situação sociopolítica precisa.


     


    Além disso, Bacurau demora bastante a esclarecer seus conflitos principais. Nos trabalhos anteriores como diretor, Kleber Mendonça Filho propunha narrativas segmentadas em três partes. Desta vez, embora não haja divisão formal com letreiros em tela, ainda se constata uma divisão muito precisa em três atos. O primeiro deles corresponde ao realismo social, onde os diversos moradores de Bacurau são apresentados ao público. Conhecemos o professor, a médica, a prostituta, o guerrilheiro, o político corrupto. Este segmento se desenvolve em ritmo contemplativo, mais próximo ao psicologismo dos romances literários do que à média dos roteiros cinematográficos.

     

    Em paralelo, a estética foge ao que seria considerado “polido” para uma grande obra do circuito de festivais: a imagem é saturada demais, contrastada em excesso, enquanto a fotografia permite cenas superexpostas do sertão nordestino e a montagem aposta em recursos de transição incomuns, para não dizer anacrônicos. O espectador pode levar cerca de uma hora se questionando onde de fato a trama pretende chegar, até que o roteiro comece a fornecer suas primeiras resoluções e completar a leitura dos estranhos símbolos propostos. Em outras palavras, os diretores não facilitam a vida do espectador médio, propondo uma longa introdução hermética antes de mergulhar nos prazeres das produções B.

     

    Assim, o segundo ato se consagra a um estilo de cinema bastante americano. A narrativa muda por completo – não apenas a língua majoritária, mas também o ritmo, o estilo de atuações e a relação com o humor. Se na primeira parte a comicidade provinha de uma relação orgânica com regionalismos e sugestões de suspense, nesta parte o espectador pode se julgar dentro de uma produção trash norte-americana, com atuações exageradas, planos maquiavélicos e soluções gratuitas. Estas escolhas podem ser interpretadas como uma bela paródia do cinema de gênero, ou então como uma condução artificial por parte dos diretores, dependendo do grau de consciência e controle que se atribua à dupla.


     


    Bacurau chega, enfim, ao seu terceiro e melhor ato. O filme se transforma novamente, para não apenas unir as duas esferas em termos de estilo (cinema naturalista e cinema de gênero) mas também em formas de discurso. Temos então os americanos contra os brasileiros, a lógica do sertão brasileiro contra o ponto de vista dos snipers gringos, a cidade enquanto lugar de convivência ou espaço de apropriação. O roteiro une todas as suas pontas soltas, ressignifica elementos (o estranho produto colocado na boca, os caixões) e se livra à catarse prometida tacitamente desde as primeiras imagens. Por mais premonitórias que fossem as cenas iniciais – vide o olhar externo, chegando de fora da Terra, enquanto Gal Costa canta uma “canção de amor para gravar num disco voador” -, elas só se completam realmente neste segmento final. Os diretores parecem então mais desenvoltos, mais assertivos, propondo uma estética do gozo (político e sexual) após a longa exposição conceitual.

     

    Por esta razão, vale a pena enfrentar o trajeto árido do filme para descobrir onde desemboca tamanho contorcionismo narrativo. Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles constroem uma curiosa fábula social sobre uma cidade que desaparece, uma cidade tomada por inesperados inimigos munidos de arrogância e um curioso senso de propriedade privada. “Nada justifica melhor a condição burguesa do que acreditar que se merece ocupá-la”, afirmavam os sociólogos Pinçon, num raciocínio bem exemplificado pela trama. Enquanto isso, os moradores de Bacurau vivem numa comunidade solidária, horizontal e progressista, tendo aprendido a desaparecer quando necessário, a transformar sua invisibilidade em força e estratégia, desde o encontro com o prefeito até as cenas finais.

     

    A relação deste conto com o cenário brasileiro se faz ao mesmo tempo metafórica e evidente: nos tempos em que se questiona com frequência porque o povo brasileiro tem aceitado calado tamanha opressão, sem se unir e se revoltar, o filme propõe uma revolução simbólica da classe trabalhadora contra as classes dominantes, uma revanche histórica dos brasileiros contra o colonizador. “Se alguém tem que morrer, que seja para melhorar”, afirma a canção final, sustentando o preceito revolucionário segundo o qual, para se construir algo, é preciso destruir o sistema preexistente. A incitação à revolta pode ser apenas alegórica, ou então concreta, de acordo com o ponto de vista. Mesmo assim, a ideia está lá, clara até demais.

     

    PS: Ao invés de organizar um protesto político no tapete vermelho do Festival de Cannes, como tinha feito alguns anos anteriormente com Aquarius, Kleber Mendonça Filho, Juliano Dornelles e sua equipe deixaram que a obra se tornasse um discurso por si própria. E acrescentaram, nos letreiros finais, que este projeto gerou mais de 800 empregos, movendo a indústria nacional. Isso serve de aviso cristalino àqueles que não enxergam o empenho nem o valor (cultural e econômico) do cinema nacional.

