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    Doutor Sono
    Críticas AdoroCinema
    3,5
    Bom
    Doutor Sono

    Encarar traumas e encontrar esperança

    por Barbara Demerov
    Mike Flanagan tinha uma missão difícil a ser executada em Doutor Sono, e isso não se deve somente ao fato da história ser baseada num livro de Stephen King ou de ser a sequência direta de O Iluminado, uma das obras mais conhecidas de Stanley Kubrick (diretor reconhecido até hoje pelo perfeccionismo explícito em cada projeto). A grande questão sobre este capítulo - tanto no livro de 2013 como no filme - recai no ato de se expandir um universo já elevado justamente por conta do mistério que o cercava. Se havia muitos outros como Danny Torrance ou se existiam pessoas que aproveitam-se da tal "iluminação", essas não eram perguntas prioritárias, simplesmente porque o que estava ali, em cena ou nas páginas, já era o suficiente.

    Ou, pelo menos, parecia ser. Como o próprio King escreveu uma sequência literária, a faca e o queijo já estavam nas mãos de Flanagan, que aproveita a oportunidade para imprimir sua própria identidade imagética em Doutor Sono, ao mesmo tempo que homenageia a estética soturna e fria de Kubrick. Seu filme mais se assemelha a uma aventura de ação do que propriamente a um suspense aterrorizante, condição essa fruto de um roteiro que não pretende desmistificar o dom da telepatia e da premonição de seus detentores, mas sim de gerar uma trama descomplicada de bem contra o mal.



    Por isso, Doutor Sono muito tem a ganhar devido a combinação dos principais elementos que compõem a realidade de O Iluminado, e não necessariamente do que é característico apenas deste capítulo. Basicamente tudo é proveniente do que vimos no filme de 1980, e Flanagan parece muito preocupado em emular símbolos que remetem diretamente a Kubrick, inserindo referências inusitadas (como a cena em que Danny é entrevistado a fim de garantir um emprego dentro de um cômodo que é impossível passar despercebido). O diretor sabe que tais analogias precisam estar ali para satisfazer quem já é familiarizado com a história, mas ao mesmo tempo as controla de modo que fiquem harmonizadas com a realidade atual do protagonista (interpretado por Ewan McGregor), já adulto e ainda assombrado pelos fantasmas literais de seu passado.

    Passada mais de 30 anos após os eventos no Overlook, a trama possui alguns fragmentos da família Torrance após o que houve no hotel (com a escolha de atores bem semelhantes aos do filme de 1980) e fala especificamente sobre ciclos, estejam eles relacionados com a ruptura ou seguimento dos mesmos. Os símbolos que Flanagan insere estão ligados ao caminho que Danny está fadado a seguir por conta dos laços com seu pai, indicando ao espectador que tal trajeto está livre por Jack Torrance ainda viver dentro em Danny, ou obstruído pela boa intenção do protagonista em ser alguém melhor. O filho de Wendy hoje sofre de alcoolismo (mesma doença do pai), não tem nada fixo em sua vida e sua iluminação está bloqueada - por medo e vontade própria. É só quando ganha a consciência de que há outros como ele que Danny abre sua mente, seguindo um fluxo de possibilidades tão inéditas quanto similares ao passado.



    Apesar de ser o cerne de tudo, o arco de Danny Torrance se mistura com outros tão importantes quanto, pois há novos personagens que exercem papéis essenciais também. É o caso de Abra (Kyliegh Curran) e Rose the Hat (Rebecca Ferguson, que rouba a cena), duas pessoas extremamente poderosas e em contraste uma com a outra. Enquanto Abra é um ser iluminado, Rose dedica sua vida a roubar tal brilho de crianças para usá-lo como alimentação, mantendo-se, assim, sempre jovem. E onde Danny entra nessa história? A partir do momento em que passa a seguir os passos de Dick Hallorann (chef do Overlook), quando o filme coloca o personagem como uma espécie de mentor, um guia tanto da narrativa como de Abra (com quem passa a se comunicar telepaticamente). O mesmo ciclo relacionado a seguir ou não uma predição também passa a ser um ciclo de continuidade da mesma estrutura.

    Mas também é por colocar tanto em visibilidade que Doutor Sono perde o foco por muitas vezes, especialmente no que se diz respeito ao título e ao papel de Danny quando se muda para uma cidade pacata e trabalha como enfermeiro. Ele é o doutor do título, mas a execução de seu dom raramente é explorada e não se encaixa muito no todo. Por se ater tanto ao passado, há poucas cenas em que vemos Danny pensando no futuro: ora ele fala do pai em uma sessão de alcoólicos anônimos, ora fala da mãe e da origem de seu medo em usar os poderes da iluminação. Sua atmosfera apagada é compreensível e diz muito sobre si, mas por vezes o personagem não atua como protagonista de sua história - exceto pelo terço final do filme, que une passado, presente e futuro num só lugar.



    Porém, até chegar a este terço final, Doutor Sono é um emaranhado de pontas soltas que não se unem - às vezes sem cuidar de alguns detalhes de sub-tramas em prol do tópico principal: a redenção de Danny. É certo que Rose é uma vilã de alto nível, com missão clara e desenvoltura impecável quanto ao que almeja, mas sua equipe (tirando dois personagens que ganham algumas falas) não possui qualquer tipo de relevância na trama. As pessoas que estão com Rose têm o mesmo anseio, mas só a líder é capaz de ser o alicerce daquele assombroso ideal. Inclusive, é apenas com Rose que Abra se conecta mais a fundo, criando um embate psíquico muito interessante, capaz de sair das páginas do livro sem soar confuso ou didático demais. Tal embate é um dos pontos altos do longa pois mostra uma parcela mais profunda do que é ser alguém com o dom da iluminação (usada para o bem ou para o mal).

    É nos momentos fantasiosos que Flanagan encontra seu brilho próprio e um ritmo dinâmico, ainda que este seja ditado pela urgência da ação ao invés da ligação mais potente entre personagens. Com um elenco afiado e em sintonia, o filme transita entre uma conjuntura moderna e arcaica, assim como numa exploração de locais e visões que vão de King a Kubrick num piscar de olhos sem que o repertório do diretor seja deixado de lado... até certo ponto. Flanagan resolve tirar o pé do freio no ato final, pulando da aventura para o terror com a intenção de criar a mesma atmosfera de 1980. Tanto o filme quanto Danny buscam o passado como principal alento, mas essa revisita - apesar de bem elaborada esteticamente - soa mais como um eco desorientado que alcança a nostalgia, e não o coração de uma história que se ambienta nos dias atuais.
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