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2,5
Regular
Para Minha Amada Morta

Macho em luto

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Fernando (Fernando Alves Pinto) acaba de perder a esposa. Para retratar a dor do personagem, o roteiro coloca à disposição todos os símbolos clássicos do luto: ele dorme cheirando as roupas da amada, fica observando fotografias dos dois juntos, assiste a vídeos dos bons momentos do casal, organiza as joias e outros objetos pessoais dela. Um dia, descobre em uma das fitas que a esposa o traía. Transtornado, Fernando decide fazer o que qualquer macho dominador faria: encontrar o amante, matá-lo, seduzir a esposa dele e, se possível, seduzir a filha mais velha também.


O filme abre caminho para o protagonista realizar sua vingança sem muitos obstáculos. O filho de Fernando é convenientemente retirado da história (ele vai passar alguns dias na casa da tia, sabe-se lá por quanto tempo), o trabalho de fotógrafo é esquecido, o adversário é encontrado em poucas horas e seguido com facilidade: Fernando caminha a poucos metros de distância do inimigo, em uma rua vazia, mas não é percebido por ele. Ao invés de construir a tensão esperada da vingança (será que o plano vai dar certo?), o diretor Aly Muritiba trabalha com uma transparência espantosa: o inimigo, veja só, está alugando um quartinho nos fundos de casa, perfeito para Fernando alugar e se aproximar da família dele.

 

As conveniências da narrativa fazem de Para Minha Amada Morta algo muito diferente de outros suspenses com intrusos destinados a implodir famílias ou casais alheios. Ótimas produções como O Lobo Atrás da Porta, A Faca na Água, Teorema e Dentro da Casa funcionavam na base da progressão lenta e asfixiante: a presença do estrangeiro era cada vez maior, e o perigo cada vez mais palpável, até um inevitável confronto. Já o filme paranaense elimina a violência eminente: Fernando atravessa os dias com uma apatia insuspeita. Nada indica que este homem vai de fato colocar seus planos em prática: nem o roteiro (a pá na mão nunca parece destinada ao inimigo, a cena sobre o telhado não se transforma em ameaça), nem a atuação vaga de Fernando Alves Pinto. Esta é uma obsessão morna.

 

Outro problema é a dificuldade em desenvolver a narrativa. Na falta de conflitos construídos pela imagem, Aly Muritiba aposta em diálogos explicativos para fazer a história de Fernando progredir. Quando os dois homens estão conversando, em uma longa cena noturna, eles admitem rapidamente seus problemas, seus segredos, e fornecem todas as informações necessárias ao espectador. O roteiro não está aberto a sugestões, insinuações, metáforas: tudo é revelado de modo direto e frontal. É curioso que o cineasta trabalhe com a estrutura clássica do suspense, mas negue ao filme a tensão e opacidade típicas do gênero.

 

No mesmo festival de Brasília em que foi apresentado Para Minha Amada Morta, outro filme de Aly Muritiba foi mostrado ao público: o curta-metragem Tarântula. A ótima história continha todos os elementos ausentes no longa: planos inteligentes e sugestivos, fotografia claustrofóbica, personagens dúbios, ameaça crescente. Prova de que o diretor sabe bem como obter esses efeitos, mas talvez tenha preferido manter seu primeiro longa nas rédeas do drama tradicional. Pelo menos a conclusão é eficiente, e a produção serve para revelar o talento da atriz Giuly Biancato, ótima no papel da filha mais velha. Mesmo que o filme nunca apresente o momento de explosão anunciado desde o início, ele ainda desperta curiosidade quanto à próxima produção do diretor, que certamente possui o talento necessário para manipular as regras do gênero e as ferramentas da linguagem cinematográfica.

 

Filme visto no 48º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, em setembro de 2015.

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