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Malasartes e o Duelo com a Morte
Críticas AdoroCinema
3,0
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Malasartes e o Duelo com a Morte

O bom malandro

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No país do jeitinho, a imagem do malandro é intrínseca à cultura brasileira, com características que variam dependendo das peculiaridades de cada local. Pedro Malasartes é uma de suas personificações clássicas, síntese do matuto ingênuo de bom coração que, sempre que possível, aplica pequenos golpes para ganhar uns trocados - nada que resulte em danos físicos às vítimas, é bom ressaltar. Interpretado por ninguém menos que Mazzaropi em As Aventuras de Pedro Malazartes - isso mesmo, com Z -, o personagem ganha agora nova versão, recauchutado de forma a atrair o público mais jovem sem deixar de lado sua essência.

Malasartes e o Duelo com a Morte - FotoDesta forma, a versão século XXI não só traz Malasartes aplicando golpes clássicos do repertório interiorano como, também, busca atrair a partir dos muitos - e nem sempre necessários - efeitos especiais. Tal situação busca uma junção entre o clássico e o moderno, que nem sempre funciona bem não propriamente pela coexistência, mas pelo que cada um representa: o cotidiano e o fantástico. É nesta mistura que o filme apresenta uma nítida irregularidade, não só narrativa mas também pelo lado da diversão.

Muito porque o trecho do cotidiano, onde o universo de Malasartes é situado, é muito melhor que o estrelado pela Morte e seus asseclas. Com Jesuíta Barbosa inspirado na composição do protagonista, o filme diverte a partir de um humor ingênuo que, além dos breves golpes e fugas atabalhoadas, conta ainda com um elenco afiado: Milhem Cortaz e Ísis Valverde estão muito bem, trazendo carisma a personagens absolutamente estereotipados que, apesar disto, servem bem à história proposta. Além disto, o filme conta com um inspiradíssimo Augusto Madeira como Zé Candinho, que lhe oferece a oportunidade não só de criar uma persona típica do interior como, ainda, alternar emoções no decorrer da trama.

Por outro lado, os personagens do universo fantástico são apenas corretos - e, em certos casos, mal fundamentados. É o caso da Morte interpretada por um escancaradamente vilanesco Júlio Andrade e ainda das Parcas, sem grande função na trama. Recheado de efeitos especiais e um apuro maior nos cenários e na direção de arte, a imersão por este universo oferece um interesse maior pelo lado visual do que propriamente narrativo, até porque é neste ambiente que o roteiro perde o humor demonstrado até então e dá voltas desnecessárias. Há também um certo exagero na opulência dos efeitos especiais, uma decisão claramente tomada mais de olho no público-alvo do que propriamente pelas necessidades da história.

Malasartes e o Duelo com a Morte - FotoApesar da irregularidade nas idas e vindas entre os mundos real e fantástico, ainda assim Malasartes e o Duelo com a Morte é um filme divertido, que entrega bons momentos. Muito graças à qualidade do elenco, em especial a capacidade de Jesuíta Barbosa na alternância de expressões faciais em questão de segundos, o que ajuda bastante na composição deste personagem que, obrigatoriamente, precisa conciliar ingenuidade e esperteza. Como revés, há também um Leandro Hassum bastante infantilizado e um didatismo exagerado a partir da repetição do mantra em torno do tal duelo entre Malasates e a morte. Por mais que não tenha atingido todo o potencial possível, devido aos excessos visuais que resultaram em problemas de coesão, trata-se de um bom filme que, ainda por cima, comprova a possibilidade de um cinema comercial no Brasil baseado na cultura popular, sem ser dependente de nomes famosos da televisão ou do música.


Filme visto no 27º Cine Ceará, em agosto de 2017.
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