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    Comentários

    • Daniel Rocha
      Bacurau é simplesmente um dos melhores filmes nacionais que vi. Para entendê-lo, é necessário entender da cultura nordestina, dos costumes da roça, dos pequenos povoados, da maneira como as coisas nesses lugares funcionam. Geralmente eu não sou de elogiar o cinema nacional, pois acho as atuações muito forçadas e, surpreendentemente, Bacurau traduz com perfeição o que é um nordestino de interior, como funciona a política, os costumes do povo local e tudo isso sem ser uma atuação forçada. Simplesmente, perfeito!Reconheço que parce uma história meio maluca, entretanto as atuações tão espontâneas me fez gostar e perceber as diversas mensagens que o filme passa.O filme retrata o abandono do poder público em lugares como Bacurau, a chegada da tecnologia em todos os lugares, o esforço dos professores em tentar levar educação mesmo com condiçoes minimas de trabalho... Em resumo, amei!
    • Rodrigo Dias Guarani Kaiowá
      Lá tem as notas separadas dos críticos e dos internautas. Cada crítico tem nome, sobrenome e site onde fez sua crítica, que vc pode ler na íntegra, se quiser. Nem sempre eu concordo com os críticos, mas como assisti Bacurau, não tenho como não concordar. Você é que não conhece nosso país, nosso povo e nossa história, para não enxergar ali uma metáfora precisa sobre 519 anos de exploração. Como dizem alguns índios: você, branco, não tem alma!
    • Rodrigo Dias Guarani Kaiowá
      Você é tão colonizado que dá pena. Os padres chegaram aqui destruindo milhares de culturas, e você se coloca do lado deles, como todo pobre coitado que precisa da chancela de uma autoridade rica para ter autoconfiança. Em vários lugares da Europa o top less não é crime, mas acho que nem assim pra você entender. Prefere ficar do lado dos colonizadores (representados pelos gringos do filme), por piores que sejam. Tá na cara porque vc não gostou do filme (se é que assistiu). Porque ele retrata os colonizadores (e os brasileiros vendidos) como os vampiros que são. Vc se viu na pele do paulista babaca, por isso tá tão magoadinho, né?
    • Rodrigo Dias Guarani Kaiowá
      O Rotten Tomatoes é tão ruim que o Google o usa como uma das suas 3 referências básicas sobre cinema. E a Wikipedia é uma coleção de referências, mas é pra quem sabe usar (pelo visto não é o seu caso).
    • jaleks
      Quem usa esse rotten como referência é o mesmo que se valida por meio da wikipédia kkkkk E acha que sabe muito né?? kkkkk
    • jaleks
      Quer o quê? O direito de sair em público nu?! Põe uma melancia no pescoço, já que sua desconstrução amoral nunca vai pegar!
    • jaleks
      Mas diga aí patetão, você realmente sabe como um filme funciona/é pontuado neste controverso site da internet? Pelo visto não! Outro fato é que ali há filmes amados por gerações com pontuação xoxa e porcarias audiovisuais com notas altas. Além disso, só porque esse filme entusiasmou 63 pessoas não faz de um filme automaticamente bom... Só podia ser coisa de esquerdista mesmo, tentar se mostrar como algo que não é: versado em qualquer arte! kkkkkkkkk esquerdopatas e suas lorotas....
    • jaleks
      Que ódio?? Acho que tudo que não convém a vocês é ódio né?!?
    • Rodrigo Dias Guarani Kaiowá
      Falou o baba-ovo de Hollywood. Como vc explica então 90% de aprovação entre os críticos do Rotten Tomatoes, sabichão?
    • Rodrigo Dias Guarani Kaiowá
      A nudez é também uma forma de retratar os malefícios da colonização que transformou o corpo humano em pecado.
    • Rodrigo Dias Guarani Kaiowá
      90% de aprovação de 63 críticos internacionais no Rotten Tomatoes. Mas é você que entende de cinema, né? Kkkkkkkk bozominions...
    • Clotilde Pina Figueiredo
      Excelente análise !
    • Clotilde Pina Figueiredo
      Exato! uma caça humana.
    • anne
      pq maniqueísta?
    • anne
      Cara, na boa. Crivella presidente?Melhore. Apenas.
    • Andre Arteze
      filme é incrível
    • jaleks
      Mais uma merda para endossar a agenda esquerdista, profundidade: rasa e repleta de indiretas... Uma tosquice sem igual!
    • jaleks
      É um filme pra endossar temáticas de esquerda
    • jaleks
      O obscurantismo já passou, a esquerda perdeu!!!
    • Igor Bruno
      Acredito que os estrangeiros foram a Bacurau para se divertir através da caça esportiva. Vide a marcação de pontuação, a menção que o brasieliro é inferior, entre outras dicas.
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