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Gloria
Críticas AdoroCinema
4,0
Muito bom
Gloria

Envelhecer, mas sem perder a ternura

por Bruno Carmelo

Ao longo de quase duas horas de Gloria, poucos conflitos acontecem. Esta é uma daquelas raras histórias apaixonadas por um personagem banal, e dispostas a segui-lo fielmente, dia após dia, aguardando seus próximos passos. Gloria, perto dos 60 anos de idade, leva uma vida confortável e se preocupa apenas em criar laços afetivos: aproximar-se dos filhos adultos, que seguiram vidas independentes, encontrar um namorado, fazer novos amigos nas pistas de dança.


Gloria - FotoEsta personagem foge da maioria das representações de mulheres próximas da terceira idade. Ela não é uma cougar, madura e sedutora, tampouco é uma mãe amargurada ou uma mulher divorciada de coração partido. Gloria tem uma sexualidade bem resolvida, é confiante em sua beleza e seu interesse. A direção de Sebastián Lelio aceita esta mulher como ela é, sem tentar embelezá-la, nem escavar seus traumas (não há psicologismos neste retrato naturalista). As cenas de nudez, ioga ou dança são de uma espontaneidade e liberdade muito bem-vindas.

 

A câmera aproxima-se do rosto de sua protagonista em todos os instantes, e nenhuma cena ocorre sem a presença de Gloria em cena. Mesmo quando a personagem tem algum objeto em mãos, ou faz alguma tarefa doméstica, a imagem continua fixa em seu rosto, como se tivesse medo de perder alguma expressão desta mulher fascinante.

 

Gloria - Foto

Paulina García, no papel principal, traz diversas nuances para a protagonista, oscilando entre a depressão, a euforia, o tédio, a curiosidade. Os diálogos precisos permitem que a atriz percorra um vasto leque emocional em alguns segundos. A cena em que um homem lhe pergunta se ela é “sempre tão feliz” é excepcional: Gloria sorri, lisonjeada, mas depois adota uma expressão mais séria e responde que não é feliz durante as manhãs, e tampouco na maioria das tardes. A tristeza é de partir o coração. García possui os olhos semicerrados, com pálpebras pesadas, que criam o mesmo mistério e ambivalência tão elogiados em outras atrizes, como Charlotte Rampling, por exemplo.

 

Desta história simples e engraçadíssima, transparece uma constante sensação de ternura por Gloria e pelo próprio envelhecimento. Sem condescendência ou paternalismo, Lelio ousa achar que a simples vida de sua personagem é interessante por si própria, sem precisar incluir reviravoltas acessórias no roteiro (doenças, separações dolorosas, acidentes etc.). Este é um de seus principais acertos: dar tempo para o espectador conviver com sua protagonista, conhecer a sua complexa personalidade, os seus gestos, as suas mínimas evoluções. Por causa do contexto tão neutro, o momento em que Gloria finalmente aceita a presença do gato do vizinho é mostrado como uma doce revolução interior.

 

Gloria - FotoEm filmes como este, onde a história é linear e não prepara o espectador para um clímax específico, a conclusão sempre desperta curiosidade. Como terminar uma história que poderia continuar por meses e meses na vida da personagem? Lelio opta por um final sensível, poético, apostando mais uma vez na variação emocional que Paulina García é capaz de atribuir a Gloria. A personagem, já muito interessante no roteiro, ganhou das mãos do diretor e da atriz principal tanto afeto e respeito que fica a vontade de continuar a conviver com ela, seja numa série ou num livro. Gloria teria estofo suficiente para preencher uma saga literária.

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